Uma HQ para a Sala de Aula (1) – A Narradora das Neves – Editora Nemo

Capa com design elegante com os protagonistas Inuit esperando o jantar

Este breve artigo é uma sugestão que humildemente deixo para professores que desejam trabalhar com histórias em quadrinhos com seus alunos. Como conheço razoavelmente bem o mercado educacional, além de ser filho de pedagoga e ter um longo contato com projetos educativos variados, inclusive com HQs, quem sabe não possa ajudar?

Há muita coisa interessante neste singelo conto sobre o povo Inuit que, acredito, pode ser bem trabalhado nos colégios com jovens leitores, entre 8 e 11 anos, especialmente por conta do retrato cuidadoso que apresenta do dia a dia de pequenas tribos do vasto território dos esquimós. É bem difícil encontrar material específico sobre essa cultura.

Antes de mais nada, é preciso dizer que esta é uma História em Quadrinhos. Ponto! Não foi planejada especificamente para ser trabalhada em sala de aula – pelo menos é assim que me parece. Isso traz uma grande vantagem e, também, pode trazer um problema.

Como se sabe, atualmente é comum a presença de histórias em quadrinhos nas listas de paradidáticos de colégios brasileiros (especialmente na rede privada). O meio ainda é visto com reservas por alguns professores, mas sem o preconceito de décadas atrás. A constante evolução da linguagem e, principalmente, a gigantesca produção que provém de dezenas de países diversificou os temas, aprofundou os gêneros e, com isso, os públicos.

Porém, o mais usual em sala de aula é vermos adaptações de Clássicos da Literatura – mundial ou brasileira, algumas muito boas por sinal – ou histórias originais nem sempre bem desenvolvidas, ou até mesmo, livros paradidáticos maçantes que por acaso foram desenvolvidas no formato de HQ.

Não é o caso de A Narradora das Neves. E é essa a grande vantagem: por ser uma HQ de verdade, não é “mais um livro paradidático chato” (comentário típico de alunos dessa faixa etária).

Quanto ao problema, digamos que é o outro lado da moeda: o professor precisa extrair da obra o que acha mais interessante e planejar a aula de leitura e interpretação, ou o projeto interdisciplinar que a HQ claramente “pede” para acontecer.

Criada por um trio de quadrinistas franceses, o título é fruto de um projeto capitaneado pela revista GEO, uma espécie de versão francesa da National Geographic, que trata de viagens, povos, natureza e lugares exóticos, em parceria com a editora Dargaud, uma das maiores e mais relevantes editoras de quadrinhos do país do Asterix.

Foram 3 títulos, todos traduzidos para o português pela Nemo, em 2013. Os outros são O Apanhador de Nuvens e As Crianças da Sombra. Eu só tive acesso a este, por enquanto. Um leitor adulto a completa em 20 minutos, mas para uma criança pequena deve levar mais do que o dobro desse tempo. Há também a questão da apreciação das imagens, etc.

Na capa, os créditos de criação vão para uma dupla, Béka & Marko, mas uma rápida pesquisada na wikipedia explica que Béka é o pseudônimo para um casal de autores, Bertrand Escaich (de onde veio o Bé) e Caroline Roque (daí fecha o Ka). Os desenhos ficaram a cargo de Marko, na verdade Marc Armspach (os franceses adoram pseudônimos…).

A HQ traz dois momentos da vida de Buniq, que é quem dá o nome ao título: nos dias atuais, idosa, e suas lembranças da adolescência, 60 anos atrás.

Naquela ocasião, vemos a jovem Inuit incomodada com a atitude de avô, Ukioq, que decidiu deixar a pequena aldeia e ir “se sentar” para morrer sozinho de frio. Sem didatismos, percebemos que essa situação é natural, uma prática comum daquela época, justificada pelas crescentes dificuldades que um idoso doente ou com movimentos limitados trazia para seus familiares naquele terreno quase inóspito.

Buniq, contudo, tem dificuldades em aceitar essa atitude e decide resgatar seu avô. No mesmo dia, um viajante aparece na aldeia e conta histórias que fascinam tanto a jovem que ela resolve, então, organizar uma expedição para lugares distantes na companhia de seu querido Ukioq e, assim, adiar a perda do ancião.

Outro adolescente, o aprendiz de caçador Taq, completa o trio de exploradores do “Grande País dos Homens”, como esse povo chama a vasta região ao redor do Círculo Polar Ártico colonizada pelas tribos Inuites.

Há aventura e ternura, comédia e ação, mas sobretudo é um retrato de um povo verdadeiramente diferente para nós, brasileiros e latinos. É aterrador ver tanto gelo e neve, ventanias súbitas e tempestades, e tão pouca vida animal terrestre, e conseguir não apenas sobreviver, mas desenvolver uma tradição oral de fábulas, manufatura de peles, utensílios e armas, técnicas de caça e de pesca, barcos e caiaques, além de um profundo contato com a natureza e o mundo espiritual.

O traço de Marko é simples, com poucos detalhes, seguindo a tradição da escola da Linha Clara franco-belga, com uma narrativa bem resolvida, fluida e gostosa de se olhar.

As cores singelas, plácidas e realistas com a geografia local são de Maela Cosson e a tradução de Fernando Scheide parece muito boa, sendo a edição da Nemo no geral bem interessante em termos de formato e preço (apesar de ser R$ 34,90 na tabela, é possível encontrar por cerca de R$ 20,00!).

É isso, gostei bastante deste título infanto-juvenil europeu e pretendo comprar os demais da série.

Inuit adulta em trajes típicos do meio do século XX, mesmo período da HQ

Atenção professores!

Segue um resumo do que acho pertinente para trabalhar A Narradora das Neves com seus alunos e assim estimulá-los a ler mais, a conhecer a linguagem dos quadrinhos e, claro, adquirir conteúdos ricos de assuntos diferentes de um jeito legal!

Disciplinas: Geografia . História . Ciências . Português

Temas: Amizade . Amor . Amadurecimento . Tradição . Outras Culturas . Juventude x Velhice . Responsabilidade . Animais do Ártico . Hábitos dos Esquimós .

Idade: de 8 a 11 anos.

Sabe-se, também, que os esquimós seguem rapidamente para a total ocidentalização de seus hábitos, já que atualmente em seus territórios há muito potencial turístico, além de grande exploração mineral e animal há décadas. Portanto pode ser interessante traçar uma pesquisa adicional sobre a história dessa população e como se encontra hoje. Espero ter ajudado, abraços!

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