As Loucas Aventuras de Madman

Capa da edição brasileira do primeiro encadernado

Esta HQ entrava e saia da minha pilha de leitura. Uns anos atrás comecei a lê-la mas, por alguma razão, parei e só retomei nestes dias, quando parti do zero novamente.

Mike Allred criou Madman em 1990, e suas primeiras 5 HQs da série Madman Comics, originalmente publicadas pela Dark Horse, estão reunidas neste “Volume 1” da Pixel Media, de 2006.

Sou fã do Allred, então posso parecer suspeito, porque de fato esta não é uma obra para quem não curte o traço dele, muito peculiar e distante do estilo clássico ou realista, mas também diferente de um cartoon ou do mangá. É um estilo único, que pouco mudou nos últimos 30 anos. Não é um trabalho genial nem espetacular. Tem falhas, inclusive, mas vale a pena se deixar levar pelas loucas aventuras do herói Madman, que é, acima de tudo, uma pessoa generosa, com um coração puro, que não consegue deixar de ajudar os outros, enfim um sujeito realmente do bem.

Madman vive na imaginária Snap City e é o alter ego de Frank Einstein, cuja experiência de morte e ressurreição lhe proporcionou um conjunto de poderes atléticos e psiônicos que, apesar de pouco exuberantes, permitem que se vire bem em situações perigosas.

Há muitas coisas para se gostar do universo colorido deste personagem. Além do caráter abnegado de nosso herói, é bacana observar que, mesmo sem lembranças de seu passado, ele não fica se martirizando em uma espiral de tristeza sem fim – ou seja, não “fica de mimimi” – e trata de viver e curtir o presente da melhor forma possível.

Outra situação interessante: o uniforme branco com o raio vermelho é uma cópia do super-herói favorito de Frank, Mr. Excitement. Além disso, há um vasto e incrível elenco de apoio, passando por um par de cientistas loucos do bem, androides que se replicam, alienígenas bizarros e uma gangue de Beatniks. Todavia, o melhor é a amável presença de Joe, a namorada de Madman que, mesmo sem poderes, é muito esperta e corajosa e faz tudo ganhar alegria e vida.

O ritmo das primeiras histórias é um pouco truncado, mas Mike Allred vai aprimorando seus roteiros e narrativa. Além do mais, há tantas ideias a cada página, tantas situações malucas e divertidas, tantos personagens esquisitos e cativantes, que a então pouca experiência do desenhista com os roteiros é perdoável. O ponto alto deste encadernado, para mim, é Terror em Alto-Mar, onde Madman é injustamente acusado de um crime enquanto trabalha em um circo dentro de um navio de cruzeiro. Durante o processo de investigação para localizar o assassino, nosso herói tem uma longa e intrincada luta com o Homem-Músculo em uma sequência de 14 páginas! E com direito a discussões filosóficas…

Com argumentos assumidamente simples, calcados nos clichês da Pulp Fiction da metade do século XX, especialmente dos gêneros ficção, aventura e suspense, os quadrinhos de Allred exalam pop art moderna com ares vintage, hoje muito comum mas uma inovação radical nos comics do começo dos anos 1990 – afinal, era a época dos anti-heróis sanguinários, repletos de armas, espinhos nos uniformes, mulheres voluptuosas e sagas intermináveis, ou seja, o oposto de toda a proposta desta HQ.

Madman e alguns de seus aliados, por Mike e Laura Allred

Com cores de Laura Allred, esposa do criador, infelizmente este é o único volume de Madman no país. Talvez se fosse lançado hoje, com a recente diversificação do mercado brasileiro, o personagem tivesse um pouco mais de apelo comercial, porque de fato há mais leitores interessados em quadrinhos alternativos. Além disso, o próprio Mike Allred está mais conhecido, após sua passagem pelo Surfista Prateado e pela sua co-criação IZombie, da Vertigo, que teve ampla repercussão e gerou uma série televisiva em 2013 que agora está na quarta temporada no canal CW.

“Madman Volume 1 – Curso-relâmpago para quem quer se divertir” é uma boa HQ, divertida e despretensiosa, com texto e arte vibrantes de um dos quadrinistas mais originais em atividade.

Nota: 8,0.

Uma HQ para a Sala de Aula (1) – A Narradora das Neves – Editora Nemo

Capa com design elegante com os protagonistas Inuit esperando o jantar

Este breve artigo é uma sugestão que humildemente deixo para professores que desejam trabalhar com histórias em quadrinhos com seus alunos. Como conheço razoavelmente bem o mercado educacional, além de ser filho de pedagoga e ter um longo contato com projetos educativos variados, inclusive com HQs, quem sabe não possa ajudar?

Há muita coisa interessante neste singelo conto sobre o povo Inuit que, acredito, pode ser bem trabalhado nos colégios com jovens leitores, entre 8 e 11 anos, especialmente por conta do retrato cuidadoso que apresenta do dia a dia de pequenas tribos do vasto território dos esquimós. É bem difícil encontrar material específico sobre essa cultura.

Antes de mais nada, é preciso dizer que esta é uma História em Quadrinhos. Ponto! Não foi planejada especificamente para ser trabalhada em sala de aula – pelo menos é assim que me parece. Isso traz uma grande vantagem e, também, pode trazer um problema.

Como se sabe, atualmente é comum a presença de histórias em quadrinhos nas listas de paradidáticos de colégios brasileiros (especialmente na rede privada). O meio ainda é visto com reservas por alguns professores, mas sem o preconceito de décadas atrás. A constante evolução da linguagem e, principalmente, a gigantesca produção que provém de dezenas de países diversificou os temas, aprofundou os gêneros e, com isso, os públicos.

Porém, o mais usual em sala de aula é vermos adaptações de Clássicos da Literatura – mundial ou brasileira, algumas muito boas por sinal – ou histórias originais nem sempre bem desenvolvidas, ou até mesmo, livros paradidáticos maçantes que por acaso foram desenvolvidas no formato de HQ.

Não é o caso de A Narradora das Neves. E é essa a grande vantagem: por ser uma HQ de verdade, não é “mais um livro paradidático chato” (comentário típico de alunos dessa faixa etária).

Quanto ao problema, digamos que é o outro lado da moeda: o professor precisa extrair da obra o que acha mais interessante e planejar a aula de leitura e interpretação, ou o projeto interdisciplinar que a HQ claramente “pede” para acontecer.

Criada por um trio de quadrinistas franceses, o título é fruto de um projeto capitaneado pela revista GEO, uma espécie de versão francesa da National Geographic, que trata de viagens, povos, natureza e lugares exóticos, em parceria com a editora Dargaud, uma das maiores e mais relevantes editoras de quadrinhos do país do Asterix.

Foram 3 títulos, todos traduzidos para o português pela Nemo, em 2013. Os outros são O Apanhador de Nuvens e As Crianças da Sombra. Eu só tive acesso a este, por enquanto. Um leitor adulto a completa em 20 minutos, mas para uma criança pequena deve levar mais do que o dobro desse tempo. Há também a questão da apreciação das imagens, etc.

Na capa, os créditos de criação vão para uma dupla, Béka & Marko, mas uma rápida pesquisada na wikipedia explica que Béka é o pseudônimo para um casal de autores, Bertrand Escaich (de onde veio o Bé) e Caroline Roque (daí fecha o Ka). Os desenhos ficaram a cargo de Marko, na verdade Marc Armspach (os franceses adoram pseudônimos…).

A HQ traz dois momentos da vida de Buniq, que é quem dá o nome ao título: nos dias atuais, idosa, e suas lembranças da adolescência, 60 anos atrás.

Naquela ocasião, vemos a jovem Inuit incomodada com a atitude de avô, Ukioq, que decidiu deixar a pequena aldeia e ir “se sentar” para morrer sozinho de frio. Sem didatismos, percebemos que essa situação é natural, uma prática comum daquela época, justificada pelas crescentes dificuldades que um idoso doente ou com movimentos limitados trazia para seus familiares naquele terreno quase inóspito.

Buniq, contudo, tem dificuldades em aceitar essa atitude e decide resgatar seu avô. No mesmo dia, um viajante aparece na aldeia e conta histórias que fascinam tanto a jovem que ela resolve, então, organizar uma expedição para lugares distantes na companhia de seu querido Ukioq e, assim, adiar a perda do ancião.

Outro adolescente, o aprendiz de caçador Taq, completa o trio de exploradores do “Grande País dos Homens”, como esse povo chama a vasta região ao redor do Círculo Polar Ártico colonizada pelas tribos Inuites.

Há aventura e ternura, comédia e ação, mas sobretudo é um retrato de um povo verdadeiramente diferente para nós, brasileiros e latinos. É aterrador ver tanto gelo e neve, ventanias súbitas e tempestades, e tão pouca vida animal terrestre, e conseguir não apenas sobreviver, mas desenvolver uma tradição oral de fábulas, manufatura de peles, utensílios e armas, técnicas de caça e de pesca, barcos e caiaques, além de um profundo contato com a natureza e o mundo espiritual.

O traço de Marko é simples, com poucos detalhes, seguindo a tradição da escola da Linha Clara franco-belga, com uma narrativa bem resolvida, fluida e gostosa de se olhar.

As cores singelas, plácidas e realistas com a geografia local são de Maela Cosson e a tradução de Fernando Scheide parece muito boa, sendo a edição da Nemo no geral bem interessante em termos de formato e preço (apesar de ser R$ 34,90 na tabela, é possível encontrar por cerca de R$ 20,00!).

É isso, gostei bastante deste título infanto-juvenil europeu e pretendo comprar os demais da série.

Inuit adulta em trajes típicos do meio do século XX, mesmo período da HQ

Atenção professores!

Segue um resumo do que acho pertinente para trabalhar A Narradora das Neves com seus alunos e assim estimulá-los a ler mais, a conhecer a linguagem dos quadrinhos e, claro, adquirir conteúdos ricos de assuntos diferentes de um jeito legal!

Disciplinas: Geografia . História . Ciências . Português

Temas: Amizade . Amor . Amadurecimento . Tradição . Outras Culturas . Juventude x Velhice . Responsabilidade . Animais do Ártico . Hábitos dos Esquimós .

Idade: de 8 a 11 anos.

Sabe-se, também, que os esquimós seguem rapidamente para a total ocidentalização de seus hábitos, já que atualmente em seus territórios há muito potencial turístico, além de grande exploração mineral e animal há décadas. Portanto pode ser interessante traçar uma pesquisa adicional sobre a história dessa população e como se encontra hoje. Espero ter ajudado, abraços!

Descobrindo o Mundo de Tex com a Coleção da Salvat

O lançamento da nova coleção da Editora Salvat, Tex Gold, sem dúvida alguma fez a alegria do grande – e muitas vezes esquecido – contingente de fãs do personagem italiano, que há décadas é publicado ininterruptamente no Brasil.

Porém, com aquele precinho camarada de R$ 9,90 para a primeira edição, fez também com que muita gente que não costuma comprar as revistas do cowboy finalmente arriscasse o investimento.

O resultado? Certamente para muitos desses novatos, a leitura foi surpreendentemente agradável.

Eu sou um desses leitores.

Capa da Edição 1 da Coleção Tex Gold

Eu tenho comprado algumas das coleções da Marvel da Salvat e, em grande parte por isso, me senti instigado a dar uma chance ao material da Bonelli. Depois de consultar alguns Canais, Grupos e Blogs, entendi que a seleção de histórias prevista para a coleção é composta de HQs especiais, pinçadas a dedo entre Anuais, edições Gigante  e Almanaques, com um cuidado adicional em apresentar uma ampla variedade de desenhistas.

Eu realmente adorei a primeira edição. Roteiro muito bem costurado, fluido, bons diálogos, trama envolvente e uma arte encantadora.

Índios, cavalaria, fortes, salloon, pradarias, espingardas, flechas, riachos, mocinhos e bandidos, enfim, o mundo de Tex retrata a essência das histórias de faroeste. Fui atingido sim por uma forte dose de nostalgia… lembranças dos inúmeros filmes do gênero que assisti ao lado de meu pai, ou dos seriados em família, como Os Pioneiros e Daniel Boone, das brincadeiras de “Forte Apache” com meu irmão, das minhas dezenas de soldadinhos, índios e mineradores que tanto curtia quando criança e até um pouco além: tive uma “fase” em que resolvi pintar à mão com tinta acrílica minuciosamente todos os meus bonequinhos.

Mas, divaguei…

A trama de O Profeta Indígena apresenta Manitary, um jovem shaman da tribo dos Hualpais, uma espécie de excluído que, a partir de uma visão profética, vira um líder espiritual que convence e une centenas de “peles vermelhas” em uma missão sagrada contra os brancos. Há muita ação, mas também boas soluções de investigação, planos e contra-planos, e um bom desenvolvimento de personagens. São 220 páginas (!), um verdadeiro épico do gênero.

Mas, devo ressaltar, há momentos realmente espetaculares de narrativa gráfica, como quando Tex e seu leal grupo de parceiros conversam em um bar… a câmera do italiano Corrado Mastantuono “percorre”, ao longo de 4 páginas, o cenário de forma impecável, variando o foco e a distância, girando, ora se afastando, ora se aproximando, enfim, criando um ritmo agradável – até plácido – que, com os cuidadosos diálogos de Cláudio Nizzi, fazem com que a sequência da conversa entre os heróis e a criação de seus planos seja impecável.

O belíssimo traço e a perfeita câmera de Corrado Mastantuono

Entusiasmado, comprei a segunda edição, chamada O Cavaleiro Solitário, com arte do mestre Joe Kubert, e também gostei muito. História solo, violenta, às vezes carregada de tensão, mas ainda assim coerente com a personalidade do ranger Tex Willer e de seu universo, ou seja, argumento carregado em realismo, sem nunca exceder aquele limite do impossível, em uma quadrinização clássica, segura, sem experimentalismos, mas extremamente competente.

Comprei a terceira sem pestanejar, Patagônia, e novamente fui surpreendido pelo tema, com uma verdadeira aula de história dos conflitos entre os colonos e os indígenas da nossa vizinha Argentina. Já peguei o volume 4 e, enquanto continuar gostando das histórias e da arte, pretendo continuar comprando Tex Gold.

Minha relação com as HQs do Tex, até então, era um misto de preconceito e desconfiança.

Lembro de ter lido brevemente uma ou outra revista no começo dos anos 1980, muito provavelmente entre as pilhas do saudoso Tio Frank, de Itanhaém, mas não me chamaram muita atenção. Lembro que achava aquilo muito “sério” e “adulto”.

Depois, quando mais revistas da Bonelli começaram a ser publicadas no Brasil pela editora Mythos, no começo dos anos 2000, pensei em arriscar mas, folheando aqueles “quadrinhos quadrados” em preto e branco, confesso que desisti… comprei um Zagor aqui, uma Julia Kendall ali, mas o Tex deixei novamente de lado.

O preconceito vem, acredito, muito em conta do gênero faroeste ter submergido na cultura pop nas últimas décadas, e pelo perfil aparentemente “ultraconservador” do público leitor do personagem – afinal, quem frequenta bancas observa quem geralmente compra o quê… e não estou falando apenas da seção de quadrinhos, claro.

Parece certo que o leitor tradicional de Tex é homem, adulto ou idoso, urbano e muito comum entre os moradores de pequenas cidades do interior, muitos dos quais talvez só acompanham esse tipo de HQ ou, mais provável, prefiram Tex a qualquer outro gênero.

Sim, os quadrinhos da Bonelli em geral não podem ser chamados de subversivos, criativos ou talvez nem mesmo modernos, mas de modo algum Tex traz mensagens “inadequadas” ou desconectadas com os dias atuais. Nosso ranger e seus pards, apesar de matarem frequentemente seus inimigos, pregam paz entre as nações indígenas e os invasores brancos, respeitam a natureza e defendem a lei e a ordem. Não toleram injustiças, nenhum tipo de violência gratuita, estão sempre dispostos a ajudar os mais necessitados e a praticar o bem. Heróis, enfim.

Acredito que a Salvat acertou mais uma.

Em termos comerciais, deve ter um bom desempenho, mas talvez a mais importante contribuição de Tex Gold seja ampliar e renovar (?) o público leitor deste ícone dos quadrinhos italianos.

Pela qualidade destas primeiras edições, e no nível dos quadrinistas envolvidos, nada mais justo e necessário.