A Nova Heavy Metal Brasileira

Sláine é a estrela da capa da nova versão da Heavy Metal BR

A editora Mythos lançou, agora em agosto de 2018, a primeira edição da nova versão brasileira da célebre revista Heavy Metal. Estão programadas outras 4, compondo assim uma “1ª Temporada”. Todas as histórias contidas nesta #1 são da Britânica 2.000 A.D., uma publicação longeva que, desde os anos 1970, apresenta um mix de personagens criados por diversos quadrinistas. O Juiz Dredd, por exemplo, foi primeiramente lançado na 2.000 A.D. Segue nossa resenha para as 4 histórias selecionadas para este lançamento:

Guerreiros ABC: As Guerras Volganas – Parte 1 (28 pgs)

Pat Mills, o criador de Juiz Dredd, é também o responsável pelos robóticos Guerreiros ABC, cuja primeira HQ foi publicada em 1977 (!). Pelo que pesquisei, esta é a primeira aparição desses intrigantes personagens no Brasil, essencialmente um time de robôs guerreiros dotados de uma poderosa IA.

A Mythos optou para a estréia um arco chamado Guerras Volganas, de 2007, ilustrado por Clint Langley, que trabalha essencialmente com arte digital.
Meu primeiro contato com seus trabalhos foram com as impactantes capas da revista dos Guardiões da Galáxia da fase de Dan Abnett e Andy Lanning, também dos anos 2.000 (vale a pena procurar, bela fase!).

A história – situada em um futuro distante – começa com os Guerreiros em Marte, entregando um dos seus membros para uma instituição psiquiátrica (?!), quando passam a divagar sobre seus tempos nas violentas Guerras Volganas, ocorridas séculos antes.

O foco nesta Parte 1 é no relato de Hammerstein, aparentemente o líder do grupo, que foi um Sargento e o modelo-base de outras 50.000 unidades iguais fabricadas para as Guerras.

Mills estabelece que os primeiros robôs soldados foram desenvolvidos pela URSS no final do século XXI (neste mundo a Guerra Fria continuou por várias décadas), para defesa de seu petróleo dos invasores capitalistas norte-americanos. É um conceito interessante e, dada à imensa quantidade de material já criado, parece que a escolha dos editores da Mythos é bem adequada, não só porque a história apresenta uma arte “comercialmente impactante”, mas como também resgata um momento-chave da cronologia dos personagens que explica muito desta distópica realidade.

Arte interna da história, uma das muitas splash pages de Langley

Quanto aos desenhos, confesso que não sou entusiasta da arte digital nos quadrinhos, salvo em capas ou pôsteres. Contudo, aqui combina muito com a ambientação fria, suja, repleta de aço e titânio, forjas e entulho presentes nas páginas dos Guerreiros, além, claro, de uma associação imediata com a própria marca da revista, embora saibamos que Heavy Metal tenha outras conotações também.

Langley cria várias splash pages, inclusive de páginas duplas, que trazem um forte impacto visual, mas a narrativa em si tem alguns problemas.

Os diversos membros dos Guerreiros possuem personalidades e habilidades distintas, mas por enquanto só dá para termos um vislumbre disso.

Diferente, muito original, bem escrito e ilustrado, gostei deste primeiro contato com os Guerreiros ABC, inclusive do vilão, Volkhan, o líder dos Volganos, cuja foice e martelo ameaçadores e um feroz discurso anti-capitalista traz um charme extra à esta HQ, ainda mais lendo nesta era pós-Guerra Fria, onde a Rússia compete com os USA nos grandes mercados globais!
Nota: 8,0.

Sláine: O Batedor do Gongo (32 pgs)

Outra criação do prolífico inglês Pat Mills, Sláine também apareceu pela primeira vez em uma edição da 2.000 AD, em 1983, sendo esta história de estréia na Heavy Metal criada em 2009 e desenhada pelo mesmo Clint Langley de Guerreiros ABC.

Não conheço nada do universo de Sláine, que remete, sem dúvida, às HQs do Conan, mas ambientadas em supostos reinos Celtas mágicos e, claro, muito violentos e repletos de entidades malignas, guerreiros com armaduras encantadas, monstros e anões, povos indefesos e mulheres atraentes.

Neste momento, o poderoso guerreiro encontra-se em luto pela sua esposa e vaga por Albion Leste, onde se depara com uma enorme torre em reformas, antiga morada de certos Cyths Supremos, seres demoníacos celestiais que outrora dominavam aquelas paragens.

A história em si é simples, e gostei menos do que a anterior. Aqui os problemas de narrativa gráfica de Langley aparecem mais acentuados. As batalhas são confusas, tanto pelas escolhas de quadros como pelo excesso de pretos na arte digital suja, carregada, ora cheia de detalhes e ora nada mais do que borrões, sendo especialmente difícil de entender o duelo principal.

Langley carrega nos tons escuros em outra história com muito metal… mas esta é de Fantasia

Além de utilizar os clichês de fantasia, Pat Mills acrescenta personagens humanos bem estereotipados, e a ameaça, quando surge, é neutralizada rapidamente em uma sequência de splash pages visualmente impactantes, mas emocionalmente nulas.

Contudo, imagino que fãs deste tipo de arte vão adorar – que remete a um certo imaginário do Heavy Metal (digo, do estilo musical), de Tatoos, de videogames pretensamente hiper-realistas, e coisas do tipo. Mas, a história em si é bem esquecível.

Aqui no Brasil esse personagem tem raríssimas aparições (a última pela própria Mythos) mas, ao contrário da HQ anterior, não achei O Batedor do Gongo a porta de entrada mais fácil para criar empatia com o guerreiro. Vamos acompanhar para ver se melhora.
Nota: 6,5.

O Mundos dos Labirintos – O Enforcado (25 pgs)

Alan Grant é um escritor escocês que teve uma excelente fase à frente do Batman nos anos 1990. Na Grã Bretanha, contudo, é mais conhecido por ter escrito diversas aventuras de Judge Dredd, entre outros personagens localmente populares.

Grant escreveu o primeiro capítulo de O Mundo dos Labirintos Mazeworld no original – quatro anos antes da efetiva publicação na 2.000 A.D. Magazine.

Na ocasião, apesar da fantástica premissa, ele não sabia como continuar o desenvolvimento da trama – seus editores o ajudaram. É exatamente essa estreia que temos aqui, com a arte detalhista de Arthur Ranson, que retrata o nosso “mundo real” com muita foto-referência, mas quando embarcamos no fabuloso Mazeworld, ele assume um estilo clássico, daqueles de Hal Foster, com um quê de Barry Windsor-Smith, o que por vezes lembra quadros renascentistas, tamanho o nível de detalhe que o artista emprega na construção dos personagens e suas expressões.

Ranson apresenta uma narrativa segura, sem grandes inovações, entrecortada com splash pages em geral de labirintos psicodélicos.

Das 4 histórias selecionadas pela curadoria da Mythos, esta é a que gostei mais. Um condenado à forca é misteriosamente transportado pelo tempo e espaço (ou será que não?) ao tal Mundo dos Labirintos, onde é confundido (ou é verdade?) com O Encapuzado, um mítico herói que libertaria o povo da opressão de uma raça conquistadora.

Sim, é outra temática bizarra, mas condizente com a “marca” Heavy Metal e tem um ótimo desenvolvimento para um capítulo inicial. A propósito, esta é uma vantagem desta série em relação às duas anteriores: aqui é onde realmente esta história começa! No mais, o roteiro é fluido, com diálogos muito bem escritos e personagens intrigantes.

Splash de Página Dupla com uma visão aérea do fantástico Mundo dos Labirintos

O Mundo dos Labirintos é uma HQ que se encerrou há muito tempo: na Inglaterra a dupla de autores desenvolveu 3 arcos, publicados entre 1996 e 1999.

Vamos torcer para que a nova Heavy Metal venda bem para termos acesso a esse conjunto promissor de histórias criativas, instigantes e belissimamente ilustradas.
Nota: 8,5.

Contos de Telguuth – Um Pouco de Conhecimento (8 pgs)

História curta e extremamente impactante, com um desenvolvimento perfeito entre texto e arte, onde acompanhamos o mago Pel Morgath em busca de (mais) poder.

Foram publicadas 25 Contos de Telguuth até a morte de Steve Moore, o criador da série, em 2014. Moore é um venerado escritor inglês, que nos presenteia com uma história de terror com arte a óleo de Greg Staples, com espaço para um plot twist inesquecível. De certa forma, há uma “lição de moral” como nas Fábulas gregas e medievais, mas esta definitivamente não é para menores.

Um autêntico conto de terror no universo de Telguuth

O autor é considerado um dos mentores intelectuais de Alan Moore que, apesar do sobrenome e do país de origem comuns, não têm parentesco algum entre si.

Para esta série não haverá um único desenhista, mas certamente serão todos no mínimo competentes, o que pode propiciar a entrega de um belo conjunto de fábulas de terror.
Nota: 8,5.

Balanço Final:
No geral, a nova Heavy Metal Brasileira começa bem e, apesar do título mais conhecido ter decepcionado, apresenta um conjunto potencialmente interessante para muitas histórias de qualidade, com roteiristas e artistas de grande qualidade.

Nota final da Edição #1: 7,9.

Uma HQ para a Sala de Aula (1) – A Narradora das Neves – Editora Nemo

Capa com design elegante com os protagonistas Inuit esperando o jantar

Este breve artigo é uma sugestão que humildemente deixo para professores que desejam trabalhar com histórias em quadrinhos com seus alunos. Como conheço razoavelmente bem o mercado educacional, além de ser filho de pedagoga e ter um longo contato com projetos educativos variados, inclusive com HQs, quem sabe não possa ajudar?

Há muita coisa interessante neste singelo conto sobre o povo Inuit que, acredito, pode ser bem trabalhado nos colégios com jovens leitores, entre 8 e 11 anos, especialmente por conta do retrato cuidadoso que apresenta do dia a dia de pequenas tribos do vasto território dos esquimós. É bem difícil encontrar material específico sobre essa cultura.

Antes de mais nada, é preciso dizer que esta é uma História em Quadrinhos. Ponto! Não foi planejada especificamente para ser trabalhada em sala de aula – pelo menos é assim que me parece. Isso traz uma grande vantagem e, também, pode trazer um problema.

Como se sabe, atualmente é comum a presença de histórias em quadrinhos nas listas de paradidáticos de colégios brasileiros (especialmente na rede privada). O meio ainda é visto com reservas por alguns professores, mas sem o preconceito de décadas atrás. A constante evolução da linguagem e, principalmente, a gigantesca produção que provém de dezenas de países diversificou os temas, aprofundou os gêneros e, com isso, os públicos.

Porém, o mais usual em sala de aula é vermos adaptações de Clássicos da Literatura – mundial ou brasileira, algumas muito boas por sinal – ou histórias originais nem sempre bem desenvolvidas, ou até mesmo, livros paradidáticos maçantes que por acaso foram desenvolvidas no formato de HQ.

Não é o caso de A Narradora das Neves. E é essa a grande vantagem: por ser uma HQ de verdade, não é “mais um livro paradidático chato” (comentário típico de alunos dessa faixa etária).

Quanto ao problema, digamos que é o outro lado da moeda: o professor precisa extrair da obra o que acha mais interessante e planejar a aula de leitura e interpretação, ou o projeto interdisciplinar que a HQ claramente “pede” para acontecer.

Criada por um trio de quadrinistas franceses, o título é fruto de um projeto capitaneado pela revista GEO, uma espécie de versão francesa da National Geographic, que trata de viagens, povos, natureza e lugares exóticos, em parceria com a editora Dargaud, uma das maiores e mais relevantes editoras de quadrinhos do país do Asterix.

Foram 3 títulos, todos traduzidos para o português pela Nemo, em 2013. Os outros são O Apanhador de Nuvens e As Crianças da Sombra. Eu só tive acesso a este, por enquanto. Um leitor adulto a completa em 20 minutos, mas para uma criança pequena deve levar mais do que o dobro desse tempo. Há também a questão da apreciação das imagens, etc.

Na capa, os créditos de criação vão para uma dupla, Béka & Marko, mas uma rápida pesquisada na wikipedia explica que Béka é o pseudônimo para um casal de autores, Bertrand Escaich (de onde veio o Bé) e Caroline Roque (daí fecha o Ka). Os desenhos ficaram a cargo de Marko, na verdade Marc Armspach (os franceses adoram pseudônimos…).

A HQ traz dois momentos da vida de Buniq, que é quem dá o nome ao título: nos dias atuais, idosa, e suas lembranças da adolescência, 60 anos atrás.

Naquela ocasião, vemos a jovem Inuit incomodada com a atitude de avô, Ukioq, que decidiu deixar a pequena aldeia e ir “se sentar” para morrer sozinho de frio. Sem didatismos, percebemos que essa situação é natural, uma prática comum daquela época, justificada pelas crescentes dificuldades que um idoso doente ou com movimentos limitados trazia para seus familiares naquele terreno quase inóspito.

Buniq, contudo, tem dificuldades em aceitar essa atitude e decide resgatar seu avô. No mesmo dia, um viajante aparece na aldeia e conta histórias que fascinam tanto a jovem que ela resolve, então, organizar uma expedição para lugares distantes na companhia de seu querido Ukioq e, assim, adiar a perda do ancião.

Outro adolescente, o aprendiz de caçador Taq, completa o trio de exploradores do “Grande País dos Homens”, como esse povo chama a vasta região ao redor do Círculo Polar Ártico colonizada pelas tribos Inuites.

Há aventura e ternura, comédia e ação, mas sobretudo é um retrato de um povo verdadeiramente diferente para nós, brasileiros e latinos. É aterrador ver tanto gelo e neve, ventanias súbitas e tempestades, e tão pouca vida animal terrestre, e conseguir não apenas sobreviver, mas desenvolver uma tradição oral de fábulas, manufatura de peles, utensílios e armas, técnicas de caça e de pesca, barcos e caiaques, além de um profundo contato com a natureza e o mundo espiritual.

O traço de Marko é simples, com poucos detalhes, seguindo a tradição da escola da Linha Clara franco-belga, com uma narrativa bem resolvida, fluida e gostosa de se olhar.

As cores singelas, plácidas e realistas com a geografia local são de Maela Cosson e a tradução de Fernando Scheide parece muito boa, sendo a edição da Nemo no geral bem interessante em termos de formato e preço (apesar de ser R$ 34,90 na tabela, é possível encontrar por cerca de R$ 20,00!).

É isso, gostei bastante deste título infanto-juvenil europeu e pretendo comprar os demais da série.

Inuit adulta em trajes típicos do meio do século XX, mesmo período da HQ

Atenção professores!

Segue um resumo do que acho pertinente para trabalhar A Narradora das Neves com seus alunos e assim estimulá-los a ler mais, a conhecer a linguagem dos quadrinhos e, claro, adquirir conteúdos ricos de assuntos diferentes de um jeito legal!

Disciplinas: Geografia . História . Ciências . Português

Temas: Amizade . Amor . Amadurecimento . Tradição . Outras Culturas . Juventude x Velhice . Responsabilidade . Animais do Ártico . Hábitos dos Esquimós .

Idade: de 8 a 11 anos.

Sabe-se, também, que os esquimós seguem rapidamente para a total ocidentalização de seus hábitos, já que atualmente em seus territórios há muito potencial turístico, além de grande exploração mineral e animal há décadas. Portanto pode ser interessante traçar uma pesquisa adicional sobre a história dessa população e como se encontra hoje. Espero ter ajudado, abraços!

Descobrindo o Mundo de Tex com a Coleção da Salvat

O lançamento da nova coleção da Editora Salvat, Tex Gold, sem dúvida alguma fez a alegria do grande – e muitas vezes esquecido – contingente de fãs do personagem italiano, que há décadas é publicado ininterruptamente no Brasil.

Porém, com aquele precinho camarada de R$ 9,90 para a primeira edição, fez também com que muita gente que não costuma comprar as revistas do cowboy finalmente arriscasse o investimento.

O resultado? Certamente para muitos desses novatos, a leitura foi surpreendentemente agradável.

Eu sou um desses leitores.

Capa da Edição 1 da Coleção Tex Gold

Eu tenho comprado algumas das coleções da Marvel da Salvat e, em grande parte por isso, me senti instigado a dar uma chance ao material da Bonelli. Depois de consultar alguns Canais, Grupos e Blogs, entendi que a seleção de histórias prevista para a coleção é composta de HQs especiais, pinçadas a dedo entre Anuais, edições Gigante  e Almanaques, com um cuidado adicional em apresentar uma ampla variedade de desenhistas.

Eu realmente adorei a primeira edição. Roteiro muito bem costurado, fluido, bons diálogos, trama envolvente e uma arte encantadora.

Índios, cavalaria, fortes, salloon, pradarias, espingardas, flechas, riachos, mocinhos e bandidos, enfim, o mundo de Tex retrata a essência das histórias de faroeste. Fui atingido sim por uma forte dose de nostalgia… lembranças dos inúmeros filmes do gênero que assisti ao lado de meu pai, ou dos seriados em família, como Os Pioneiros e Daniel Boone, das brincadeiras de “Forte Apache” com meu irmão, das minhas dezenas de soldadinhos, índios e mineradores que tanto curtia quando criança e até um pouco além: tive uma “fase” em que resolvi pintar à mão com tinta acrílica minuciosamente todos os meus bonequinhos.

Mas, divaguei…

A trama de O Profeta Indígena apresenta Manitary, um jovem shaman da tribo dos Hualpais, uma espécie de excluído que, a partir de uma visão profética, vira um líder espiritual que convence e une centenas de “peles vermelhas” em uma missão sagrada contra os brancos. Há muita ação, mas também boas soluções de investigação, planos e contra-planos, e um bom desenvolvimento de personagens. São 220 páginas (!), um verdadeiro épico do gênero.

Mas, devo ressaltar, há momentos realmente espetaculares de narrativa gráfica, como quando Tex e seu leal grupo de parceiros conversam em um bar… a câmera do italiano Corrado Mastantuono “percorre”, ao longo de 4 páginas, o cenário de forma impecável, variando o foco e a distância, girando, ora se afastando, ora se aproximando, enfim, criando um ritmo agradável – até plácido – que, com os cuidadosos diálogos de Cláudio Nizzi, fazem com que a sequência da conversa entre os heróis e a criação de seus planos seja impecável.

O belíssimo traço e a perfeita câmera de Corrado Mastantuono

Entusiasmado, comprei a segunda edição, chamada O Cavaleiro Solitário, com arte do mestre Joe Kubert, e também gostei muito. História solo, violenta, às vezes carregada de tensão, mas ainda assim coerente com a personalidade do ranger Tex Willer e de seu universo, ou seja, argumento carregado em realismo, sem nunca exceder aquele limite do impossível, em uma quadrinização clássica, segura, sem experimentalismos, mas extremamente competente.

Comprei a terceira sem pestanejar, Patagônia, e novamente fui surpreendido pelo tema, com uma verdadeira aula de história dos conflitos entre os colonos e os indígenas da nossa vizinha Argentina. Já peguei o volume 4 e, enquanto continuar gostando das histórias e da arte, pretendo continuar comprando Tex Gold.

Minha relação com as HQs do Tex, até então, era um misto de preconceito e desconfiança.

Lembro de ter lido brevemente uma ou outra revista no começo dos anos 1980, muito provavelmente entre as pilhas do saudoso Tio Frank, de Itanhaém, mas não me chamaram muita atenção. Lembro que achava aquilo muito “sério” e “adulto”.

Depois, quando mais revistas da Bonelli começaram a ser publicadas no Brasil pela editora Mythos, no começo dos anos 2000, pensei em arriscar mas, folheando aqueles “quadrinhos quadrados” em preto e branco, confesso que desisti… comprei um Zagor aqui, uma Julia Kendall ali, mas o Tex deixei novamente de lado.

O preconceito vem, acredito, muito em conta do gênero faroeste ter submergido na cultura pop nas últimas décadas, e pelo perfil aparentemente “ultraconservador” do público leitor do personagem – afinal, quem frequenta bancas observa quem geralmente compra o quê… e não estou falando apenas da seção de quadrinhos, claro.

Parece certo que o leitor tradicional de Tex é homem, adulto ou idoso, urbano e muito comum entre os moradores de pequenas cidades do interior, muitos dos quais talvez só acompanham esse tipo de HQ ou, mais provável, prefiram Tex a qualquer outro gênero.

Sim, os quadrinhos da Bonelli em geral não podem ser chamados de subversivos, criativos ou talvez nem mesmo modernos, mas de modo algum Tex traz mensagens “inadequadas” ou desconectadas com os dias atuais. Nosso ranger e seus pards, apesar de matarem frequentemente seus inimigos, pregam paz entre as nações indígenas e os invasores brancos, respeitam a natureza e defendem a lei e a ordem. Não toleram injustiças, nenhum tipo de violência gratuita, estão sempre dispostos a ajudar os mais necessitados e a praticar o bem. Heróis, enfim.

Acredito que a Salvat acertou mais uma.

Em termos comerciais, deve ter um bom desempenho, mas talvez a mais importante contribuição de Tex Gold seja ampliar e renovar (?) o público leitor deste ícone dos quadrinhos italianos.

Pela qualidade destas primeiras edições, e no nível dos quadrinistas envolvidos, nada mais justo e necessário.

Edgard Scandurra e sua paixão por HQ

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Além de aficionado por histórias em quadrinhos, tenho também alguns outros interesses “artísticos”. Entre eles, um de destaque desde a adolescência é rock e, dentro dessa imensidão sonora, um dos gêneros favoritos é o rock nacional dos anos 80.

Edgard Scandurra é um dos maiores nomes do rock brasileiro, líder e principal compositor da banda paulistana Ira!, ele também gravou álbuns solo, sendo o primeiro chamado “Amigos Invisíveis”, de 1989.

Repleto de composições bem diversificadas, desde instrumentais, outras bem rockers, algumas ligeiramente mais pop, o álbum traz o guitarrista em momentos intimistas, onde ele expõe várias de suas paixões.

E Histórias em Quadrinhos, ou melhor, “Banda Desenhada”, ou simplesmente “BD” – como são conhecidas em Portugal, é uma dessas paixões do músico. Ele compôs, cantou e tocou todos os instrumentos da canção “Amor em BD”, a segunda faixa do disco (isso já foi importante!), uma pérola dos anos 80 que pouca gente conhece! Confiram a letra e vejam quem o Scandurra exalta na música:

AMOR EM B.D.
(Edgard Scandurra)

 

ADÉLE
PAULETTE
BRANCA-FLOR
SHEMER
VALENTINA
JUSTINE
BARBARELLA
TERNA-VIOLETA

SHEENA DAS SELVAS
LINDA ADORA ARTE

RAIOS!

 

Nosso caso de amor
Nosso louco, doentio caso de amor

Todo o dia, um tormento

Toda a noite uma despedida
Nosso louco caso de amor

Doentio caso de amor

Como um Blues que não se acaba

Dentro do meu pensamento

 

ADÉLE
JUSTINE
VAMPIRELLA
EMANUELLE

 

Você me toca, me toca o coração!
Nosso louco caso de amor… doentio

Ô Droga!

Pois é: só mulheres!
E algumas das maiores musas de todos os tempos. Provavelmente Barbarella, Vampirella, Sheena das Selvas e Valentina são as mais conhecidas aqui no Brasil…

Scandurra chega a dedicar o álbum para “os mestres da BD européia”, criadores da maioria dessas personagens que aparecem na canção. Por falar nisso, quem não lê quadrinhos europeus não sabe a delícia que está perdendo. Claro que passa longe do super-herói, mas é uma produção muito sofisticada, elegante e às vezes anárquica! Atualmente há vários lançamentos desse gênero aqui no Brasil, vale a pena arriscar uns volumes…

Recomendo a todos os curiosos a procurar e ouvir “Amor em BD”! Ela é muito, muito bacana mesmo, cantada com vontade, um riff legal, enfim, daquelas músicas que chegam a grudar no ouvido.

Engraçado que posteriormente o vocalista Nasi também começou a curtir HQ, mais especificamente Wolverine e outros anti-heróis, e há algumas referências sobre o gênero em outras passagens da história do Ira!, como nas capas e encartes do álbum “Meninos da Rua Paulo”.

Pois é. Quadrinhos e rock às vezes se encontram, e juntos já renderam músicas e fatos bem interessantes. Sempre que me sentir inspirado, vou comentar sobre essas jam sessions por aqui.

Abraços.