Resenha de Guerras Secretas Zonas de Guerra #1 – Panini Comics

Capa da Panini que compila as histórias 1872 e Onde Vivem Os Monstros

Outra edição especial da Panini que traz dois tie-ins das Guerras Secretas: as ótimas minisséries 1872 e Onde Vivem os Monstros. Em comum, ambas são situadas em cenários do passado e, lógico, em diferentes domínios do Mundo Bélico de Destino.

. Volume de Spoilers: Nenhum, leia sem medo.

De saída, é preciso esclarecer que estas duas histórias são completamente independentes da megasaga. Portanto, se gostar dos temas, personagens ou dos artistas envolvidos, vale a pena dar uma procurada na internet ou nos bons sebos da sua cidade, porque Zonas de Guerra é mesmo muito interessante.

1872 apresenta um momento de virada na história de Timely, um arquétipo da ‘pequena cidade do meio oeste americano do séc. IXI’ onde vivem versões de Tony Stark, Bruce Banner, Steve Rogers e diversos outros ícones da Casa das Ideias. Para quem não sabe, Timely era o nome original da editora de quadrinhos criada do final dos anos 1930 e que viria a ser Marvel.

Mas, o verdadeiro protagonista é o índio Lobo Vermelho que, prestes a ser enforcado à revelia da lei, é salvo pelo xerife local – nada mais, nada menos, que Steve Rogers (só lembrando aos mais distraídos, o “nosso” Capitão América). Esse salvamento desperta a ira do prefeito de Timely, Wilson Fisk (o “nosso” Rei do Crime), o que gera uma sequência de confrontos nas ruas da cidade que, até o final deste verdadeiro conto de faroeste, ficarão recheadas de sangue, muito sangue mesmo!

Belíssima ilustração de Alex Maleev para a capa de 1872 #1

Os leitores veteranos podem entender que 1872 é uma HQ no estilo “O que aconteceria se… os heróis Marvel existissem no velho oeste?“. Há muitas surpresas ao longo dos 4 capítulos que, como nos melhores quadrinhos de realidades alternativas, entrega ao leitor uma diversão extra: identificar “quem é quem” na nova ambientação. E há muitos personagens mesmo, heróis, vilões e elenco de apoio.

Gerry Duggan faz, como de costume, um trabalho muito competente e prova mais uma vez que é um roteirista extremamente versátil. Cria uma ambientação excelente, que permite ao leitor uma autêntica imersão no velho oeste – nem lembramos que isto tudo é um Domínio do Mundo de Batalha. O roteiro é ágil, sem pontas soltas, e os diálogos, afiados e instigantes. Como nas melhores histórias desse gênero, há reviravoltas e duelos, bem construídos, sem exageros, mesmo para os padrões Marvel.

Parece acertada também a opção de Guggan ao escolher Ben Urich como o narrador deste sanguinolento conto. Como esse personagem “sem poderes” é um repórter, surge uma camada adicional na leitura: pequenos lembretes de que naquele período da história (real) americana a democracia ainda era um processo em construção, que a imprensa era refém dos poderosos, que os índios sofriam um verdadeiro massacre, que as mulheres não tinham direitos, que a Justiça era covarde, que os pequenos comerciantes eram achacados por criminosos e assim por diante. Sim, sutilmente o roteirista consegue levantar todas essas bandeiras dentro do contexto de sua história.

Há muita violência na Timely do Velho Oeste

Mas o autor brilha, especialmente, com o desenvolvimento do Lobo Vermelho. Esse é um personagem que também existe no Universo Marvel regular, mas é de oitavo escalão, daqueles esquecidos pelo editorial. No começo, apesar de ser o catalisador da trama, temos a impressão que será quase um “observador” dos acontecimentos. Mas, a partir de um determinado fato, ele se move para o centro da história. Sem entregar detalhes, fiquei com vontade de ler outras HQs com este personagem no mundo de 1872.

Nik Verella
faz um trabalho excelente em capturar tanto as grandes paisagens do velho oeste, como o clima das pequenas construções de madeira e, claro, a pobreza, as limitações de tecnologia e a violência do período. O desenhista se excede, contudo, nas expressões faciais, essenciais para mostrar os variados aspectos humanos dos personagens de Duggan, especialmente suas falhas e limites. Stark não só tem um apreço pela bebida, ele parece de fato um alcoólatra. Igualmente, o Rogers de Verella parece de fato acreditar na justiça. E seu Ben Urich quer escrever verdades, mas de fato teme pelas consequências.

A composição dos quadros e a postura dos personagens são sempre muito bem resolvidas. É curioso também que o desenhista acrescenta alguns elementos de steampunk – como parece ser inevitável nas atuais produções da cultura pop sobre o período – mas segura no limite do crível. Isto é, fica também parecendo natural.

Steve Rogers e Tony Stark no elegante traço de Nik Virella

As cores de Lee Loughridge captam a areia do deserto espalhadas nas roupas, móveis e na pele de todos, em tons de amarelo e marrom, e são determinantes para a experiência completa deste western revisionista de primeira linha da Marvel. No geral, o trio de artistas entrega um excelente trabalho de ponta a ponta.

Se há algo que impede uma nota mais alta é que, por mais incrível que seja o roteiro, dá para antever algumas situações, inclusive o desfecho, ao menos em suas linhas gerais. É certo que, desde o começo da história, o leitor recebe pistas do que vem pela frente. Entretanto, há boas surpresas no meio do caminho, que fazem de 1872 uma das melhores produções das modernas Guerras Secretas da Marvel.

Nota para 1872: 8,5.

A segunda história deste encadernado traz, na totalidade, Onde Vivem os Monstros, uma minissérie em 5 partes escrita pelo sarcástico – e brilhante – Garth Ennis e desenhada por um de seus colegas de The Boys, Russ Braun.

Capa de Frank Cho com a intrépida Clemmie Franklin-Cox e um batalhão de mulheres guerreiras a la Sheena das Selvas

De todas as revistas interligadas ao megaevento Guerras Secretas, esta certamente figura dentre as mais inusitadas. É preciso lembrar que a Marvel, na ocasião da divulgação da saga, tinha dito que aproveitaria para revisitar seu vasto catálogo e, na companhia dos artistas parceiros, iria lançar alguns títulos pouco convencionais mas, mesmo assim, temos algo especial aqui.

Claro, tivemos novas versões, ou continuações, de outros eventos famosos, sagas maiores e menores; surgiram até mesmo títulos inéditos; e em algumas ocasiões, a Marvel resgatou personagens ultra obscuros e os reapresentou em novas roupagens. Foi assim, por exemplo, com Arkon, um vilão dos anos 1970, inserido durante as Guerras Secretas no título WeirdWorld, escrito por Jason Aaron com uma arte belíssima de Michael Del Mundo e que, inexplicavelmente, não foi publicado no Brasil.

E é assim também com o Águia Fantasma (Phantom Eagle), um personagem de gênero Guerra do qual ninguém se lembra da Era de Prata, encaixado aqui como protagonista de uma minissérie com o título Where Monsters Dwell.

Vale uma explicação adicional: Where Monster Dwell era o nome de um título regular da fase em que a Editora Timely tinha virado a Atlas, e teve uma longa duração nos anos 1950. Provavelmente desconhecida pela quase totalidade dos brasileiros, curiosamente naquela época essa revista apresentava “histórias de Monstros e de Terror”, e não de Guerra. Apesar de bizarro, o mash up funciona!

O Águia Fantasma em uma de suas raras aparições na Era de Prata

Uma das edições da versão original do título “vintage”, com uma formiga gigan… ou melhor, Grottu!

Garth Ennis, notório apreciador de armas e guerras, já tinha trabalhado com o Águia Fantasma em uma ótima minissérie desenhada por Howard Chaykin chamada War is Hell – The First Flight of the Phantom Eagle, e que no Brasil saiu na saudosa Marvel Max da Panini, em meados dos anos 2.000 (edições 66 a 70, conforme o Guia dos Quadrinhos).

Nesta nova empreitada com o personagem, o escritor traz
Karl Kauffman, um exímio piloto americano, filho de pais alemães, que lutou e fez fama na I Guerra Mundial, em algum momento dos anos 1920, em um local não muito preciso próximo a Cingapura.

Nosso herói está prestes a abandonar uma jovem e sonhadora namorada nativa (?) que, por sinal, está grávida, à sua própria sorte e à ira do pai, quando tudo começa a dar errado. Uma das grandes novidades trazidas por Ennis é que seu Kauffman não apenas é um oportunista e mentiroso mas, como veremos ao longo deste conto criativo e violento, é também cruel, egoísta, covarde e extremamente machista.

O Águia Fantasma entrando no Mundo dos Monstros em arte de Russ Braun

Mas, voltando ao argumento, é no momento em que o Águia se prepara para fugir das responsabilidades de criar uma criança que autor introduz, de forma contundente, uma excelente personagem, a jovem aristocrata, inteligente e segura, Clemmie Frankie-Cox. Ela embarca no pequeno avião monomotor de Kauffman com o intuito de pegar uma carona até Cingapura. Logo o leitor perceberá, porém, que ela não é a típica “Dama em Perigo”. De fato, Ennis a coloca para criar embate de ideias e mesmo de postura, coragem e outros contrapontos com o veterano herói de guerra.

Todavia, como é típico nos quadrinhos do autor, não há heróis e vilões claramente definidos, portanto pode-se esperar de Clemmie muitas e surpreendentes revelações, e uma crueldade talvez não tão distante da do próprio Águia Fantasma. Em suma, a dupla de protagonistas/antagonistas rende grandes momentos na história.

A dupla de protagonistas – e antagonistas – rende grandes momentos na HQ

 

Esta HQ é uma espécie de pulp fiction clássico de aventura e fantasia transformada em narrativa gráfica, com um ritmo verdadeiramente vertiginoso, com aparições estupendas de dinossauros, pigmeus, amazonas e outras criaturas míticas, mas que estão sempre à serviço da história principal.

Tudo pode acontecer nesta bizarra e às vezes desesperadora história em quadrinhos retrô, e Russ Braun capricha em todas as frentes. O desenhista traz um ritmo vigoroso e seu estilo é muito apropriado para a proposta, adicionando ação, desespero e ritmo com grande intensidade. Seus monstros, como o título promete, são mesmo um show à parte, mas a caracterização de Kauffman e Clemmie, com suas expressões de pavor, espanto, ironia e ódio são verdadeiramente inesquecíveis.

Tudo pode acontecer neste conto de aventura, ficção e guerra de Garth Ennis

 

Mais uma vez, Garth Ennis entrega uma ótima história, justamente de um personagem que ninguém – nem mesmo a Marvel – parece se importar, e Guerras Secretas ganha um de seus melhores tie-ins. Por isso mesmo que Zonas de Guerra da Panini se torna uma edição altamente recomendada.

Nota para Onde Vivem os Monstros: 9,0.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s