Resenha de Guerras Secretas Zonas de Guerra #1 – Panini Comics

Capa da Panini que compila as histórias 1872 e Onde Vivem Os Monstros

Outra edição especial da Panini que traz dois tie-ins das Guerras Secretas: as ótimas minisséries 1872 e Onde Vivem os Monstros. Em comum, ambas são situadas em cenários do passado e, lógico, em diferentes domínios do Mundo Bélico de Destino.

. Volume de Spoilers: Nenhum, leia sem medo.

De saída, é preciso esclarecer que estas duas histórias são completamente independentes da megasaga. Portanto, se gostar dos temas, personagens ou dos artistas envolvidos, vale a pena dar uma procurada na internet ou nos bons sebos da sua cidade, porque Zonas de Guerra é mesmo muito interessante.

1872 apresenta um momento de virada na história de Timely, um arquétipo da ‘pequena cidade do meio oeste americano do séc. IXI’ onde vivem versões de Tony Stark, Bruce Banner, Steve Rogers e diversos outros ícones da Casa das Ideias. Para quem não sabe, Timely era o nome original da editora de quadrinhos criada do final dos anos 1930 e que viria a ser Marvel.

Mas, o verdadeiro protagonista é o índio Lobo Vermelho que, prestes a ser enforcado à revelia da lei, é salvo pelo xerife local – nada mais, nada menos, que Steve Rogers (só lembrando aos mais distraídos, o “nosso” Capitão América). Esse salvamento desperta a ira do prefeito de Timely, Wilson Fisk (o “nosso” Rei do Crime), o que gera uma sequência de confrontos nas ruas da cidade que, até o final deste verdadeiro conto de faroeste, ficarão recheadas de sangue, muito sangue mesmo!

Belíssima ilustração de Alex Maleev para a capa de 1872 #1

Os leitores veteranos podem entender que 1872 é uma HQ no estilo “O que aconteceria se… os heróis Marvel existissem no velho oeste?“. Há muitas surpresas ao longo dos 4 capítulos que, como nos melhores quadrinhos de realidades alternativas, entrega ao leitor uma diversão extra: identificar “quem é quem” na nova ambientação. E há muitos personagens mesmo, heróis, vilões e elenco de apoio.

Gerry Duggan faz, como de costume, um trabalho muito competente e prova mais uma vez que é um roteirista extremamente versátil. Cria uma ambientação excelente, que permite ao leitor uma autêntica imersão no velho oeste – nem lembramos que isto tudo é um Domínio do Mundo de Batalha. O roteiro é ágil, sem pontas soltas, e os diálogos, afiados e instigantes. Como nas melhores histórias desse gênero, há reviravoltas e duelos, bem construídos, sem exageros, mesmo para os padrões Marvel.

Parece acertada também a opção de Guggan ao escolher Ben Urich como o narrador deste sanguinolento conto. Como esse personagem “sem poderes” é um repórter, surge uma camada adicional na leitura: pequenos lembretes de que naquele período da história (real) americana a democracia ainda era um processo em construção, que a imprensa era refém dos poderosos, que os índios sofriam um verdadeiro massacre, que as mulheres não tinham direitos, que a Justiça era covarde, que os pequenos comerciantes eram achacados por criminosos e assim por diante. Sim, sutilmente o roteirista consegue levantar todas essas bandeiras dentro do contexto de sua história.

Há muita violência na Timely do Velho Oeste

Mas o autor brilha, especialmente, com o desenvolvimento do Lobo Vermelho. Esse é um personagem que também existe no Universo Marvel regular, mas é de oitavo escalão, daqueles esquecidos pelo editorial. No começo, apesar de ser o catalisador da trama, temos a impressão que será quase um “observador” dos acontecimentos. Mas, a partir de um determinado fato, ele se move para o centro da história. Sem entregar detalhes, fiquei com vontade de ler outras HQs com este personagem no mundo de 1872.

Nik Verella
faz um trabalho excelente em capturar tanto as grandes paisagens do velho oeste, como o clima das pequenas construções de madeira e, claro, a pobreza, as limitações de tecnologia e a violência do período. O desenhista se excede, contudo, nas expressões faciais, essenciais para mostrar os variados aspectos humanos dos personagens de Duggan, especialmente suas falhas e limites. Stark não só tem um apreço pela bebida, ele parece de fato um alcoólatra. Igualmente, o Rogers de Verella parece de fato acreditar na justiça. E seu Ben Urich quer escrever verdades, mas de fato teme pelas consequências.

A composição dos quadros e a postura dos personagens são sempre muito bem resolvidas. É curioso também que o desenhista acrescenta alguns elementos de steampunk – como parece ser inevitável nas atuais produções da cultura pop sobre o período – mas segura no limite do crível. Isto é, fica também parecendo natural.

Steve Rogers e Tony Stark no elegante traço de Nik Virella

As cores de Lee Loughridge captam a areia do deserto espalhadas nas roupas, móveis e na pele de todos, em tons de amarelo e marrom, e são determinantes para a experiência completa deste western revisionista de primeira linha da Marvel. No geral, o trio de artistas entrega um excelente trabalho de ponta a ponta.

Se há algo que impede uma nota mais alta é que, por mais incrível que seja o roteiro, dá para antever algumas situações, inclusive o desfecho, ao menos em suas linhas gerais. É certo que, desde o começo da história, o leitor recebe pistas do que vem pela frente. Entretanto, há boas surpresas no meio do caminho, que fazem de 1872 uma das melhores produções das modernas Guerras Secretas da Marvel.

Nota para 1872: 8,5.

A segunda história deste encadernado traz, na totalidade, Onde Vivem os Monstros, uma minissérie em 5 partes escrita pelo sarcástico – e brilhante – Garth Ennis e desenhada por um de seus colegas de The Boys, Russ Braun.

Capa de Frank Cho com a intrépida Clemmie Franklin-Cox e um batalhão de mulheres guerreiras a la Sheena das Selvas

De todas as revistas interligadas ao megaevento Guerras Secretas, esta certamente figura dentre as mais inusitadas. É preciso lembrar que a Marvel, na ocasião da divulgação da saga, tinha dito que aproveitaria para revisitar seu vasto catálogo e, na companhia dos artistas parceiros, iria lançar alguns títulos pouco convencionais mas, mesmo assim, temos algo especial aqui.

Claro, tivemos novas versões, ou continuações, de outros eventos famosos, sagas maiores e menores; surgiram até mesmo títulos inéditos; e em algumas ocasiões, a Marvel resgatou personagens ultra obscuros e os reapresentou em novas roupagens. Foi assim, por exemplo, com Arkon, um vilão dos anos 1970, inserido durante as Guerras Secretas no título WeirdWorld, escrito por Jason Aaron com uma arte belíssima de Michael Del Mundo e que, inexplicavelmente, não foi publicado no Brasil.

E é assim também com o Águia Fantasma (Phantom Eagle), um personagem de gênero Guerra do qual ninguém se lembra da Era de Prata, encaixado aqui como protagonista de uma minissérie com o título Where Monsters Dwell.

Vale uma explicação adicional: Where Monster Dwell era o nome de um título regular da fase em que a Editora Timely tinha virado a Atlas, e teve uma longa duração nos anos 1950. Provavelmente desconhecida pela quase totalidade dos brasileiros, curiosamente naquela época essa revista apresentava “histórias de Monstros e de Terror”, e não de Guerra. Apesar de bizarro, o mash up funciona!

O Águia Fantasma em uma de suas raras aparições na Era de Prata

Uma das edições da versão original do título “vintage”, com uma formiga gigan… ou melhor, Grottu!

Garth Ennis, notório apreciador de armas e guerras, já tinha trabalhado com o Águia Fantasma em uma ótima minissérie desenhada por Howard Chaykin chamada War is Hell – The First Flight of the Phantom Eagle, e que no Brasil saiu na saudosa Marvel Max da Panini, em meados dos anos 2.000 (edições 66 a 70, conforme o Guia dos Quadrinhos).

Nesta nova empreitada com o personagem, o escritor traz
Karl Kauffman, um exímio piloto americano, filho de pais alemães, que lutou e fez fama na I Guerra Mundial, em algum momento dos anos 1920, em um local não muito preciso próximo a Cingapura.

Nosso herói está prestes a abandonar uma jovem e sonhadora namorada nativa (?) que, por sinal, está grávida, à sua própria sorte e à ira do pai, quando tudo começa a dar errado. Uma das grandes novidades trazidas por Ennis é que seu Kauffman não apenas é um oportunista e mentiroso mas, como veremos ao longo deste conto criativo e violento, é também cruel, egoísta, covarde e extremamente machista.

O Águia Fantasma entrando no Mundo dos Monstros em arte de Russ Braun

Mas, voltando ao argumento, é no momento em que o Águia se prepara para fugir das responsabilidades de criar uma criança que autor introduz, de forma contundente, uma excelente personagem, a jovem aristocrata, inteligente e segura, Clemmie Frankie-Cox. Ela embarca no pequeno avião monomotor de Kauffman com o intuito de pegar uma carona até Cingapura. Logo o leitor perceberá, porém, que ela não é a típica “Dama em Perigo”. De fato, Ennis a coloca para criar embate de ideias e mesmo de postura, coragem e outros contrapontos com o veterano herói de guerra.

Todavia, como é típico nos quadrinhos do autor, não há heróis e vilões claramente definidos, portanto pode-se esperar de Clemmie muitas e surpreendentes revelações, e uma crueldade talvez não tão distante da do próprio Águia Fantasma. Em suma, a dupla de protagonistas/antagonistas rende grandes momentos na história.

A dupla de protagonistas – e antagonistas – rende grandes momentos na HQ

 

Esta HQ é uma espécie de pulp fiction clássico de aventura e fantasia transformada em narrativa gráfica, com um ritmo verdadeiramente vertiginoso, com aparições estupendas de dinossauros, pigmeus, amazonas e outras criaturas míticas, mas que estão sempre à serviço da história principal.

Tudo pode acontecer nesta bizarra e às vezes desesperadora história em quadrinhos retrô, e Russ Braun capricha em todas as frentes. O desenhista traz um ritmo vigoroso e seu estilo é muito apropriado para a proposta, adicionando ação, desespero e ritmo com grande intensidade. Seus monstros, como o título promete, são mesmo um show à parte, mas a caracterização de Kauffman e Clemmie, com suas expressões de pavor, espanto, ironia e ódio são verdadeiramente inesquecíveis.

Tudo pode acontecer neste conto de aventura, ficção e guerra de Garth Ennis

 

Mais uma vez, Garth Ennis entrega uma ótima história, justamente de um personagem que ninguém – nem mesmo a Marvel – parece se importar, e Guerras Secretas ganha um de seus melhores tie-ins. Por isso mesmo que Zonas de Guerra da Panini se torna uma edição altamente recomendada.

Nota para Onde Vivem os Monstros: 9,0.

Resenha de As Guerras Secretas Secretas de Deadpool #1 – Panini Comics

Capa de Tony Harris para mais uma edição especial de Deadpool nas Guerras Secretas.

Nesta edição especial da Panini estrelada por Deadpool, a Marvel fez uma brincadeira, ignorando as “novas” Guerras Secretas, e produziu uma espécie de “O que aconteceria se… Deadpool tivesse participado das Guerras Secretas originais?“, ou seja, é uma história baseada naquele primeiro grande evento da editora, de 1984.

. Volume de Spoilers: Poucos, só para situar o leitor.

O resultado é hilário e, às vezes, até brilhante, mas tem um problema: as gags funcionam muito, mas muito melhor para quem já leu e se lembra bem daquele clássico evento – diria até que é imprescindível. Claro que, nos dias atuais, pela facilidade em encontrar informação, pode ser algo contornável, mas fica a ressalva.

Como os leitores daquela época sabem, a primeira grande piada é que Deadpool simplesmente não existia. Ou melhor, ainda não tinha sido criado! Quando surgiu, como adversário da X-Force, em 1991, ele só tinha interações com o núcleo dos mutantes, ficando famoso mesmo lá pelo final dessa década.

Essa “impossibilidade” é o mote das piadas e do roteiro desta HQ e justifica o título: Deadpool teria participado secretamente das primeiras Guerras Secretas. De fato, se ele surgiu como um adulto e veterano em 1991, ele já existia em 1984; o ponto é que nem nós, leitores, nem os demais personagens daquele evento o conheciam!

Essa premissa é bastante explorada no primeiro capítulo, quando heróis e vilões são transportados por Beyonder ao Mundo Bélico. A história começa instantes após o Doutor Destino ter eliminado todos os super-heróis, ou seja, já no arco final da saga. Graças ao seu insano fator de cura, Deadpool recupera-se sozinho e começa a vaguear, em meios aos corpos carbonizados dos seus colegas, quando passa a narrar, em flashback, os principais pontos da história pregressa.

O Deadpool-Narrador é uma opção que muitos roteiristas gostam de usar, e Cullen Bunn, o responsável pela minissérie reunida neste encadernado, soube explorar bem, embora a maior parte da história nem precise do recurso. Bunn parece ter se divertido muito, imaginando como Deadpool teria reagido, quais falas teria dito, como lutaria e como se relacionaria com os demais heróis e vilões nas situações mais marcantes do evento. Falastrão, desbocado e tentando conter sua veia assassina, as risadas surgem a cada página.

Uma das cenas clássicas recriadas, agora com Deadpool no meio… e não é que ficou até mais legal?

O desenhista, Matteo Lolli, recria várias das mesmas cenas da saga clássica, emulando até algumas das poses e equipamentos imaginados por Mike Zeck e Bob Layton, os desenhistas da série original. Lolli às vezes procura ângulos diferentes, como se revíssemos a cena clássica por uma outra câmera, o que acrescenta uma dose extra de diversão. Seu traço é clean, com narrativa e composições adequadas, nada de excepcional mas competente.

Muitas das frases originais e que se instalaram na memória de quem vivenciou a história nos anos 1980 também ressurgem mas, claro, com intervenções inoportunas do Mercenário Tagarela que até fazem “perder o clima” dos demais (Doutor Destino que o diga rsrs).

Mas, piadas infames à parte, Bunn traz algumas ideias bem-vindas, criativas e, pelo menos uma – que envolve um certo simbionte alienígena, realmente brilhante. O autor também precisava apresentar uma justificativa crível sobre como essa hipotética participação do Deadpool não contava da história original, e o faz utilizando um recurso do próprio roteiro das Guerras. Finalmente, há uma alteração incrível, um retcon revelado na última página que, sinceramente, agradou ao meu coração.

Deadpool é curado… e olha que visual maneiro ele tinha em 1984?

Provavelmente mais do que 4 capítulos para esta grande piada seria demais, mas eu leria! De modo geral, esta HQ cumpre bem o que se espera da proposta, e até de fato supera, ao acrescentar boas ideias, dezenas de piadas e algumas situações memoráveis.

Como extras, uma pequena história da mesma dupla criativa usando como base o Torneio dos Campeões – um evento anterior, de 1982 e bem menos famoso, e outra, chamada Howard, o Humano, de Skottie Young e Jim Mahfood. Esta, publicada originalmente em one-shot, apresenta um thriller policial cômico, em que o único humano desta realidade é uma versão do pato Howard, e todos os demais seres inteligentes e falantes são animais. OU seja, o oposto do que lemos nas aventuras do Pato. É uma boa história, embora a arte alternativa de Mahfood não seja para todos.

Nota: 8,0.

Resenha de Guerras Secretas X-Men #4 – Panini Comics

A quarta edição especial da Panini estrelando histórias dos X-Men no Mundo Bélico das Guerras Secretas traz uma espécie de continuação da saga Programa de Extermínio, originalmente publicada em 1990 nos EUA e aqui alguns anos depois.

. Volume de Spoilers: Poucos.

X-Tinction Agenda foi o primeiro crossover envolvendo os três títulos mensais de equipes mutantes da época – X-Men, X-Factor e Novos  Mutantes – desenhados em sua maior parte por Jim Lee e Rob Liefeld e que, obviamente, estimulou a Marvel a criar outros eventos similares nos anos seguintes, como A Era de Apocalipse.

Na ocasião, os heróis enfrentam Cameron Hodge, um ciborgue que odeia mutantes e que promove uma chacina na ilha de Genosha, então um país soberano repleto de mutantes. Entre as consequências da X-Tinction Agenda original, Warlock – um alienígena tecnorgânico membro dos Novos Mutantes – foi destruído; Lupina (Rahne Sinclair) tinha ficado presa na forma intermediária de Lobisomen e tanto ela quanto Destrutor (Alex Summers) decidiram permanecer em Genosha para reorganizar e pacificar o país.

Indiretamente, uma consequência desse evento de 1990 é que ele pavimentou a transformação do título dos Novos Mutantes para a X-Force, capitaneado por Rob Liefeld. Por sua vez, essa revista vendeu tanto que estimulou o artista a criar a Image Comics com seus colegas da Marvel, incluindo Jim Lee. Enfim…

Voltando à nossa aventura mais recente, aqui a Panini inseriu a minissérie completa em 4 partes escrita por Marc Guggenheim e desenhada por Carmine Di Giandomenico. O resultado, assim com em outras releituras de sagas mutantes das Guerras Secretas é… uma bagunça!

A história começa retratando uma revolta da população mutante em uma Genosha 10 anos depois do final da saga original. Tanto Destrutor quanto Lupina continuaram na ilha, com auxílio de alguns outros X-Men, como Rictor, Karma e Blindado, este último criado especialmente para esta minissérie.

A revolta é causada por uma praga que está matando a população e deixando as economias de Genosha em um estado de Guerra Civil. Um ponto interessante é que a ilha pertence a um Domínio maior, X-Topia, que engloba outras cidades, todas de mutantes. A capital, Cidade-X, é governada pela Baronesa Fênix (Rachel Grey) e, como é de se esperar, tem seu próprio – e vasto – contingente de X-Men.

A primeira parte da história entrega até uma leitura agradável, levemente promissora, embora com aquele ar repleto de clichês típicos dos anos 90. Porém, conforme revelações vão acontecendo, e os planos para resolver os problemas, se avolumando, em situações tão esdrúxulas quanto tolas, percebe-se que o roteirista se enrolou ao cair na tentação de misturar muitas ideias e personagens em um espaço reduzido.

Em um determinado momento, por exemplo, descobrimos que o Fera desta realidade também fez experimentos com o Fluxo do Tempo e trouxe do passado X-Men mortos – apenas para “provar um ponto” de que isso era possível.

Também soa inverossímil a revelação de um traidor em Genosha, visto que ele tinha uma posição de poder elevada por anos e que ninguém, claro, percebeu. É desse vilão a concepção de dois planos malignos, ambos realmente bizarros pela complexidade e baixa chance de sucesso. Mas ele consegue o duplo feito, claro.

Mas, o pior, realmente, é o final. Sem estragar, basta dizer que o plano que os heróis elaboram para deter um poderoso inimigo é totalmente tolo. Com tanta gente poderosa, a ideia de um “sacrifício” parece gratuita, desnecessária. Se bem que, com a máquina do tempo do Fera, é só voltar uns dias e resgatar os mortos certo?

Quanto à arte, gosto bastante do estilo clean, de corpos longilíneos, de Di Giandomenico. Nas primeiras edições ele até consegue fazer um bom trabalho, mas conforme o roteiro cria novas situações rocambolescas e, principalmente, batalhas incessantes, o desenhista enfrenta dificuldades para dar coerência à narrativa.

As cores de Nolan Woodard também pecam, às vezes, no excesso de brilho. Apesar de tudo, a arte é um ponto positivo na revista. Outro é poder matar saudade, para os mais nostálgicos, de alguns personagens do jeito que eram naquele comecinho da década de 90, em especial, Destrutor, Lupina, Rictor e Vampira. O tal Blindado ganha bastante destaque no final. Há, ainda, uma pequena surpresa na última página, mas por ser uma realidade alternativa, a sensação é inócua.

Completa a edição uma historieta chamada A Última Cartada, de Sina Grace e Ken Lashley, que usa o cenário de Dias de Um Futuro Esquecido para contar um ato heroico – por amor – que envolve Psylocke e um coadjuvante. A trama é simplesmente absurda e um desserviço ao clássico revisitado.

Nota: 4,5.

Resenha de O Velho Logan #3 – Panini Comics

Nesta terceira edição de O Velho Logan nas Guerras Secretas, a Panini incluiu o capítulo #4 da minissérie americana original, e duas outras histórias com a presença de versões do mutante no Mundo Bélico. O resultado é bem mediano.

. Volume de Spoilers: zero.

A história principal desta revista começa com o Velho Logan exatamente onde estava no final da edição anterior, ou seja, enfrentando os Zumbis na área além da Muralha. Há várias páginas dedicadas à sanguinolenta batalha, até que nosso herói encontra uma inesperada aliada.

Bendis divide a narrativa em três momentos, sendo que o primeiro e o último são basicamente iguais. A única novidade é no segundo, sem ação, puro talking heads, ou seja, bate-papo com cenas focadas nos rostos dos personagens. O problema é que os heróis não falam nada de realmente interessante, apenas bobagens. Logo há mais sangue e… fim.

Poderíamos imaginar que o roteirista quis deixar espaço para a dupla de artistas “brilhar”, mas mesmo assim, o resultado fica inferior ao das edições anteriores. As cores de Marcelo Maiolo continuam intensas mas, desta vez, pelo tipo de personagens e cenário, parecem excessivamente brilhantes. Andrea Sorrentino já provou ser um talentoso desenhista, continua com suas quadrinizações estilosas mas, também aqui, o resultado não é tão poderoso como em outros capítulos. Os zumbis são todos muito parecidos, apesar de serem superseres, e as cores sem variedade não ajudam na distinção.Vamos torcer para as aventuras do Velho Logan melhorarem na sequência.

As duas histórias curtas que fecham esta edição são HQs melhores, embora nada de espetacular.

A primeira mostra um Justiceiro possuído por um Doutor Estranho. Wolverine aparece como membro de um tal de Quarteto Infernal, que é uma equipe interessante. Texto de Joshua Williamson e arte de Mike Henderson.

A segunda HQ tem um clima noir bacana, com um Wolverine detetive que se depara com um mistério envolvendo o assassinato de um Tony Stark. Texto de Frank Tieri e bela arte de Richard Isanove, o destaque desta edição inteira, por sinal.

Nota: 5,0.

Resenha de Guerras Secretas #6 – Panini Comics

Thanos contra Zumbis

Outro capítulo sem batalhas, com foco no desenvolvimento dos protagonistas e de seus planos e maquinações. Thanos, os dois Reed Richards, os dois Aranhas, Namor e Pantera Negra, alguns Barões e o próprio Destino mexem suas peças e o xadrez das Guerras Secretas avança mais um pouco em direção ao seu inevitável desfecho apocalíptico.

. Volume de Spoilers: Nenhum, só há a menção dos nomes dos principais personagens.

Jonathan Hickman impressiona pela segurança que passa ao leitor: ele sabe exatamente o papel e a voz adequada de cada personagem e delicadamente vai desnudando a intrincada teia de aflições, desejos, dúvidas inquietantes e ideias arrojadas dos heróis e vilões que protagonizam este drama cósmico.

Ao longo da edição, que se passa três semanas depois do Capítulo #5, entendemos o destino da Cabala, a superequipe de Thanos, enquanto os heróis dos universos originais remanescentes continuam livres e totalmente dedicados a encontrar um meio de subjugar Victor Von Doom. É interessante ressaltar que este ponto da megasaga coincide com o desfecho de vários tie-ins, muitos já resenhados aqui no Blog, em que há grupos ou superseres tramando a deposição do Deus Destino. Uma breve declaração do próprio Doom na primeira página contextualiza essa situação. Essa desconexão com a maior parte das minisséries paralelas é consequência do formato editorial que a Panini optou em publicá-las. Como saíram em encadernados, as histórias já estavam completas e perde-se, desse modo, a simultaneidade que essas minisséries tinham com a série principal lá nos EUA.

Mas, retomando a história, outra presença importante é a da notável Valeria Richards, a quem o autor sempre demonstrou grande apreço, começou a despontar na edição anterior e aqui confirma que terá relevância nesta metade final da Saga.

E, por falar na caçula do Quarteto Fantástico, em meio a todas as tramas, o autor ainda consegue explicar a origem desta Susan Richards e os paradeiros do Coisa e Tocha. Em uma palavra: surreal.

A dupla de artistas, Esad Ribic e Ive Svorcina, novamente precisa se desdobrar para deixar interessante um capítulo sem “guerras”, mas repleta de “segredos”. Mas não importa onde surgem os contundentes diálogos; tanto nas situações acanhadas – um laboratório, um jardim, uma cela; como em cenários acachapantes – a Ilha Oculta de Agamotto e o Escudo, Ribic e Svorcina entregam um trabalho superior.

Como de praxe, a Panini inclui uma história curta para encerrar a edição. Desta vez não é tão original, mas não compromete: Matt Benson e a jovem italiana Laura Braga contam o começo de uma nova amizade entre versões do Justiceiro e do Punho de Ferro, trabalhando como guardiões no Escudo.

Nota 9,0.

Resenha de Guerras Secretas Homem-Aranha #2 – Panini Comics

A Ilha das Aranhas foi uma agitada e marcante saga que envolveu praticamente todo o elenco de personagens associados ao Homem-Aranha. Publicada originalmente em 2011, foi arquitetada e escrita por Dan Slott no modelo de “mini-evento”, ou seja, quando a editora publica uma série de revistas focadas em uma só linha/franquia – bem mais contida, por exemplo, do que as “megasagas”, que envolvem várias franquias, um volume muito maior de títulos e todas mais ou menos interligadas por um período de tempo maior (como estas Guerras Secretas, a propósito).

Na ocasião, a trama central foi desenvolvida no próprio título mensal do Homem-Aranha, mas a Marvel publicou algumas edições especiais e minisséries adicionais. A Ilha das Aranhas original obteve certo sucesso comercial e reconhecimento da crítica como um ótimo exemplo de saga curta, bem planejada e executada. Slott estabeleceu uma grande ameaça à Ilha de Manhattan na figura da Aranha-Rainha, uma espécie de semi-deusa que conseguia, a partir de um vírus, transformar seres humanos e super-humanos em híbridos aracnídeos por um período, até a transformação total em enormes e horripilantes aranhas.

. Volume de Spoilers: moderados.

A Marvel resolveu revisitar essa trama nesta minissérie em 5 partes, escrita por um colaborador habitual de Dan Slott, o (normalmente) ótimo Christos Gage. A história completa foi reunida pela Panini nesta edição #2 de Guerras Secretas Homem-Aranha e, honestamente, está longe de ser um trabalho de qualidade.

A aventura acontece em um Domínio constituído por uma Manhattan já tomada pelos híbridos aracnídeos, comandados telepaticamente pela Baronesa Aranha-Rainha, que ainda por cima conseguiu converter vários dos heróis mais famosos da Ilha em seus guerreiros. Rapidamente tomamos contato com uma força de Resistência, liderada pelo Agente Venon – aquele com o Flash Thompson. Alguns outros heróis imunes aos efeitos da conversão, como o Visão, também participam do pequeno, mas audaz, grupo de opositores.

Um dos maiores problemas com esta história está exatamente na escolha e, sobretudo, na interpretação exagerada das capacidades do protagonista. Em sua boa série solo (que durou 42 números e foi publicada no Brasil na revista A Teia do Homem-Aranha) que, aliás, começou após a saga Ilha das Aranhas original, foi possível acompanhar o Agente Venon em diversas missões de combate. Seu treinamento militar associado à destreza e habilidade do simbionte alienígena o permitia façanhas incríveis. Aqui, porém, ele vai (muito) além, e consegue ser extremamente eficaz e inteligente, elaborando estratégias fabulosas, sobrepujando heróis mais experientes e supostamente capazes, como Capitão América, Homem de Ferro e Homem-Aranha.

Durante o desenvolvimento da história, a cada nova solução encontrada pelo Agente Venon – muitas delas “tiradas da cartola” –  , o  leitor fica mais e mais incomodado com a tal eficácia suprema do herói. Uma dessas soluções é o uso de diversas fórmulas de superciência presentes da mitologia do Homem-Aranha que, por serem extremamente poderosas, deveriam estar melhor protegidas, ou poderiam simplesmente terem sido destruídas pela Aranha-Rainha e seus exércitos. Vale lembrar que ela comanda milhares de soldados híbridos, com força e poderes aracnídeos, que incluem alguns gênios científicos (Stark, Pym, Tchalla) e táticos (Steve Rogers, Carol Danvers). Oras bolas, se Flash Thompson deduziu o que essas fórmulas poderiam causar, certamente eles também teriam pensado nisso, não? Enfim, essas e outras situações são tão inverossímeis que minam a história. Há outros problemas, também, como a falta de carisma (e de inteligência) da própria vilã e outros momentos inacreditavelmente fortuitos, que facilitam os trabalhos da Resistência. Mas nada se compara ao arco final, com a presença de dinossauros (?) ressuscitados!!

A arte de Paco Díaz é agradável, com boas cenas de ação e uma narrativa gráfica correta, embora sem imaginação: os personagens são todos retratados exatamente nas suas características mais populares e, portanto, óbvias. Ele consegue dar conta do ritmo extremamente frenético e repleto de cenas de ação do roteiro, de fato o destaque desta HQ. Há algumas ilustrações que se destacam, em geral de heróis no uso de seus poderes, como o Visão e a Mulher-Aranha. As cores de Frank D’Armata são igualmente tradicionais, em um trabalho mediano, sem inspiração.

O resultado, enfim, é uma história do Agente Venom revisitando um cenário alternativo ao final da saga Ilha das Aranhas original, com muita ação desenfreada, clichês de Resistência-audaz-que-sobrepuja-um-Império-maligno, uma vilã pra lá de esquecível e uma arte ok. A propósito, há pouquíssima relação com o resto das Guerras Secretas. Se você não ler este tie-in, não vai perder nada significativo. Ou seja, não dá para se entusiasmar muito.

Completa a revista uma história de May Parker, a Garota-Aranha de uma realidade alternativa, situada em um futuro próximo ao que era o Universo Marvel do final da década de 90 (tal realidade foi batizada de MC2). Essa heroína é pouco conhecida na Brasil, mas teve ao longo do anos 2000 sua própria – e divertida – revista mensal, com uma audiência devota de fãs. Essa HQ saiu como história secundária na minissérie da Ilha das Aranhas nos EUA e a Panini acertadamente a encaixou na mesma edição nacional.

Os próprios criadores da personagem e que desenvolveram seu vasto universo, Tom De Falco e Ron Frenz, produziram esta história que, curiosamente, parece não estar inserida no contexto das Guerras Secretas. Tenho a impressão que a dupla de autores aproveitou a oportunidade e simplesmente criou uma continuação direta do último status quo deste universo. Há dezenas de personagens, heróis e vilões, a maioria filhos de ícones da Marvel, que contracenam com a Garota-Aranha em uma aventura leve, singela, com sabor dos quadrinhos clássicos de décadas passadas. É a melhor parte desta revista, sem dúvida, e a principal razão para a nota final não ser ainda menor.

Nota 5,5.

Resenha de Guerras Secretas Guardiões da Galáxia #3 – Panini Comics

A capa faz uma homenagem à saga original, mas com os Guardiões como protagonistas

Quando a Saga de Korvac original foi publicada, ainda não era comum para a Marvel ou para a DC desenvolverem grandes eventos no modelo de crossover, isto é, com uma história principal e diversas outras interligadas, envolvendo múltiplos títulos de vários personagens.

Pelo contrário, a história idealizada por Jim Shooter com uma pegada cósmica foi criada para a revista mensal dos Vingadores no final dos anos 1970 (Avengers Vol.1 #167-168 e 170-177). Na época, a superequipe não era tão popular e só tinha uma revista. Portanto, esta era para ser uma história “comum”, um team-up com os Guardiões da Galáxia originais (aqueles do século XXX), mas conforme os meses avançavam e, graças ao seu final inesperadamente chocante, entrou para o rol de maiores histórias dos Vingadores de todos os tempos. Inclusive figura na minha lista de maiores clássicos da Marvel.

. Volume de Spoilers: moderados, mas sem entregar os principais momentos.

Para esta nova abordagem, uma interessante releitura da original, os protagonistas são os mesmos Guardiões da Galáxia do futuro, acrescidos apenas de Geena Drake, uma nova personagem criada poucos meses antes das Guerras Secretas, enquanto uma equipe alternativa de Vingadores são os coadjuvantes. Alternativa, porque nunca vimos essa formação: Hércules, Serpente da Lua, Pantera Negra, Visão, Viúva Negra, Jaqueta Amarela e Jocasta, liderados pelo Capitão Mar-vell. Todos em sua gloriosa e icônica versão da década de 70.

A equipe dos Guardiões cuida da segurança do Domínio de Forest Hills, cujo Barão é… Michael Korvac. Já os Vingadores patrulham o Domínio vizinho, Holly Wood, onde o Barão é, curiosamente, Simon Williams. Talvez este seja um easter egg, porque Williams, mais conhecido no Brasil pelo codinome Magnum, teve uma carreira paralela como ator de cinema – nunca bem sucedida -, e agora ele “domina” Hollywood.

A história começa com a tentativa de um acordo entre os dois Domínios, cujos Barões estão aparentemente dispostos a esquecer certas diferenças do passado e trabalharem em conjunto, inclusive com as duas superequipes cooperando na segurança. Nesse meio tempo, os Guardiões estão investigando um mistério envolvendo cidadãos comuns que são acometidos por uma “loucura” envolvendo estrelas e um universo anterior… para então se transformarem em criaturas superpoderosas.

O roteirista é o veterano Dan Abnett, especialista em aventuras cósmicas e principal responsável pelas últimas séries do grupo, tanto as da equipe futurista quanto a do presente. Dividida em 4 partes, o autor cria uma história instigante, com todos os elementos principais da aventura original, mas ao mesmo tempo com muita criatividade e dando mais espaço para Michael Korvac e sua amada, Carina. Acredito que leitores novos, ou que desconheçam a história original, deverão gostar das reviravoltas e das batalhas épicas. Mas, para os leitores veteranos há um pequeno deleite extra: ter uma nova chance de ver estes Vingadores interagindo com estes Guardiões, porque são todos personagens em suas versões clássicas. Serpente da Lua fazendo um mapeamento mental, Capitão Mar-vell em ação, Águia Estelar misterioso… enfim, há pequenos momentos assim que são presentes para os fãs. Além disso, os costumes, cenários e roupas sugerem que a trama se passa mesmo no final dos anos 70.

A história está fortemente inserida no ambiente das Guerras Secretas, e o roteirista explora inteligentemente isso. Destino e os Thors são uma sombra constante e influenciam as decisões dos personagens, e a forma como Abnett envolve a consciência cósmica de Korvac com a saga principal é exatamente aquela que um leitor exigente poderia esperar. O final – tão contundente quanto a história clássica, é muito bem amarrado e, novamente, rende uma bela homenagem à saga original e aos próprios Guardiões.

Os Guardiões no traço cartoon de Schmidt

A arte ficou por conta de Otto Schmidt, que tem um estilo cartunesco, que não é o meu favorito, mas certamente ele é muito competente na quadrinização, nas versões de todos os clássicos heróis e na fluidez narrativa. Mas, talvez, sofra uma certa inconsistência ao longo da minissérie. Contudo, é opção estilística do artista e, como leitores, podemos apreciar sua arte ou não. Embora para uma história com escopo grandioso, cósmico e dramático como este eu preferiria outros estilos, tal opção soaria cômoda e familiar, algo que já teria visto antes (inúmeras vezes, na verdade). No final das contas, é bom experimentar algo diferente do lugar-comum. Parece desenho animado moderno, e as cores da brasileira Cris Peter estão muito boas e atraentes.

Este tie-in foi uma opção da Marvel e dos autores inversa daquela do Desafio Infinito, que saiu na edição #2 dos Guardiões da Galáxia das Guerras (resenha aqui): enquanto aquela procurou um caminho intimista e distante da saga original, nesta todos os aspectos principais e grandiosos foram abraçados e retrabalhados. Uma boa aventura cósmica, totalmente integrada na realidade das Guerras Secretas, e ainda homenageando a trama original e seus personagens centrais.

Completa a edição uma pequena história do Surfista Prateado, ou melhor, de uma versão dele, escrita e desenhada por James Stokoe. É uma arte deslumbrante, daquelas que a gente quer ver mais vezes. Um ótimo encerramento para a edição da Panini.

A impressionante arte de Stokoe

Nota: 9,0