Resenha de Guerras Secretas Mestre do Kung Fu #1 – Panini Comics

Capa da edição que compila versões diferentes do Shang Chi e dos Motoqueiros Fantasma

Apesar do título, este encadernado contem duas histórias completas de personagens radicalmente diferentes: além do Mestre do Kung Fu, temos o Motoqueiro Fantasma, ambos em versões alternativas, claro, já que estamos no Mundo Bélico. O que tem em comum é sua completa desconexão com as tramas do Doutor Destino. Dá para ler esta revista e ignorar completamente a saga Guerras Secretas.

. Nível de Spoilers: leves, nada relevante.

A primeira história, traduzida da minissérie original em 4 partes Master of Kung Fu, de 2015, apresenta um Shang Chi residente do Domínio de Kun Lun, um reino com ares da China medieval governado com mão de ferro por seu pai, Zheng Zu – uma versão do Mandarim que também pode ser entendida como análoga de Fu Manchu, o pai “original” do verdadeiro Shang Chi nos quadrinhos da Marvel: ambos são imperadores malignos, mas Fu Manchu não pode mais ser utilizado pela editora porque pertence ao espólio de seu criador, o inglês Sax Homer, prolífico autor de histórias de Pulp Fiction de meados do século passado.

Logo na introdução, começamos a conhecer a interessante história desta radicalmente diferente Kun Lun, um reino milenar forjado por mestres de Kung Fu de 13 escolas, todas inspiradas em personagens Marvel, como a escola dos Dez Anéis (Mandarim), da Pantera (Pantera Negra), do Tentáculo Escarlate (O Tentáculo), e assim por diante, incluindo, logicamente, o Clã do Punho de Ferro, visto que Kun Lun é, na cronologia Marvel oficial, o nome da cidade mística onde Daniel Rand aprendeu sua técnica e ganhou seus poderes.

O autor desta HQ, Haden Blackman – que recentemente roteirizou a revista solo da Elektra – fez um interessante mash up entre os grandes lutadores da Marvel com o universo dos mutantes (e além). No começo desta história, conhecemos um Shang Chi bêbado e alquebrado espiritualmente, além de um pequeno grupo de jovens rebeldes das ruas que, na verdade, são versões de Morlocks, X-Men e Novos Mutantes.

Esse bando de desajustados terá importante papel ao longo da história e, dando um pequeno spoiler, eles transformarão este Shang Chi em um verdadeiro… Mestre do Kung Fu! A ideia é ótima e está totalmente integrada à proposta desta história.

O outro núcleo de personagens é formado pelos aliados do Barão Zheng Zu, incluindo versões do Punho de Ferro (um xerife que também tem interesse em destronar o Imperador), da Elektra, do Surfista Prateado (?), e, acredito, do Laughing Mask, um obscuro personagem dos anos 40, visto pela última vez na série The Twelve – ainda inédita aqui no Brasil. Posso estar enganado, mas a máscara lembra bastante. Muitos disseram, contudo, que o Crânio Sorridente seria na verdade uma versão do Treinador.

A propósito, uma das qualidades desta HQ é adivinhar quem é quem, ou melhor, qual herói ou vilão inspirou as dezenas de personagens deste surpreendente tie-in. Blackman monta um roteiro bem amarrado, um reino com uma história intrigante e rico em detalhes, com interessantes personagens com motivações reais. Acho que falta, contudo, refinar as “vozes” do elenco. Todos tem mais ou menos o mesmo padrão. Um diálogo um pouco mais criativo nesse sentido ampliaria ainda mais a qualidade da história, que também traz uma arte refinada.

Crânio Sorridente seria versão do Treinador? Ou do Laughing Mask?

Laughing Mask, personagem dos anos 40 visto em The Twelve.

DaliborTalajic engrandece enormemente esta revista. Com arte-final de Goran Sudzuka e cores de Miroslav Mrva, as páginas compõem uma agradável arte sequencial, com um ritmo veloz, fluido. A paleta de cores suaves, com ênfase em tons pastel, combinam totalmente com os traços elegantes e bem delineados de Dalibor e Sudzuka. O desenhista é muito bom com as expressões faciais, marcantes, diversificadas, intensas, raras de se ver na atualidade. Uma curiosidade: ele é praticante de artes marciais, o que explica porque as cenas de lutas corporais são caprichadas e verossímeis.

Arte sofisticada de Dalibor

Os quatro capítulos desta incrível história trazem drama, ação, mistérios e uma criativa coleção de versões de lutadores místicos de vários ícones da Marvel, algo até moderno ao pensarmos em videogames e mangás de grande sucesso. A propósito, há uma fantástica batalha com estética de “Boss Fight“. Mas, talvez o mais importante, é uma saga de pura redenção, o conceito-chave que fez de Shang Chi um grande personagem.

Nota para Mestre do Kung Fu: 8,5.

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A segunda história, que em um primeiro momento a Panini chegou a dizer que não sairia no Brasil, mas que por fim encontrou um espaço nesta edição, traz As Corridas Fantasmas, uma minissérie em 4 partes com o título original Ghost Racers, escrita pelo mesmo Felipe Smith que criou o atual Motoqueiro, o latino Robbie Reyes, cujas primeiras histórias saíram em dois encadernados em 2017 no Brasil.

Arte de Juan Gedeon com os vários corredores fantasma do Circo da Morte do Mundo Bélico

Esta história mostra um pouco do que acontece no Domínio de Doomstadt, onde se localiza o Circo da Morte, uma arena construída para jogos violentos, comandada por Arcade, e palco de entretenimento da miríade de populações do Mundo Bélico.

Veremos versões anabolizadas de todos os Ghost Riders relevantes – Johnny Blaze, Danny Ketch, Alejandra Blaze e Carter Slade, este em um incrível formato de centauro – além de outros menos conhecidos e até algumas novidades, como um T-Rex ciborgue que voa acoplado a um Raptor R-99 (!) e um outro que cavalga um Mamute. Opa, seria a primeira aparição em quadrinhos do desconhecido “Ghost Rider original”, apresentado recentemente em Marvel Legacy #1, de Jason Aaron e Esad Ribic?

Felipe Smith criou uma aventura acelerada, praticamente independente do resto das Guerras Secretas, que traz como protagonista o atual Rider, sem esquecer seu simpático irmão Gabriel, e o coloca como “o novato” na Arena – uma alusão meta-linguística ao que ele é, de fato, na história de quadrinhos dos Motoqueiros. A revista traz algumas ideias curiosas, mas o roteiro não escapa de clichês. O final até surpreende mas, de certa forma, tampouco é criativo.

A arte de Juan Gedeon é econômica nos traços e possui um estilo cartunesco, quase de animação infanto-juvenil, mas nem sempre clara. Embora lembre, até certo ponto, o estilo de Tradd Moore – o criador do Motoqueiro Reyes – fica aquém na composição dos quadros e páginas. Os poucos detalhes, mais as cores excessivamente brilhantes de Tamra Bonvillain dificultam em distinguir os diversos personagens, especialmente nas “velozes e furiosas” batalhas.

No geral, esta HQ é algo decepcionante. As várias páginas dedicadas às batalhas reduzem o espaço para o desenvolvimento dos personagens. Quem não conhecia Robbie Reyes provavelmente sentiu dificuldades para ter alguma empatia com o novo espírito da vingança que, ressalta-se, é de uma natureza diferente da dos Motoqueiros anteriores. Esse ponto é até abordado, mas superficialmente.

Outro problema é o Arcade, um dos vilões mais sem-graça da Marvel. Com certeza a premissa de um Circo da Morte para vermos Ghost Riders em ação é até bacana, mas a explicação de como os controlam é bem pouco crível. Fica difícil “torcer” pelos motoqueiros, nitidamente muito mais poderosos que seus captores. A resolução da trama é tão rápida que, no final das contas, parece irrelevante.

Infelizmente, é uma série completamente descartável encaixada em uma revista nitidamente superior de outro personagem. Coisas das HQs Marvel no Brasil.

Nota para Os Corredores Fantasma: 5,5.

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