Resenha de Guerras Secretas Capitã Marvel #1 – Panini Comics

Capa com a arte sempre chamativa de Mike Deodato

Retomando as resenhas de todas as edições brasileiras das Guerras Secretas!
Confira nossa opinião sobre a revista solo da Carol Danvers, intitulada Capitã Marvel e a Tropa Carol, que publica a minissérie de uma versão da heroína e um grupo de amigas aviadoras no Mundo Bélico.

Spoilers: mínimos.

Kelly Sue DeConnick fez uma certa fama – sobretudo entre as leitoras – em sua passagem pela revista solo da Capitã Marvel, entre os anos 2013-2015. Graças às suas histórias assumidamente feministas, a personagem ganhou uma nova legião de fãs. Por outro lado, essa fase também trouxe críticos que, basicamente, não concordavam com as mudanças no visual da heroína e no tom das HQs. Em termos comerciais, as vendas do título ainda eram problemáticas, como de resto tem sido para a maioria dos títulos mensais para personagens do 2º escalão ou menos.

Nesta, que seria sua última aventura com a personagem – e também com a Marvel Comics, pelo menos até o momento – DeConnick tem a colaboração de outra importante autora de quadrinhos de heróis da atualidade, Kelly Thompson – que de lá para cá fez o caminho inverso da colega e hoje em dia possui uma enorme quantidade de trabalhos em andamento na editora, alguns muito interessantes como a nova série da Gaviã Arqueira (Kate Bishop).

A arte é do competente e talentoso espanhol David Lopez, que fez lápis, arte-final e cores das 3 primeiras partes e das belíssimas capas principais. Mais uma vez, a Panini esqueceu de mencionar um dos desenhistas, no caso a italiana que cuidou da quarta e última parte da minissérie, Laura Braga.

O título cita uma certa Tropa Carol” (no original, Carol Corps), nome de um fã-clube da personagem que surgiu exatamente durante a fase de Kelly Sue. Ruidoso, o grupo era muito ativo nas redes sociais, tinha correspondência direta com a roteirista e editores, e participava de convenções onde, não raro, as fãs surgiam com caprichados cosplayers de Carol Danvers em várias de suas versões.

Esta revista no mostra os momentos derradeiros de uma versão heroica e poderosa da Capitã Marvel e do Esquadrão Banshee, uma força aérea de elite, responsáveis pela defesa do Domínio chamado Setor Hala.

David Lopez é um ótimo artista, capaz de belas montagens, como destas páginas.

Todas no Esquadrão Banshee são novas personagens, mulheres igualmente heroicas, com grande participação na história e, em sua maioria, pilotos de caças supersônicos (mesma profissão original da Carol Danvers) e – acho que esta informação é pouco conhecida no Brasil – foram inspiradas em membros do fã-clube Carol Corps!

Sim, isso mesmo: algumas das mais fiéis leitoras e defensoras da super heroína viraram personagens da Marvel! Sem dúvida, uma ótima iniciativa e criatividade em termos de relacionamento de uma grande editora com sua base de fãs.

Mas, voltando à revista, uma importante diferença desta versão da heroína com a do universo principal é que esta não tem noção exata da origem alienígena de seus poderes, visto que nas Guerras Secretas de Destino só existe o Mundo Bélico e nada além no Universo, muito menos uma civilização interplanetária guerreira e poderosa como a dos Krees.

A história começa de uma forma interessante, com uma boa interação entre as personagens femininas, que realizam treinos com suas aeronaves em conjunto com a heroína voadora, até que uma missão envolvendo um navio traz um mistério que rapidamente trará uma crise no grupo de amigas.

Esta é uma HQ firmemente ambientada no megaevento, com Thors intercedendo no Domínio e uma obediência geral às ordens de Destino, e sinto que isso não fez muito bem ao conjunto da obra, especialmente na “batalha final” e no epílogo, algo desnecessariamente enigmático e até conveniente, evitando um desfecho redondo. É quase o mesmo recurso de Jason Aaron com sua série Thors – quem leu, vai entender a similaridade.

Uma versão de James Rhodes também participa da aventura

Também incomodam os muitos clichês, em especial as caracterizações excessivamente corretas das personagens do Esquadrão Banshee – cada uma bem diferente das outras (diversidade, ok!) mas todas igualmente cheias de “atitude”; tampouco ajuda que a Baronesa Cochran, a Diretora da organização militar e, portanto, chefe da Capitã e demais pilotos, muda radicalmente de ideia sem nenhuma razão aparente no momento mais conveniente; e sobretudo na batalha “quase equilibrada” contra um time de Thors.

É nítido que as autoras não se esforçaram muito em termos criativos, preferindo jogar com o ambiente mais seguro de sua formação – por exemplo, Kelly Sue foi criada em Bases da Força Aérea americana -, nem tentaram ousar na abordagem ou no roteiro. Não há um personagem que se sobressaia, não há um vilão instigante, nem mesmo um desafio à altura… a história simplesmente conta os momentos finais deste Domínio em uma HQ quase preguiçosa, se não fosse pela arte de David Lopez, certamente o destaque da edição.

Lopez chama nossa atenção há tempos, e aqui logo nas primeiras páginas mostra que caprichou em todos os aspectos: layout, narrativa, arte-final e cores, que acabaram favorecendo um de seus pontos fortes, a variedade de expressões faciais. Não chega a ser memorável, até por conta da história tacanha, mas é sem dúvida eficiente e agradável aos olhos. Pena que ele não foi capaz de concluir o trabalho, porque no último capítulo, com Laura Braga no lápis, a arte perde o fôlego.

Capitã Marvel e a Tropa Carol é um tie-in que se mostrou desnecessário, uma aventura trivial, repleta de clichês, sem uma versão radicalmente diferente, com apenas David Lopez trazendo algo de positivo e a novidade, essa sim bem-vinda, de transformar algumas fãs em personagens. Mas elas e a Carol mereciam uma história melhor.

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A revista fecha com uma pequena história de outro personagem. Essa prática da Panini foi comum nesta Saga, e aqui temos um material retirado da revista Secret Wars: Battleworld II, também de 2015, escrita por Ed Brisson – hoje um dos queridinhos da Marvel – e ilustrada por Scott Hepburn com cores de Matt Milla. O protagonista é um Modoc, mas a historieta tenta, tenta, mas não consegue ser engraçada em apresentar uma coletânea de Modocs vilanescos em versões do Homem-Aranha, Motoqueiro Fantasma e Doutor Estranho. Irritante e totalmente descartável.

Nota para Capitã Marvel e a Tropa Carol: 5,0.

Resenha de O Velho Logan #4 – Panini Comics

Capa da edição que fecha o arco de O Velho Logan nas Guerras Secretas

Nesta quarta edição de O Velho Logan nas Guerras Secretas, a Panini incluiu o capítulo #5 da minissérie americana, Old Man Logan, mas a revista começa com duas historietas retiradas de Secret Wars Too, que de verdade não tem nada a ver com o tom da série principal, o que torna esta HQ… esquisita.

. Volume de Spoilers: praticamente zero.

Vamos lá! Antes de falarmos da história principal, precisamos comentar brevemente as duas histórias que abrem esta revista, ambas extraídas da minissérie americana Secret Wars Too, sendo uma da edição #IV e outra da #VI.

Em “Os Últimos Dias do Demo”, de Kyle Starks e Ramon Villalobos, vemos o que aconteceu com o Demo, um obscuro coadjuvante do Capitão América que brevemente participou dos Vingadores, alguns dias antes do evento da “incursão final” que levou às Guerras Secretas (a colisão das duas Terras remanescentes!). Gosto da arte de estilo alternativo do Villalobos, que combina bem com esta história totalmente despretensiosa e até bem engraçada. Duas curiosidades:o uniforme “clássico” do Demo lembra muito um dos primeiros do Wolverine e, atualmente, esse herói está participando das aventuras do Capitão América Sam Wilson.

Logo depois, em “O Urso Sem Medo” de Ryan Browne – que fez tudo: roteiro, arte e cores – nosso ilustre mutante favorito, porém de uma Terra Alternativa, tem um breve duelo com 3 versões do Ciclope, quando surge… Demoliurso, o Urso Sem Medo! Sim, vocês devem ter entendido do que se trata. Mas, acredite, a HQ fica ainda mais estranha nas páginas seguintes. A proposta é de um humor absurdo, nonsense, que me lembrou alguma coisa entre a MAD e quadrinhos alternativos dos anos 1980. Honestamente? Não gostei, e nem entendi porque a Panini a publicou aqui. Lógico que havia “espaço”, mas será que não havia nada melhor? Nestas situações ainda acho mais interessante repetir uma história antiga, de qualidade, do que preencher com experimentalismos de gosto duvidoso.

Agora sim, entramos na conclusão do arco de O Velho Logan nas Guerras Secretas.

Página Dupla com o Velho Logan em NYC

Brian Bendis despede-se do personagem com uma história calma, sem ação – o que leva a imaginar porque na capa há a chamada “Caçada Mortal!”. Logan está agora em (uma) Nova York e parece não acreditar no que vê. Afinal, de onde vem só há ruínas desta grande metrópole. Os cenários são belamente ilustrados por Andrea Sorrentino, com as ótimas cores de Marcelo Maiolo que, aqui, voltam a casar bem com os intrincados quadros de Andrea, suas chamativas torres corporativas de Manhattan e bons momentos oníricos/telepáticos. O roteiro apresenta poucas situações concretas acontecendo, mas diálogos bem construídos, precisos, talvez a grande marca registrada do autor. Na primeira parte do capítulo, o idoso ex-Wolverine vai ter uma série de reencontros surpreendentes, mas as cenas mais interessantes ficam da metade para frente, inclusive com interligação com o final da saga Guerras Secretas.

Sem dúvida o epílogo cria uma grande oportunidade para a Marvel continuar explorando este Wolverine de um jeito diferente. No geral, esta minissérie começou instigante e repleta de ação e possibilidades, mas logo perdeu o fôlego, mudou de direção e termina de um jeito completamente diferente daquele que poderíamos imaginar. É uma HQ mediana, mas que ao menos faz jus ao estilo de narrativa que causou grande impacto na saga original, de Mark Millar e Steve McNiven.

Interessante construção de Andrea Sorrentino

Fica o aviso que a Panini continuou com esta revista, que virou uma mensal regular, a única surgida durante a Fase Guerras Secretas, e que perdura até hoje, na edição #19, mas, como já mencionado, sem nenhuma ligação com este grande evento Marvel: a edição brasileira passou a publicar, desde a #5, a mensal Old Man Logan escrita por Jeff Lemire e arte variada, mas que inclui também a do italiano Andrea Sorrentino; além de publicar também a mensal All-New All-Different Wolverine, com as histórias da X-23 (Laura Kinney), que assumiu a identidade de Wolverine, escritas por Tom Taylor.

Nota: 6,0.

Resenha de Guerras Secretas #7 – Panini Comics

Todos contra Destino

Sim, o Blog continua com a proposta de resenhar o mega crossover Guerras Secretas na íntegra. Finalmente, com esta edição, avançamos para o ato de encerramento da série central.

. Volume de Spoilers: Pouquíssimos, só para esclarecer os principais pontos da HQ.

Após alguns capítulos tranquilos, nesta sétima parte começa a batalha cataclísmica contra Deus Destino. O grande plano estratégico dos heróis e vilões remanescentes dos universos conhecidos é posto em ação. O melhor é que o leitor não sabia absolutamente nada do que viria. Descobrimos as ações dos desafiantes enquanto lemos, o que é uma ótima forma de criar espanto e prender o leitor.

Do começo ao fim, somos levados a grandes revelações, algumas traições e boas surpresas. Os dois Reed Richards – o clássico, do Universo Regular, e o vilanesco, do Universo Ultimate – transformam o último planeta conhecido em um verdadeiro Battleworld, com generais reunindo suas forças, líderes angariando aliados e até vilões pouco mencionados na série principal ressurgindo plenos, partindo para o tudo ou nada contra os exércitos legalistas do Imperador Supremo.

O roteirista Jonathan Hickman continua seguro com as caracterizações do grande elenco, trazendo uma série de vilões clássicos dos X-Men ao campo de batalha. Cada um desses em algum momento do passado foi responsável por um evento da editora, alguns maiores, outros menores, mas todos deixaram suas marcas na memória de milhares de fãs. Vê-los agora como meros peões de Destino é representativo do poder supremo do vilão número 1 da Marvel e, obviamente, também simboliza a ambição desta história: seria o “evento para acabar com todos os eventos.”

Em seu castelo, Destino acompanha as legiões apreensivo, principalmente depois do alerta de sua filha Valeria Richards. O final do capítulo é brilhante, sem dúvida a cereja do bolo do plano dos Reeds e envolve o cada vez mais popular Pantera Negra.

É exatamente neste ponto que os artistas Esad Ribic e Ive Svorcina brilham, capturando perfeitamente o clima das Terras dos Mortos. As batalhas também ficam épicas com o estilo “pintura a óleo” que a dupla entrega. Ao mesmo tempo que os cenários são desoladores, há emoção emanando dos olhares dos superseres e até mesmo nos titânicos golpes e rajadas, enquanto baixas acumulam-se de ambos os lados. O melhor é que esta foi apenas a primeira parte da batalha final, que certamente vai se desenrolar no capítulo #8 e só concluir, de fato, no #9.

Uma grande galeria de vilões dos X-Men está presente na arte de Ribic e Svorcina

Na história complementar que a Panini sempre encaixa, vemos uma realidade da Inglaterra do Rei James. Lá, a sempre incrível Kate “Gaviã Arqueira” Bishop, ou melhor, Lady Katherine Bishop, decide fazer justiça enfrentando um certo Frank Castle (capturaram a ironia?) com a ajuda de versões de outros Jovens Vingadores. Infelizmente a edição não traz os créditos mas, pesquisando, descobrimos que a curta e interessante HQ é de Prudence Shen  de quem é a primeira vez que ouço falar – com uma bela arte de Ramon Bachs no lápis e Jean François-Beaulieu nas cores.

Nota 8,0.

Resenha de Guerras Secretas Zonas de Guerra #1 – Panini Comics

Capa da Panini que compila as histórias 1872 e Onde Vivem Os Monstros

Outra edição especial da Panini que traz dois tie-ins das Guerras Secretas: as ótimas minisséries 1872 e Onde Vivem os Monstros. Em comum, ambas são situadas em cenários do passado e, lógico, em diferentes domínios do Mundo Bélico de Destino.

. Volume de Spoilers: Nenhum, leia sem medo.

De saída, é preciso esclarecer que estas duas histórias são completamente independentes da megasaga. Portanto, se gostar dos temas, personagens ou dos artistas envolvidos, vale a pena dar uma procurada na internet ou nos bons sebos da sua cidade, porque Zonas de Guerra é mesmo muito interessante.

1872 apresenta um momento de virada na história de Timely, um arquétipo da ‘pequena cidade do meio oeste americano do séc. IXI’ onde vivem versões de Tony Stark, Bruce Banner, Steve Rogers e diversos outros ícones da Casa das Ideias. Para quem não sabe, Timely era o nome original da editora de quadrinhos criada do final dos anos 1930 e que viria a ser Marvel.

Mas, o verdadeiro protagonista é o índio Lobo Vermelho que, prestes a ser enforcado à revelia da lei, é salvo pelo xerife local – nada mais, nada menos, que Steve Rogers (só lembrando aos mais distraídos, o “nosso” Capitão América). Esse salvamento desperta a ira do prefeito de Timely, Wilson Fisk (o “nosso” Rei do Crime), o que gera uma sequência de confrontos nas ruas da cidade que, até o final deste verdadeiro conto de faroeste, ficarão recheadas de sangue, muito sangue mesmo!

Belíssima ilustração de Alex Maleev para a capa de 1872 #1

Os leitores veteranos podem entender que 1872 é uma HQ no estilo “O que aconteceria se… os heróis Marvel existissem no velho oeste?“. Há muitas surpresas ao longo dos 4 capítulos que, como nos melhores quadrinhos de realidades alternativas, entrega ao leitor uma diversão extra: identificar “quem é quem” na nova ambientação. E há muitos personagens mesmo, heróis, vilões e elenco de apoio.

Gerry Duggan faz, como de costume, um trabalho muito competente e prova mais uma vez que é um roteirista extremamente versátil. Cria uma ambientação excelente, que permite ao leitor uma autêntica imersão no velho oeste – nem lembramos que isto tudo é um Domínio do Mundo de Batalha. O roteiro é ágil, sem pontas soltas, e os diálogos, afiados e instigantes. Como nas melhores histórias desse gênero, há reviravoltas e duelos, bem construídos, sem exageros, mesmo para os padrões Marvel.

Parece acertada também a opção de Guggan ao escolher Ben Urich como o narrador deste sanguinolento conto. Como esse personagem “sem poderes” é um repórter, surge uma camada adicional na leitura: pequenos lembretes de que naquele período da história (real) americana a democracia ainda era um processo em construção, que a imprensa era refém dos poderosos, que os índios sofriam um verdadeiro massacre, que as mulheres não tinham direitos, que a Justiça era covarde, que os pequenos comerciantes eram achacados por criminosos e assim por diante. Sim, sutilmente o roteirista consegue levantar todas essas bandeiras dentro do contexto de sua história.

Há muita violência na Timely do Velho Oeste

Mas o autor brilha, especialmente, com o desenvolvimento do Lobo Vermelho. Esse é um personagem que também existe no Universo Marvel regular, mas é de oitavo escalão, daqueles esquecidos pelo editorial. No começo, apesar de ser o catalisador da trama, temos a impressão que será quase um “observador” dos acontecimentos. Mas, a partir de um determinado fato, ele se move para o centro da história. Sem entregar detalhes, fiquei com vontade de ler outras HQs com este personagem no mundo de 1872.

Nik Verella
faz um trabalho excelente em capturar tanto as grandes paisagens do velho oeste, como o clima das pequenas construções de madeira e, claro, a pobreza, as limitações de tecnologia e a violência do período. O desenhista se excede, contudo, nas expressões faciais, essenciais para mostrar os variados aspectos humanos dos personagens de Duggan, especialmente suas falhas e limites. Stark não só tem um apreço pela bebida, ele parece de fato um alcoólatra. Igualmente, o Rogers de Verella parece de fato acreditar na justiça. E seu Ben Urich quer escrever verdades, mas de fato teme pelas consequências.

A composição dos quadros e a postura dos personagens são sempre muito bem resolvidas. É curioso também que o desenhista acrescenta alguns elementos de steampunk – como parece ser inevitável nas atuais produções da cultura pop sobre o período – mas segura no limite do crível. Isto é, fica também parecendo natural.

Steve Rogers e Tony Stark no elegante traço de Nik Virella

As cores de Lee Loughridge captam a areia do deserto espalhadas nas roupas, móveis e na pele de todos, em tons de amarelo e marrom, e são determinantes para a experiência completa deste western revisionista de primeira linha da Marvel. No geral, o trio de artistas entrega um excelente trabalho de ponta a ponta.

Se há algo que impede uma nota mais alta é que, por mais incrível que seja o roteiro, dá para antever algumas situações, inclusive o desfecho, ao menos em suas linhas gerais. É certo que, desde o começo da história, o leitor recebe pistas do que vem pela frente. Entretanto, há boas surpresas no meio do caminho, que fazem de 1872 uma das melhores produções das modernas Guerras Secretas da Marvel.

Nota para 1872: 8,5.

A segunda história deste encadernado traz, na totalidade, Onde Vivem os Monstros, uma minissérie em 5 partes escrita pelo sarcástico – e brilhante – Garth Ennis e desenhada por um de seus colegas de The Boys, Russ Braun.

Capa de Frank Cho com a intrépida Clemmie Franklin-Cox e um batalhão de mulheres guerreiras a la Sheena das Selvas

De todas as revistas interligadas ao megaevento Guerras Secretas, esta certamente figura dentre as mais inusitadas. É preciso lembrar que a Marvel, na ocasião da divulgação da saga, tinha dito que aproveitaria para revisitar seu vasto catálogo e, na companhia dos artistas parceiros, iria lançar alguns títulos pouco convencionais mas, mesmo assim, temos algo especial aqui.

Claro, tivemos novas versões, ou continuações, de outros eventos famosos, sagas maiores e menores; surgiram até mesmo títulos inéditos; e em algumas ocasiões, a Marvel resgatou personagens ultra obscuros e os reapresentou em novas roupagens. Foi assim, por exemplo, com Arkon, um vilão dos anos 1970, inserido durante as Guerras Secretas no título WeirdWorld, escrito por Jason Aaron com uma arte belíssima de Michael Del Mundo e que, inexplicavelmente, não foi publicado no Brasil.

E é assim também com o Águia Fantasma (Phantom Eagle), um personagem de gênero Guerra do qual ninguém se lembra da Era de Prata, encaixado aqui como protagonista de uma minissérie com o título Where Monsters Dwell.

Vale uma explicação adicional: Where Monster Dwell era o nome de um título regular da fase em que a Editora Timely tinha virado a Atlas, e teve uma longa duração nos anos 1950. Provavelmente desconhecida pela quase totalidade dos brasileiros, curiosamente naquela época essa revista apresentava “histórias de Monstros e de Terror”, e não de Guerra. Apesar de bizarro, o mash up funciona!

O Águia Fantasma em uma de suas raras aparições na Era de Prata

Uma das edições da versão original do título “vintage”, com uma formiga gigan… ou melhor, Grottu!

Garth Ennis, notório apreciador de armas e guerras, já tinha trabalhado com o Águia Fantasma em uma ótima minissérie desenhada por Howard Chaykin chamada War is Hell – The First Flight of the Phantom Eagle, e que no Brasil saiu na saudosa Marvel Max da Panini, em meados dos anos 2.000 (edições 66 a 70, conforme o Guia dos Quadrinhos).

Nesta nova empreitada com o personagem, o escritor traz
Karl Kauffman, um exímio piloto americano, filho de pais alemães, que lutou e fez fama na I Guerra Mundial, em algum momento dos anos 1920, em um local não muito preciso próximo a Cingapura.

Nosso herói está prestes a abandonar uma jovem e sonhadora namorada nativa (?) que, por sinal, está grávida, à sua própria sorte e à ira do pai, quando tudo começa a dar errado. Uma das grandes novidades trazidas por Ennis é que seu Kauffman não apenas é um oportunista e mentiroso mas, como veremos ao longo deste conto criativo e violento, é também cruel, egoísta, covarde e extremamente machista.

O Águia Fantasma entrando no Mundo dos Monstros em arte de Russ Braun

Mas, voltando ao argumento, é no momento em que o Águia se prepara para fugir das responsabilidades de criar uma criança que autor introduz, de forma contundente, uma excelente personagem, a jovem aristocrata, inteligente e segura, Clemmie Frankie-Cox. Ela embarca no pequeno avião monomotor de Kauffman com o intuito de pegar uma carona até Cingapura. Logo o leitor perceberá, porém, que ela não é a típica “Dama em Perigo”. De fato, Ennis a coloca para criar embate de ideias e mesmo de postura, coragem e outros contrapontos com o veterano herói de guerra.

Todavia, como é típico nos quadrinhos do autor, não há heróis e vilões claramente definidos, portanto pode-se esperar de Clemmie muitas e surpreendentes revelações, e uma crueldade talvez não tão distante da do próprio Águia Fantasma. Em suma, a dupla de protagonistas/antagonistas rende grandes momentos na história.

A dupla de protagonistas – e antagonistas – rende grandes momentos na HQ

 

Esta HQ é uma espécie de pulp fiction clássico de aventura e fantasia transformada em narrativa gráfica, com um ritmo verdadeiramente vertiginoso, com aparições estupendas de dinossauros, pigmeus, amazonas e outras criaturas míticas, mas que estão sempre à serviço da história principal.

Tudo pode acontecer nesta bizarra e às vezes desesperadora história em quadrinhos retrô, e Russ Braun capricha em todas as frentes. O desenhista traz um ritmo vigoroso e seu estilo é muito apropriado para a proposta, adicionando ação, desespero e ritmo com grande intensidade. Seus monstros, como o título promete, são mesmo um show à parte, mas a caracterização de Kauffman e Clemmie, com suas expressões de pavor, espanto, ironia e ódio são verdadeiramente inesquecíveis.

Tudo pode acontecer neste conto de aventura, ficção e guerra de Garth Ennis

 

Mais uma vez, Garth Ennis entrega uma ótima história, justamente de um personagem que ninguém – nem mesmo a Marvel – parece se importar, e Guerras Secretas ganha um de seus melhores tie-ins. Por isso mesmo que Zonas de Guerra da Panini se torna uma edição altamente recomendada.

Nota para Onde Vivem os Monstros: 9,0.

Resenha de As Guerras Secretas Secretas de Deadpool #1 – Panini Comics

Capa de Tony Harris para mais uma edição especial de Deadpool nas Guerras Secretas.

Nesta edição especial da Panini estrelada por Deadpool, a Marvel fez uma brincadeira, ignorando as “novas” Guerras Secretas, e produziu uma espécie de “O que aconteceria se… Deadpool tivesse participado das Guerras Secretas originais?“, ou seja, é uma história baseada naquele primeiro grande evento da editora, de 1984.

. Volume de Spoilers: Poucos, só para situar o leitor.

O resultado é hilário e, às vezes, até brilhante, mas tem um problema: as gags funcionam muito, mas muito melhor para quem já leu e se lembra bem daquele clássico evento – diria até que é imprescindível. Claro que, nos dias atuais, pela facilidade em encontrar informação, pode ser algo contornável, mas fica a ressalva.

Como os leitores daquela época sabem, a primeira grande piada é que Deadpool simplesmente não existia. Ou melhor, ainda não tinha sido criado! Quando surgiu, como adversário da X-Force, em 1991, ele só tinha interações com o núcleo dos mutantes, ficando famoso mesmo lá pelo final dessa década.

Essa “impossibilidade” é o mote das piadas e do roteiro desta HQ e justifica o título: Deadpool teria participado secretamente das primeiras Guerras Secretas. De fato, se ele surgiu como um adulto e veterano em 1991, ele já existia em 1984; o ponto é que nem nós, leitores, nem os demais personagens daquele evento o conheciam!

Essa premissa é bastante explorada no primeiro capítulo, quando heróis e vilões são transportados por Beyonder ao Mundo Bélico. A história começa instantes após o Doutor Destino ter eliminado todos os super-heróis, ou seja, já no arco final da saga. Graças ao seu insano fator de cura, Deadpool recupera-se sozinho e começa a vaguear, em meios aos corpos carbonizados dos seus colegas, quando passa a narrar, em flashback, os principais pontos da história pregressa.

O Deadpool-Narrador é uma opção que muitos roteiristas gostam de usar, e Cullen Bunn, o responsável pela minissérie reunida neste encadernado, soube explorar bem, embora a maior parte da história nem precise do recurso. Bunn parece ter se divertido muito, imaginando como Deadpool teria reagido, quais falas teria dito, como lutaria e como se relacionaria com os demais heróis e vilões nas situações mais marcantes do evento. Falastrão, desbocado e tentando conter sua veia assassina, as risadas surgem a cada página.

Uma das cenas clássicas recriadas, agora com Deadpool no meio… e não é que ficou até mais legal?

O desenhista, Matteo Lolli, recria várias das mesmas cenas da saga clássica, emulando até algumas das poses e equipamentos imaginados por Mike Zeck e Bob Layton, os desenhistas da série original. Lolli às vezes procura ângulos diferentes, como se revíssemos a cena clássica por uma outra câmera, o que acrescenta uma dose extra de diversão. Seu traço é clean, com narrativa e composições adequadas, nada de excepcional mas competente.

Muitas das frases originais e que se instalaram na memória de quem vivenciou a história nos anos 1980 também ressurgem mas, claro, com intervenções inoportunas do Mercenário Tagarela que até fazem “perder o clima” dos demais (Doutor Destino que o diga rsrs).

Mas, piadas infames à parte, Bunn traz algumas ideias bem-vindas, criativas e, pelo menos uma – que envolve um certo simbionte alienígena, realmente brilhante. O autor também precisava apresentar uma justificativa crível sobre como essa hipotética participação do Deadpool não contava da história original, e o faz utilizando um recurso do próprio roteiro das Guerras. Finalmente, há uma alteração incrível, um retcon revelado na última página que, sinceramente, agradou ao meu coração.

Deadpool é curado… e olha que visual maneiro ele tinha em 1984?

Provavelmente mais do que 4 capítulos para esta grande piada seria demais, mas eu leria! De modo geral, esta HQ cumpre bem o que se espera da proposta, e até de fato supera, ao acrescentar boas ideias, dezenas de piadas e algumas situações memoráveis.

Como extras, uma pequena história da mesma dupla criativa usando como base o Torneio dos Campeões – um evento anterior, de 1982 e bem menos famoso, e outra, chamada Howard, o Humano, de Skottie Young e Jim Mahfood. Esta, publicada originalmente em one-shot, apresenta um thriller policial cômico, em que o único humano desta realidade é uma versão do pato Howard, e todos os demais seres inteligentes e falantes são animais. OU seja, o oposto do que lemos nas aventuras do Pato. É uma boa história, embora a arte alternativa de Mahfood não seja para todos.

Nota: 8,0.

Resenha de Guerras Secretas X-Men #4 – Panini Comics

A quarta edição especial da Panini estrelando histórias dos X-Men no Mundo Bélico das Guerras Secretas traz uma espécie de continuação da saga Programa de Extermínio, originalmente publicada em 1990 nos EUA e aqui alguns anos depois.

. Volume de Spoilers: Poucos.

X-Tinction Agenda foi o primeiro crossover envolvendo os três títulos mensais de equipes mutantes da época – X-Men, X-Factor e Novos  Mutantes – desenhados em sua maior parte por Jim Lee e Rob Liefeld e que, obviamente, estimulou a Marvel a criar outros eventos similares nos anos seguintes, como A Era de Apocalipse.

Na ocasião, os heróis enfrentam Cameron Hodge, um ciborgue que odeia mutantes e que promove uma chacina na ilha de Genosha, então um país soberano repleto de mutantes. Entre as consequências da X-Tinction Agenda original, Warlock – um alienígena tecnorgânico membro dos Novos Mutantes – foi destruído; Lupina (Rahne Sinclair) tinha ficado presa na forma intermediária de Lobisomen e tanto ela quanto Destrutor (Alex Summers) decidiram permanecer em Genosha para reorganizar e pacificar o país.

Indiretamente, uma consequência desse evento de 1990 é que ele pavimentou a transformação do título dos Novos Mutantes para a X-Force, capitaneado por Rob Liefeld. Por sua vez, essa revista vendeu tanto que estimulou o artista a criar a Image Comics com seus colegas da Marvel, incluindo Jim Lee. Enfim…

Voltando à nossa aventura mais recente, aqui a Panini inseriu a minissérie completa em 4 partes escrita por Marc Guggenheim e desenhada por Carmine Di Giandomenico. O resultado, assim com em outras releituras de sagas mutantes das Guerras Secretas é… uma bagunça!

A história começa retratando uma revolta da população mutante em uma Genosha 10 anos depois do final da saga original. Tanto Destrutor quanto Lupina continuaram na ilha, com auxílio de alguns outros X-Men, como Rictor, Karma e Blindado, este último criado especialmente para esta minissérie.

A revolta é causada por uma praga que está matando a população e deixando as economias de Genosha em um estado de Guerra Civil. Um ponto interessante é que a ilha pertence a um Domínio maior, X-Topia, que engloba outras cidades, todas de mutantes. A capital, Cidade-X, é governada pela Baronesa Fênix (Rachel Grey) e, como é de se esperar, tem seu próprio – e vasto – contingente de X-Men.

A primeira parte da história entrega até uma leitura agradável, levemente promissora, embora com aquele ar repleto de clichês típicos dos anos 90. Porém, conforme revelações vão acontecendo, e os planos para resolver os problemas, se avolumando, em situações tão esdrúxulas quanto tolas, percebe-se que o roteirista se enrolou ao cair na tentação de misturar muitas ideias e personagens em um espaço reduzido.

Em um determinado momento, por exemplo, descobrimos que o Fera desta realidade também fez experimentos com o Fluxo do Tempo e trouxe do passado X-Men mortos – apenas para “provar um ponto” de que isso era possível.

Também soa inverossímil a revelação de um traidor em Genosha, visto que ele tinha uma posição de poder elevada por anos e que ninguém, claro, percebeu. É desse vilão a concepção de dois planos malignos, ambos realmente bizarros pela complexidade e baixa chance de sucesso. Mas ele consegue o duplo feito, claro.

Mas, o pior, realmente, é o final. Sem estragar, basta dizer que o plano que os heróis elaboram para deter um poderoso inimigo é totalmente tolo. Com tanta gente poderosa, a ideia de um “sacrifício” parece gratuita, desnecessária. Se bem que, com a máquina do tempo do Fera, é só voltar uns dias e resgatar os mortos certo?

Quanto à arte, gosto bastante do estilo clean, de corpos longilíneos, de Di Giandomenico. Nas primeiras edições ele até consegue fazer um bom trabalho, mas conforme o roteiro cria novas situações rocambolescas e, principalmente, batalhas incessantes, o desenhista enfrenta dificuldades para dar coerência à narrativa.

As cores de Nolan Woodard também pecam, às vezes, no excesso de brilho. Apesar de tudo, a arte é um ponto positivo na revista. Outro é poder matar saudade, para os mais nostálgicos, de alguns personagens do jeito que eram naquele comecinho da década de 90, em especial, Destrutor, Lupina, Rictor e Vampira. O tal Blindado ganha bastante destaque no final. Há, ainda, uma pequena surpresa na última página, mas por ser uma realidade alternativa, a sensação é inócua.

Completa a edição uma historieta chamada A Última Cartada, de Sina Grace e Ken Lashley, que usa o cenário de Dias de Um Futuro Esquecido para contar um ato heroico – por amor – que envolve Psylocke e um coadjuvante. A trama é simplesmente absurda e um desserviço ao clássico revisitado.

Nota: 4,5.

Resenha de O Velho Logan #3 – Panini Comics

Nesta terceira edição de O Velho Logan nas Guerras Secretas, a Panini incluiu o capítulo #4 da minissérie americana original, e duas outras histórias com a presença de versões do mutante no Mundo Bélico. O resultado é bem mediano.

. Volume de Spoilers: zero.

A história principal desta revista começa com o Velho Logan exatamente onde estava no final da edição anterior, ou seja, enfrentando os Zumbis na área além da Muralha. Há várias páginas dedicadas à sanguinolenta batalha, até que nosso herói encontra uma inesperada aliada.

Bendis divide a narrativa em três momentos, sendo que o primeiro e o último são basicamente iguais. A única novidade é no segundo, sem ação, puro talking heads, ou seja, bate-papo com cenas focadas nos rostos dos personagens. O problema é que os heróis não falam nada de realmente interessante, apenas bobagens. Logo há mais sangue e… fim.

Poderíamos imaginar que o roteirista quis deixar espaço para a dupla de artistas “brilhar”, mas mesmo assim, o resultado fica inferior ao das edições anteriores. As cores de Marcelo Maiolo continuam intensas mas, desta vez, pelo tipo de personagens e cenário, parecem excessivamente brilhantes. Andrea Sorrentino já provou ser um talentoso desenhista, continua com suas quadrinizações estilosas mas, também aqui, o resultado não é tão poderoso como em outros capítulos. Os zumbis são todos muito parecidos, apesar de serem superseres, e as cores sem variedade não ajudam na distinção.Vamos torcer para as aventuras do Velho Logan melhorarem na sequência.

As duas histórias curtas que fecham esta edição são HQs melhores, embora nada de espetacular.

A primeira mostra um Justiceiro possuído por um Doutor Estranho. Wolverine aparece como membro de um tal de Quarteto Infernal, que é uma equipe interessante. Texto de Joshua Williamson e arte de Mike Henderson.

A segunda HQ tem um clima noir bacana, com um Wolverine detetive que se depara com um mistério envolvendo o assassinato de um Tony Stark. Texto de Frank Tieri e bela arte de Richard Isanove, o destaque desta edição inteira, por sinal.

Nota: 5,0.