Resenha de Guerras Secretas Homem-Aranha #2 – Panini Comics

A Ilha das Aranhas foi uma agitada e marcante saga que envolveu praticamente todo o elenco de personagens associados ao Homem-Aranha. Publicada originalmente em 2011, foi arquitetada e escrita por Dan Slott no modelo de “mini-evento”, ou seja, quando a editora publica uma série de revistas focadas em uma só linha/franquia – bem mais contida, por exemplo, do que as “megasagas”, que envolvem várias franquias, um volume muito maior de títulos e todas mais ou menos interligadas por um período de tempo maior (como estas Guerras Secretas, a propósito).

Na ocasião, a trama central foi desenvolvida no próprio título mensal do Homem-Aranha, mas a Marvel publicou algumas edições especiais e minisséries adicionais. A Ilha das Aranhas original obteve certo sucesso comercial e reconhecimento da crítica como um ótimo exemplo de saga curta, bem planejada e executada. Slott estabeleceu uma grande ameaça à Ilha de Manhattan na figura da Aranha-Rainha, uma espécie de semi-deusa que conseguia, a partir de um vírus, transformar seres humanos e super-humanos em híbridos aracnídeos por um período, até a transformação total em enormes e horripilantes aranhas.

. Volume de Spoilers: moderados.

A Marvel resolveu revisitar essa trama nesta minissérie em 5 partes, escrita por um colaborador habitual de Dan Slott, o (normalmente) ótimo Christos Gage. A história completa foi reunida pela Panini nesta edição #2 de Guerras Secretas Homem-Aranha e, honestamente, está longe de ser um trabalho de qualidade.

A aventura acontece em um Domínio constituído por uma Manhattan já tomada pelos híbridos aracnídeos, comandados telepaticamente pela Baronesa Aranha-Rainha, que ainda por cima conseguiu converter vários dos heróis mais famosos da Ilha em seus guerreiros. Rapidamente tomamos contato com uma força de Resistência, liderada pelo Agente Venon – aquele com o Flash Thompson. Alguns outros heróis imunes aos efeitos da conversão, como o Visão, também participam do pequeno, mas audaz, grupo de opositores.

Um dos maiores problemas com esta história está exatamente na escolha e, sobretudo, na interpretação exagerada das capacidades do protagonista. Em sua boa série solo (que durou 42 números e foi publicada no Brasil na revista A Teia do Homem-Aranha) que, aliás, começou após a saga Ilha das Aranhas original, foi possível acompanhar o Agente Venon em diversas missões de combate. Seu treinamento militar associado à destreza e habilidade do simbionte alienígena o permitia façanhas incríveis. Aqui, porém, ele vai (muito) além, e consegue ser extremamente eficaz e inteligente, elaborando estratégias fabulosas, sobrepujando heróis mais experientes e supostamente capazes, como Capitão América, Homem de Ferro e Homem-Aranha.

Durante o desenvolvimento da história, a cada nova solução encontrada pelo Agente Venon – muitas delas “tiradas da cartola” –  , o  leitor fica mais e mais incomodado com a tal eficácia suprema do herói. Uma dessas soluções é o uso de diversas fórmulas de superciência presentes da mitologia do Homem-Aranha que, por serem extremamente poderosas, deveriam estar melhor protegidas, ou poderiam simplesmente terem sido destruídas pela Aranha-Rainha e seus exércitos. Vale lembrar que ela comanda milhares de soldados híbridos, com força e poderes aracnídeos, que incluem alguns gênios científicos (Stark, Pym, Tchalla) e táticos (Steve Rogers, Carol Danvers). Oras bolas, se Flash Thompson deduziu o que essas fórmulas poderiam causar, certamente eles também teriam pensado nisso, não? Enfim, essas e outras situações são tão inverossímeis que minam a história. Há outros problemas, também, como a falta de carisma (e de inteligência) da própria vilã e outros momentos inacreditavelmente fortuitos, que facilitam os trabalhos da Resistência. Mas nada se compara ao arco final, com a presença de dinossauros (?) ressuscitados!!

A arte de Paco Díaz é agradável, com boas cenas de ação e uma narrativa gráfica correta, embora sem imaginação: os personagens são todos retratados exatamente nas suas características mais populares e, portanto, óbvias. Ele consegue dar conta do ritmo extremamente frenético e repleto de cenas de ação do roteiro, de fato o destaque desta HQ. Há algumas ilustrações que se destacam, em geral de heróis no uso de seus poderes, como o Visão e a Mulher-Aranha. As cores de Frank D’Armata são igualmente tradicionais, em um trabalho mediano, sem inspiração.

O resultado, enfim, é uma história do Agente Venom revisitando um cenário alternativo ao final da saga Ilha das Aranhas original, com muita ação desenfreada, clichês de Resistência-audaz-que-sobrepuja-um-Império-maligno, uma vilã pra lá de esquecível e uma arte ok. A propósito, há pouquíssima relação com o resto das Guerras Secretas. Se você não ler este tie-in, não vai perder nada significativo. Ou seja, não dá para se entusiasmar muito.

Completa a revista uma história de May Parker, a Garota-Aranha de uma realidade alternativa, situada em um futuro próximo ao que era o Universo Marvel do final da década de 90 (tal realidade foi batizada de MC2). Essa heroína é pouco conhecida na Brasil, mas teve ao longo do anos 2000 sua própria – e divertida – revista mensal, com uma audiência devota de fãs. Essa HQ saiu como história secundária na minissérie da Ilha das Aranhas nos EUA e a Panini acertadamente a encaixou na mesma edição nacional.

Os próprios criadores da personagem e que desenvolveram seu vasto universo, Tom De Falco e Ron Frenz, produziram esta história que, curiosamente, parece não estar inserida no contexto das Guerras Secretas. Tenho a impressão que a dupla de autores aproveitou a oportunidade e simplesmente criou uma continuação direta do último status quo deste universo. Há dezenas de personagens, heróis e vilões, a maioria filhos de ícones da Marvel, que contracenam com a Garota-Aranha em uma aventura leve, singela, com sabor dos quadrinhos clássicos de décadas passadas. É a melhor parte desta revista, sem dúvida, e a principal razão para a nota final não ser ainda menor.

Nota 5,5.

Resenha de Guerras Secretas Guardiões da Galáxia #3 – Panini Comics

A capa faz uma homenagem à saga original, mas com os Guardiões como protagonistas

Quando a Saga de Korvac original foi publicada, ainda não era comum para a Marvel ou para a DC desenvolverem grandes eventos no modelo de crossover, isto é, com uma história principal e diversas outras interligadas, envolvendo múltiplos títulos de vários personagens.

Pelo contrário, a história idealizada por Jim Shooter com uma pegada cósmica foi criada para a revista mensal dos Vingadores no final dos anos 1970 (Avengers Vol.1 #167-168 e 170-177). Na época, a superequipe não era tão popular e só tinha uma revista. Portanto, esta era para ser uma história “comum”, um team-up com os Guardiões da Galáxia originais (aqueles do século XXX), mas conforme os meses avançavam e, graças ao seu final inesperadamente chocante, entrou para o rol de maiores histórias dos Vingadores de todos os tempos. Inclusive figura na minha lista de maiores clássicos da Marvel.

. Volume de Spoilers: moderados, mas sem entregar os principais momentos.

Para esta nova abordagem, uma interessante releitura da original, os protagonistas são os mesmos Guardiões da Galáxia do futuro, acrescidos apenas de Geena Drake, uma nova personagem criada poucos meses antes das Guerras Secretas, enquanto uma equipe alternativa de Vingadores são os coadjuvantes. Alternativa, porque nunca vimos essa formação: Hércules, Serpente da Lua, Pantera Negra, Visão, Viúva Negra, Jaqueta Amarela e Jocasta, liderados pelo Capitão Mar-vell. Todos em sua gloriosa e icônica versão da década de 70.

A equipe dos Guardiões cuida da segurança do Domínio de Forest Hills, cujo Barão é… Michael Korvac. Já os Vingadores patrulham o Domínio vizinho, Holly Wood, onde o Barão é, curiosamente, Simon Williams. Talvez este seja um easter egg, porque Williams, mais conhecido no Brasil pelo codinome Magnum, teve uma carreira paralela como ator de cinema – nunca bem sucedida -, e agora ele “domina” Hollywood.

A história começa com a tentativa de um acordo entre os dois Domínios, cujos Barões estão aparentemente dispostos a esquecer certas diferenças do passado e trabalharem em conjunto, inclusive com as duas superequipes cooperando na segurança. Nesse meio tempo, os Guardiões estão investigando um mistério envolvendo cidadãos comuns que são acometidos por uma “loucura” envolvendo estrelas e um universo anterior… para então se transformarem em criaturas superpoderosas.

O roteirista é o veterano Dan Abnett, especialista em aventuras cósmicas e principal responsável pelas últimas séries do grupo, tanto as da equipe futurista quanto a do presente. Dividida em 4 partes, o autor cria uma história instigante, com todos os elementos principais da aventura original, mas ao mesmo tempo com muita criatividade e dando mais espaço para Michael Korvac e sua amada, Carina. Acredito que leitores novos, ou que desconheçam a história original, deverão gostar das reviravoltas e das batalhas épicas. Mas, para os leitores veteranos há um pequeno deleite extra: ter uma nova chance de ver estes Vingadores interagindo com estes Guardiões, porque são todos personagens em suas versões clássicas. Serpente da Lua fazendo um mapeamento mental, Capitão Mar-vell em ação, Águia Estelar misterioso… enfim, há pequenos momentos assim que são presentes para os fãs. Além disso, os costumes, cenários e roupas sugerem que a trama se passa mesmo no final dos anos 70.

A história está fortemente inserida no ambiente das Guerras Secretas, e o roteirista explora inteligentemente isso. Destino e os Thors são uma sombra constante e influenciam as decisões dos personagens, e a forma como Abnett envolve a consciência cósmica de Korvac com a saga principal é exatamente aquela que um leitor exigente poderia esperar. O final – tão contundente quanto a história clássica, é muito bem amarrado e, novamente, rende uma bela homenagem à saga original e aos próprios Guardiões.

Os Guardiões no traço cartoon de Schmidt

A arte ficou por conta de Otto Schmidt, que tem um estilo cartunesco, que não é o meu favorito, mas certamente ele é muito competente na quadrinização, nas versões de todos os clássicos heróis e na fluidez narrativa. Mas, talvez, sofra uma certa inconsistência ao longo da minissérie. Contudo, é opção estilística do artista e, como leitores, podemos apreciar sua arte ou não. Embora para uma história com escopo grandioso, cósmico e dramático como este eu preferiria outros estilos, tal opção soaria cômoda e familiar, algo que já teria visto antes (inúmeras vezes, na verdade). No final das contas, é bom experimentar algo diferente do lugar-comum. Parece desenho animado moderno, e as cores da brasileira Cris Peter estão muito boas e atraentes.

Este tie-in foi uma opção da Marvel e dos autores inversa daquela do Desafio Infinito, que saiu na edição #2 dos Guardiões da Galáxia das Guerras (resenha aqui): enquanto aquela procurou um caminho intimista e distante da saga original, nesta todos os aspectos principais e grandiosos foram abraçados e retrabalhados. Uma boa aventura cósmica, totalmente integrada na realidade das Guerras Secretas, e ainda homenageando a trama original e seus personagens centrais.

Completa a edição uma pequena história do Surfista Prateado, ou melhor, de uma versão dele, escrita e desenhada por James Stokoe. É uma arte deslumbrante, daquelas que a gente quer ver mais vezes. Um ótimo encerramento para a edição da Panini.

A impressionante arte de Stokoe

Nota: 9,0

Resenha de Guerras Secretas Homem-Aranha #3 – Panini Comics

Homens e Mulheres Aranhas por todos os lados!

Esta terceira revista dedicada às aventuras do(s) Homem-Aranha(s) na realidade das Guerras Secretas compila a minissérie Aranhaverso, em 5 partes, levemente inspirada na recente saga de mesmo nome do Universo Marvel tradicional que, por sinal, ainda não li. Mas sei que tem boa reputação e proporcionou uma ampliação da “família” Aranha, com resgate e criação de personagens de outras realidades e épocas. Alguns desses Homens e Mulheres Aranhas de universos alternativos são as estrelas desta nova história.

. Volume de Spoilers: bem pouquinhos… pode ler sem medo!

O roteirista é Mike Costa, um jovem talento com passagens elogiadas nas séries em quadrinhos dos Transformers e G. I. Joe (ambos da editora IDW) e que já fez alguns trabalhos na Marvel nos últimos anos. Ele apresenta, no primeiro capítulo, a protagonista Spider-Gwen, a mesma da realidade que tem histórias-solo badaladas, criada para a saga Aranhaverso original e que obteve um grande e até inesperado sucesso desde então. A jovem baterista está investigando a morte da sua contraparte deste Domínio, e no processo conhece outros heróis com poderes aracnídeos que, por diversas razões, terão que se unir para deter um grande conjunto de vilões clássicos do herói, comandados por um de seus arqui-inimigos que, por acaso, é secretamente o prefeito desta New York.

Por falar na Big Apple, a desta história é essencialmente a mesma que conhecemos do Universo Marvel tradicional, com uma diferença central: em algum momento seu Homem-Aranha desapareceu. A sociedade local parece acreditar que ele morreu. Curiosamente, não há menção alguma sobre outros supers, nem Quarteto, Vingadores, X-Men ou Demolidor. Fica-se com a impressão que o herói proeminente era o Aranha e os vilões, aqueles da sua galeria, e ponto! Ou seja, se for isso mesmo, esta cidade seria o próprio “Aranhaverso”.

Voltando à nossa história, os heróis aracnídeos que se unem formam um conjunto bem interessante: além da super Gwen Stacy, temos a Garota Aranha, ou Anya Corazón, que foi criada em 2005 com o codinome inicial de Araña (sim, ela é latina e parte do início dos esforços da Marvel nesse sentido, embora sem “polêmicas” na época). Ela é parceira de um certo Capitão Aranha (?), ou melhor, de um Braddock, da linhagem de heróis ingleses associados ao Capitão Britânia. Logo, o Homem-Aranha Indiano, um gênio científico de perfil similar a Peter Parker, mas de nome Pavitr Prabhakar – que eu também não conhecia, associa-se ao grupo. O Porco-Aranha (no original, Spider-Ham), um verdadeiro cartum vivo, personagem que tinha revista própria e desfrutou de um certo sucesso nos anos 80 (somente nos EUA, porque aqui os leitores nem chegaram a conhecê-lo), e o Homem-Aranha Noir, de uma realidade onde os Marvels surgiram na Era da Depressão americana, que estrelou algumas minisséries nos anos 2000 e alcançou fama mundial entre os gamers por conta do jogo Spider-Man: Shattered Dimensions, completam a equipe.

A história tem um bom ritmo, diálogos adequados e uma leveza incomum para os tie-ins das Guerras Secretas. Com um roteiro convencional, sem riscos, mas interessante, que traz algumas reviravoltas e surpresas, tudo bem amarrado, em uma leitura rápida e fluida, Aranhaverso não é um espetáculo, mas também não decepciona e consegue entregar uma boa aventura do tipo “formação de equipe de heróis”, com a diferença, claro, que este é um supergrupo composto por heróis-Aranha de diversas realidades. A interação entre este grupo de desconhecidos, tanto nas batalhas como principalmente nos momentos de calmaria, é um dos pontos fortes da HQ.

Outra qualidade, certamente, é a arte do competente André Araújo, português que recentemente trabalhou na série Avengers A. I. Com um traço limpo, fortemente influenciado pela escola europeia de ‘Linha Clara” e por Moebius, o artista transita com facilidade e segurança em todas as partes da boa aventura descompromissada, com muita fluidez e leveza – talvez a característica principal deste trabalho. As cores são da veterana Rachelle Rosenberg. 

Quando leio trabalhos leves, bem redondos e sem grandes pretensões como este, me lembro das constantes queixas de leitores veteranos que não suportam mais as “grandes sagas” ou os crossovers… sim, esta é um revista derivada de uma Saga mas, como muitas outras, tem vida própria e nada impede de lê-la sem compromisso, como um passatempo fugaz. E, mesmo fora dos crossovers, tanto a Marvel quanto a DC continuam publicando histórias assim, basta ter paciência e boa vontade para procurá-las. Afinal, só essas duas editoras lançam quase 200 comics mensais novos todos os meses. Alguém realmente acha que a maioria dessas revistas está ligada à mega saga do verão?

Nota 7,5.

Resenha de Guerras Secretas Vingadores #3 – Panini Comics

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A terceira edição do título Vingadores na fase Guerras Secretas da Panini traz na íntegra a minissérie Thors, escrita por Jason Aaron e desenhada por Chris Sprouse.

Volume de Spoilers: moderados, mas sem entregar pontos-chave.

Os leitores mais antigos da Marvel sabem que, neste caso, a editora não selecionou um evento anterior para produzir uma continuação ou uma versão para o cenário do Mundo Bélico. Thors é completamente original no conceito e está firmemente inserida nas Guerras Secretas. Portanto, vale o aviso: lê-la sem acompanhar a megasaga vai trazer algumas dificuldades.

A história tem como protagonista o Thor Supremo (do universo Ultimate), que é um dos investigadores da corporação policial que vigia os reinos do Mundo Bélico a mando de Deus Destino, batizada de Tropa Thor. Ele e seu parceiro, Bill Raio Beta, estão diante de um crime misterioso envolvendo mulheres e, aparentemente, sem nenhuma pista ou suspeitos. Sim, o começo é cliché mas, claro, tudo fica diferente quando os policiais são deuses guerreiros superpoderosos!

Outras versões de Thors importantes da mitologia Marvel aparecem, como o “das Runas”, o “Sapo”, o “Caolho do Futuro” (criado recentemente pelo próprio Jason Aaron) e o da realidade principal, agora mais conhecido como “Odinson”. O leitor também terá a oportunidade de ver algumas curiosas versões inéditas, como um “Thor Groot” e um “Thor Lobo”. Eles e outros trazem diversidade e graça para a Tropa Thor, que não mede esforços para punir crimes ou buscar vingança, seja com gangues de Motoqueiros Fantasmas, dúzias de Hulks, Ultrons e Zumbis.

Os primeiros dois capítulos são muito bons, instigantes e com um excelente ritmo, mas a trama perde o fôlego nas duas partes finais. A solução encontrada pelo autor é até válida, mas impossível também não achá-la simplesmente preguiçosa.

Aaron, que desde a fase Marvel Now abraçou com vigor o título central do Thor, criando arcos poderosos e com uma qualidade média invejável – alçando-o ao primeiro time dos grandes roteiristas da história do personagem, continua muito à vontade com portadores de martelos mágicos em geral, especialmente nas falas e atitudes dos trovejantes. Há uma ótima cena de interrogação entre um dos membros da Tropa e um suspeito e a cerimônia de um funeral também é digna de nota mas, como já dissemos, os bons e mais criativos momentos concentram-se no começo da história. Uma pena que faltou algo realmente diferente para encerrar a trama.

O talentoso Chris Sprouse fez poucos trabalhos para a Marvel, mas é veterano da DC e premiado com dois Eisner pelo seu Tom Strong, em parceria com Alan Moore e editada originalmente pela America´s Best Comics na virada dos anos 2000 (essa série está atualmente sendo publicada na íntegra pela Panini).

Suas representações dos personagens conhecidos são fiéis aos originais, e os novos, bem realizadas e interessantes. Sua narrativa gráfica é tradicional, correta, sem arroubos, e trazem poucas splash pages, mas quando surgem são sempre impressionantes. A arte-final de Karl Story é limpa, sem exageros, e as cores do sempre competente Marte Gracia realmente fazem a arte brilhar nos momentos certos.

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A excelente equipe criativa, porém, não consegue entregar uma história plenamente inesquecível. É bem produzida e tem um começo promissor, mas a solução dos crimes e, sobretudo, o final (?!) anti-climático deixam a desejar. No mais, gostaria de ver novamente Sprouse experimentando com outros personagens Marvel.

Completa a edição da Panini uma divertida e frenética aventura de Misty Knight, em parceria com o sumido Paladino, no reino de Killville, em que enfrentam versões da galeria de vilões do Homem-Aranha, com texto de Kevin Maurer e ótimos desenhos de Cory Smith e cores de Jesus Aburtov.

 Nota 7,0.

Resenha de Guerras Secretas A Era de Ultron Versus Zumbis Marvel – Panini Comics

Capa da Edição Brasileira

Capa da Edição Brasileira

Esta revista contém dois tie-ins das Guerras Secretas, ambos originalmente publicados pela Marvel Comics no formato de minisséries em quatro partes: a própria Era de Ultron versus Zumbis Marvel – de James Robinson e Steve Pugh; e Zumbis Marvel – de Simon Spurrier e Kev Walker. São histórias independentes que a Panini juntou em uma publicação especial, maior do que a média de suas edições.

. Volume de Spoilers: leves.

“Jornada à Miséria” é o nome da história de Zumbis Marvel. Para quem não conhece, Marvel Zombies foi uma criação inusitada da editora, idealizada por Mark Millar enquanto escrevia o título do Quarteto Fantástico do Universo Ultimate e que, ao ganhar sua própria minissérie (escrita por Robert Kirkman, antes de estourar com The Walking Dead), teve uma grande repercussão na crítica e (parte) do público, que adorou acompanhar as aventuras canibalescas de heróis Marvel transformados em zumbis superpoderosos. Essa “equipe” ganhou várias revistas e especiais nos últimos anos, mas não são as estrelas desta história.

Como tem acontecido com outros títulos de “eventos famosos” usados nas Guerras, a Marvel não entrega o óbvio e coloca como protagonista uma de suas ótimas personagens de 5º escalão: Elsa Bloodstone.

Página interna da história de Elsa Bloodstone

Poucos leitores conhecem a personagem, que é filha de Ulysses Bloodstone, um lendário caçador de monstros imortal, que a treinou para seguir seu legado. Elsa teve um maior destaque quando participou da equipe Nextwave, de 2006, mas, a julgar pela sua performance nesta história, podemos esperar mais da personagem nos próximos anos.

De fato, ela é a grande estrela da revista inteira, com uma presença espetacular, heroica, guerreira, incansável e impressionante. Nesta realidade, é uma das Comandantes do Deus Destino no Escudo, a enorme muralha que separa as hordas de zumbis e outras ameaças dos reinos do Mundo Bélico. Logo no começo, em um ataque maciço dos mortos-vivos, Elsa enfrenta o Terror Rubro, uma distorção vilanesca do Noturno, que a carrega para o “lado errado” da muralha. Salva por uma criança misteriosa, Elsa vai, então, percorrer as Terras Mortas procurando uma saída ou, ao menos, uma forma de salvar a criança. Além de enfrentar diversos vilões zumbificados, a guerreira embarcará em uma jornada física e mental exaustiva, com árduas recordações de sua infância e batalhas sangrentas e desafiadoras.

O autor, Simon Spurrier, surpreende com a segurança que demonstra com a protagonista, criando nuances bem construídas de sua personalidade, além de um roteiro realmente instigante, com muitos momentos chocantes e inesperados, tudo de forma natural, sem pesar a mão, com reviravoltas mas também revelações e transformações, que fazem o leitor se encantar ainda mais com a caçadora de monstros. Spurrier comprova que é mais do que um escritor regular – vale lembrar que é o responsável pela ótima série solo do Legião (X-Men Legacy), que certamente contribuiu para o desenvolvimento do seriado televisivo com o mutante, que está prestes a estrear nos EUA.

Kev Walker é um talentoso – mas pouco reconhecido – desenhista da Casa das Ideias e aqui faz um de seus melhores trabalhos. As cores de Frank D´Armata ressaltam a aridez das Terras Mortas, mas é nas batalhas, na concepção dos Zumbis vilanescos podres e em pedaços (inesquecível a aparição de um Doutor Octopus) e, principalmente, no duelo final que o trabalho da dupla realmente brilha. Seu traços estilizados não são exageradamente disformes, trazendo doçura para uma criança e também agressividade e desgraça para os inúmeros mortos-vivos da história. Ele consegue acertar até mesmo em momentos de humor negro, como na impagável participação de um certo mercenário tagarela. A composição das páginas também é impressionante e faz a história avançar no ritmo certo.

Talvez inesperadamente, Zumbis Marvel é uma das melhores HQs das Guerras Secretas mas ficou escondida sob o título desta edição da Panini, que destaca a outra (e inferior) história. Vale a pena conhecer o excelente trabalho da dupla de artistas.

Nota para Zumbis Marvel: 8,5.

“Um Forasteiro na Cidade” é o nome da segunda história da revista, com a minissérie da Era de Ultron Versus Zumbis Marvel e apresenta, como se espera, um pouco da batalha entre as forças dos mortos-vivos, aqui liderados por um Zumbi Magneto, contra os exércitos robóticos de Ultron.

Batalha entre os Zumbis e os Robôs

Batalha entre os Zumbis e os Robôs

Como conceito, é até interessante imaginar as duas facções se enfrentando, mas a história não gira em torno disso. O autor, James Robinson, cria uma cidadela no meio das Terras Mortas como santuário para sobreviventes chamada Salvação. Esse local é comandado, vejam só, por heróis ligados ao criador do Ultron, Henry Pym. Então, temos na verdade uma história estrelada pelo trio Visão, Magnum e o Tocha Humana original, o androide que foi o segundo personagem criado para a Marvel (Namor seria o primeiro).

A HQ começa apresentando a chegada de uma jovem versão de Henry Pym à cidadela, que procura uma forma mais eficiente de se defender dos ataques dos Ultrons e Zumbis. Durante a série, enquanto Pym tenta descobrir uma forma de ajudar, conheceremos a história de sua realidade, a Timely (sim, o primeiro nome da editora).

Robinson tenta juntar muita coisa ao mesmo tempo, mas o resultado é confuso e inevitavelmente forçado. Sem estragar a história, teremos sim muita violência e carnificina, como é de se esperar em uma HQ dos Zumbis Marvel, mas como os personagens não são bem desenvolvidos, e é difícil acreditar nas justificativas para a própria existência de Salvação diante de tantos inimigos, a leitura perde o impacto. Há algumas situações interessantes, mas talvez o único motivo para alguém realmente se interessar pela HQ é se curte os heróis envolvidos.

A família heroica de Pym

A família heroica de Pym

A arte é de Steve Pugh, outro ex-DC (recentemente fez o Homem-Animal dos Novos 52), que apresenta um bom estilo retrô – sobretudo nos heróis e quando retrata a realidade da Timely, mas não consegue transformar esta história em algo muito melhor, principalmente pela esdrúxula situação que permite a batalha final (novamente, sem spoilers!) não ser “traduzível” em algo visualmente interessante.

Com uma ideia razoavelmente promissora, esta história traz muito mais elementos do que consegue dar conta, resultando em situações absurdamente inacreditáveis. A leitura não chega a ser arrastada nem mal produzida, mas não há nada de especial também.

Nota para A Era de Ultron Versus Zumbis: 5,0.

Nota Final desta edição da Panini: 6,5.

Resenha de Guerras Secretas X-Men #3 – Panini Comics

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A terceira edição de aventuras de equipes X-Men no Mundo Bélico revisita o inesquecível período de histórias produzidas pelo escocês Grant Morrison, entre 2001 e 2004, usando como título o nome do primeiro arco dessa fase: E de Extinção.

. Volume de Spoilers: nenhum.

Para quem não leu, Morrison trouxe uma abordagem radicalmente diferente nos roteiros, nos adversários, na formação da equipe, nos dilemas e em outros aspectos, incluindo ao menos um retcon polêmico: o Professor Charles Xavier teve secretamente uma irmã gêmea, também telepata e completamente maligna, chamada Cassandra Nova. Ela é a vilã da E de Extinção original.

Nesta nova história, os roteiristas, Chris Burnham e Dennis Culver, apresentam uma realidade alternativa criada a partir de um novo desfecho do duelo entre Xavier e Cassandra. Sem estragar a surpresa, a escolha dos autores é muito interessante, porque todos que leram a história original certamente se recordam desse momento e as possibilidades por ele geradas são inúmeras, pois afetariam amplamente o universo dos mutantes. Burnham é uma escolha curiosa da Marvel, porque ele é um dos grandes parceiros de Morrison nos últimos anos, mas em trabalhos na DC Comics e na função de desenhista, não roteirista (as capas desta revista são dele).

As quatro partes desta história trazem muitos dos “Novos X-Men” criados por Grant Morrison, como o Bico, as Irmãs Stepford, Quentin Quire e Xorn. O mais surpreendente, contudo, é observar como Burnham e Culver conseguem mimetizar o clima único daquelas HQs: personagens agindo com extrema frieza, traços e layouts esteticamente sujos, minimalistas, textos crus e ação brutal, com uma violência gráfica até então inédita nas revistas dos mutantes.

Contudo, vale lembrar que muitos fãs dos X-Men de Chris Claremont e de outros escritores torceram o nariz para essa visão “moderna” de Morrison. Por isso mesmo, a qualidade da nostalgia gerada nesta leitura varia bastante conforme a experiência de cada leitor com essa fase. Pessoalmente, gostei muito de alguns arcos e muito pouco de outros, mas avalio como positivo o saldo deixado por Morrison e seus colaboradores por ampliar o elenco e, principalmente, por diversificar o estilo de histórias dos X-Men.

Mas, voltando à este tie-in de Guerras Secretas, vamos acompanhar o embate entre Magneto e uma equipe de jovens X-Men contra os pupilos de Xavier, que no começo da história estavam dispersos e semi-aposentados. Gostei dos diálogos entre o vasto elenco, especialmente entre Ciclope e Wolverine, e do bad boy Quentin Quire. Há muitas reviravoltas e batalhas e destaco a chegada de um personagem (na última página da parte 2) que, confesso, não consegui compreender direito na época em que Morrison o apresentou. Aqui, finalmente, entendi suas motivações. Tal personagem foi uma das muitas pontas soltas daquele período que o autor deixou sem uma boa explicação.

A propósito, assim como os últimos arcos do escocês são repletos de pontos de interrogação, nesta nova história o epílogo também é enigmático – outra emulação da fase na qual se inspira.

Em termos de arte, os desenhos de Ramon Villalobos são um misto de dois dos principais artistas daquele período dos mutantes: Frank Quitely e Igor Kordey. Às vezes, reconhecemos mais de Quitely nos quadros clean, nas poses displicentes dos heróis, na própria distribuição de painéis da narrativa, e mais de Kordey nos layouts de alguns personagens, como na Angel, Rainha Branca e Xorn. As cores de Ian Herring completam bem esta caracterização extrema dos X-Men de Morrison.

Vale dizer ainda que E de Extinção não traz nenhum elemento significativo das Guerras Secretas. É totalmente independente, quase um “What If…” do primeiro arco dos X-Men de Morrison, e não um tie-in da megassaga. Se você curtiu esses anos radicalmente inovadores dos mutantes, provavelmente vai gostar muito desta edição. O roteiro é instigante, principalmente pelas constantes (re)descobertas de personagens e reviravoltas (quase sempre) plausíveis. Muita coisa acontece ao longo das quatro partes, mas o final misterioso e a falta de conexão com o Mundo Bélico não tornam esta revista verdadeiramente indispensável.

Nota 7,0.

Resenha de Guerras Secretas #5 – Panini Comics

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Depois da bombástica edição anterior, Jonathan Hickman aproveita a morte de um importante personagem para mover suas peças e, finalmente, explica como Destino conseguiu subjugar os Beyonders.

. Volume de Spoilers: leves.

Para isso, uma figura até então apenas vista de relance ganha inesperadamente os holofotes: o Homem-Molecular. Ele e Destino recebem o maior número de páginas deste capítulo, e é a partir do diálogo entre os dois poderosíssimos seres que o autor junta diversas pontas de suas histórias dos Vingadores e apresenta a origem definitiva do Homem-Molecular. Para este leitor que acompanha a Marvel há tanto tempo, a explicação é convincente e, de certa forma, dá até um alívio saber que ele tem uma função superior no “grande esquema das coisas”.

Além disso, a Fundação Futuro também tem um papel relevante, já que Valéria Richards assume o protagonismo em uma nova frente narrativa ao decidir investigar o assassinato da edição #4. Entre os membros da Fundação, há dois personagens introduzidos por Hickman na série SHIELD – Nostradamus e Tesla. A Marvel publicou uma primeira minissérie em 2009 mas a sequência, iniciada em 2011, até hoje está incompleta nos EUA (o desenhista, Dustin Weaver, já completou a arte e está na fase de colorização neste momento). Como SHIELD permanece inédita no Brasil, vale a observação sobre esses obscuros personagens.

Em uma edição inteira de diálogos, a dupla de artistas Esad Ribic e Ive Svorcina brilha menos. O destaque fica para o olhar do Homem-Molecular, um misto de loucura e astúcia, e as escolhas de cores dominantes para cada ambiente. Uma curiosidade: o prédio onde está o Departamento de Ciência, base da Fundação, é exatamente uma das estruturas presentes no Mundo Bélico das Guerras Secretas de 1984. Naquela história, era o quartel general do Magneto.

Com apenas uma breve menção visual a Thanos e aos heróis remanescentes, e o esclarecimento de praticamente todos os aspectos mais importantes dos fatos que permitiram a Destino virar Deus, este é um capítulo que pausa a narrativa e toma fôlego para o “começo do fim” desta grande saga Marvel.

Completa a edição da Panini uma história curta do Doutor Samson, de Scott Aukerman e do brasileiro RB Silva, e muitas capas variantes, onde destaco a de Pat Broderick, um desenhista com alguma relevância nos anos 80 e 90 – além de longas fases na Legião dos Super-Heróis e Nuclear na DC Comics, cuidou, na Marvel, do Capitão Mar-vell, Tropa Alfa e da revista solo do Doutor Destino no universo alternativo 2099.

Nota 8,0.

Resenha de Guerras Secretas O Comando Selvagem da Sra. Deadpool #1 – Panini Comics

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Este é um tie-in no mínimo bizarro. Além de ser um dos poucos não inspirados em outras sagas ou eventos do passado da editora, apresenta um team-up entre Shiklah, a esposa do Deadpool, e uma versão da Legião dos Monstros, batizada de Comando Selvagem. Sim, é verdade que a Marvel já havia utilizado esse conceito dos Howling Commandos (originalmente o nome da antiga equipe do Sargento Fury durante a II Guerra Mundial), em versões sobrenaturais, mas é curioso tudo isso junto e misturado, ainda mais com o Drácula como vilão, em uma história no Mundo Bélico das Guerras Secretas.

. Volume de Spoilers: perto do zero.

Não sou muito fã das HQs do Deadpool, mas adoro os Monstros da Marvel. Além disso, como o famoso Mercenário Tagarela aparece “apenas” como narrador, para mim ficou ainda mais interessante. Não me entendam mal, eu acho um ótimo personagem e costumo me divertir quando leio algo dele, mas priorizo outras revistas da pilha de leitura.

A história, escrita por Gerry Duggan, o roteirista regular do Deadpool, que segue em uma bem-sucedida fase há alguns anos, apresenta o Barão Drácula eliminando logo no começo o anti-herói (ei, não é um spoiler porque, afinal, ele aparece como fantasma na capa), e rapidamente acrescenta o Comando Selvagem, formado pelo Lobisomem, a Múmia Viva, o Monstro de Frankenstein, o Homem-Coisa e Marcus, o Minotauro com Simbionte (?!?). Esta introdução faz com que a revista vire uma espécie de “O que aconteceria se…”, já que muda o desfecho de uma história recente do Deadpool onde ele vencia o lorde dos vampiros.

Estamos falando, neste caso, da atual versão do Drácula desenvolvida pela Marvel há alguns anos, que é bem diferente daquela tradicional, Bram-Stokeriana que a Casa das Ideias tanto trabalhou nos anos 1970. Ele agora se parece mais com um supervilão convencional, sempre com exércitos à sua disposição. Ainda não consegui digerir essa versão, e talvez nunca o faça. Entendo a intenção da Marvel em se diferenciar do Drácula clássico, por razões de “transmidialização” e até mesmo direitos autorais, mas acho que não acertaram a mão.

Enfim, aqui ele é o “opressor” e Barão da Metrópole dos Monstros. O Comando é sua tropa de elite, e precisam guiar Shiklah até o Inferno para cumprir uma missão. Liderados pelo Lobisomem, os Monstros também tem sua própria agenda. Apesar do cenário sobrenatural, o roteirista nos lembra que estamos nas Guerras Secretas e logo acrescenta elementos de conexão, incluindo um hilário Mano-Thor, baseado no Luke Cage da época da Blaxploitation. Há, como não poderia deixar de ser, violência e sangue, muitas piadas, situações esdrúxulas e alguns diálogos inspirados ao longo das quatro partes da história.

A arte é de Salva Espin, um desenhista competente, embora aqui sem brilhar, e as cores de Val Staples. No geral, fazem um bom trabalho, com alguns deslizes – personagens variando muito de aparência entre uma página e outra, por exemplo – e alguns destaques, como nas cenas de violência explícita e, novamente, no Thor-Luke Cage. O estilo de Espin é adequado para o clima “terrir” da revista.

Achei o final inesperado e insólito. Se, por um lado, essa é uma opção válida para este tipo de história, por outro deixa a revista com um ar mais descartável. Enquanto durou, me diverti com a leitura, sobretudo por conta do Comando Selvagem (e seu membro invisível!), mas acho uma das interligações menos recomendáveis até o momento, exatamente por esse caráter de “tiração de sarro com geral”. Claro, os fãs do Deadpool vão encontrar elementos familiares às suas HQs, mas mesmo nesse caso não é uma das suas histórias mais memoráveis, embora, repito, seja sim divertidamente descompromissada.

A revista da Panini encerra com uma inusitada historieta do Deadpool no Velho Oeste (há um domínio no Mundo Bélico assim…), cavalgando o Dentinho (?!?), e conhecendo o Dinossauro Demônio e o Menino da Lua (?!?!?!), da dupla Ryan Ferrier e Logan Faerber.

Nota: 6,0.

Resenha de Guerras Secretas Esquadrão Sinistro #1 – Panini Comics

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De todas as revistas interligadas à megasaga Guerras Secretas, esta Esquadrão Sinistro é, sem dúvida, a mais inesperadamente impactante até o momento. Com ótimo roteiro, personagens bem construídos e lindamente desenhada, esta é uma HQ que serve ao propósito das Guerras, mas também tem vida própria, com um começo, meio e fim muito bem delineados, o que permite lê-la sem a preocupação de acompanhar a saga, muito menos saber previamente quem são os cinco super lunáticos que compõem esta versão do Esquadrão. Mas, vale a pena conhecê-los!

. Volume de Spoilers: Moderado, sem revelações definitivas.

O Esquadrão Sinistro foi criado em 1969, após uma tentativa fracassada conduzida por um grupo de editores que queriam promover o primeiro encontro de personagens Marvel e DC da história: um duelo entre os Vingadores e a Liga da Justiça. Como tal encontro não recebeu autorização das diretorias, o então escritor dos Vingadores, Roy Thomas, decidiu criar sua própria versão da Liga, mas transformados em vilões, para enfrentar os heróis da Marvel. Assim foram concebidos Hypérion (versão Marvel do Superman), Falcão Noturno (versão do Batman), Doutor Espectro (Lanterna Verde) e Tufão (Flash).

Após essa primeira aparição, a equipe ressurgiu várias vezes ao longo das décadas seguintes, a maioria em realidades alternativas, incorporando membros (outras versões da Liga, como a Princesa do Poder/Mulher-Maravilha) e protagonizando suas próprias aventuras, a maioria delas em sua versão heroica, com o nome de Esquadrão Supremo. A ótima interpretação desse Esquadrão na linha adulta Max dos anos 2000 é uma das mais notórias, principalmente pelo clima sombrio e pessimista.

Nossa história começa, curiosamente (ou não!) com os vilanescos protagonistas, que residem no Baronato de Utópolis, enfrentando esse Esquadrão Supremo Max. O líder dos Sinistros, o Barão Hypérion, está em uma campanha agressiva de anexação de províncias vizinhas – cada uma com sua própria equipe de superseres, com o intuito de ampliar sua influência e poder. Impiedosos, cruéis, extremamente eficientes e com um invejável trabalho de equipe, o grupo de supervilões parece imbatível e avança rapidamente sobre outros territórios. Porém, um crime sem precedentes acontece em Utópolis e a paranoia se instala em (quase) todos os Sinistros.

O autor, o veterano Mark Guggenheim, aproveita essa situação para resgatar do limbo vários personagens de realidades alternativas, em especial alguns do Novo Universo Marvel (criado em 1986). Como os heróis de uma região vizinha, Estigma, Mark Hazzard, Spitfire e Jack Magniconte estão cientes que o Esquadrão em breve irá avançar sobre sua província, traçam um plano para contê-los. Ao mesmo tempo, outra equipe de supervilões, o Quarteto Terrível, também decide avançar sobre outros territórios, atrapalhando os planos do Esquadrão.

Porém, não são os adversários externos que tornam esta revista verdadeiramente interessante, e sim a rivalidade entre os cinco Sinistros que, exatamente por serem criminosos e assassinos, não confiam uns nos outros. O autor habilidosamente cria situações e diálogos que deixam o leitor ciente das personalidades de todo o elenco: Falcão Noturno é o menos poderoso, mas sem dúvida alguma é o mais inteligente e ardiloso; a Princesa do Poder se relaciona com Hypérion por interesse e tem sua própria agenda; Tufão é um tremendo puxa-saco e covarde; Doutor Espectro é potencialmente o mais poderoso, mas limitado pela sua falta de imaginação; Hypérion é arrogante, presunçoso e acredita que pode resolver tudo no braço.

A história fica mais interessante a cada capítulo, os diálogos são enxutos e precisos; a ação, violenta e empolgante. O espanhol Carlos Pacheco mais uma vez realiza um trabalho primoroso, tanto na narrativa, como nos layouts de todos os personagens, objetos e cenários. Com uma segurança típica dos mestres, mantém a qualidade em toda a série, seja nas splash pages, nas batalhas, ou nas expressões de raiva, surpresa e dor, conforme as reviravoltas e traições sucedem-se na trama. Acredito que o arte-finalista Mariano Taibo foi uma ótima escolha para o lápis de Pacheco, e certamente deveriam trabalhar juntos outras vezes. Frank Martin nas cores fecha esta equipe artística de primeira linha.

E, por falar em primeira linha, reparem na incrível sequência de duas páginas no terceiro capítulo em que Hypérion elimina mais uma equipe de adversários. O nome desse grupo é exatamente Linha de Frente (First Line, no original – para saber mais clique aqui) e, por ser inédita no Brasil, passou despercebida pela maioria dos leitores (e resenhistas). Criada por John Byrne e Roger Stern na série Marvel: The Lost Generation (em 2000), trata-se de um enorme conjunto de heróis e heroínas que atuaram brevemente antes do Quarteto Fantástico, dos X-Men ou dos Vingadores, e foram esquecidos pela maior parte da humanidade. É uma história bem interessante, com alguns personagens de grande potencial. Todavia, parecia esquecida pela própria Marvel. Guggenheim até brinca com o fato, no balão do Hypérion: “Volte pra terra perdida Rouxinol (ou) sua geração estará perdida de verdade”. Há outros easter eggs na revista, incluindo um óbvio de O Cavaleiro das Trevas.

Com uma equipe criativa em ótima sintonia, personagens interessantes e um roteiro muito bem construído, Guerras Secretas Esquadrão Sinistro é altamente recomendável, inclusive para aqueles que querem ler uma aventura diferente, focada em vilões impiedosos, que obviamente “lembram muito” os maiores ícones da Distinta Concorrência. Uma história curta fecha a edição da Panini, protagonizada por outro vilão, o Maestro, que tenta conter um ataque do Surfista Prateado. Aqui, a Marvel finalmente corrige uma situação no mínimo “forçada” criada lá atrás, em 1992, na primeira aparição do Maestro.

Nota 9,0.

Resenha de Guerras Secretas Guardiões da Galáxia #2 – Panini Comics

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Infinity Gauntlet é uma das mais conhecidas e queridas sagas da Marvel. Criada por Jim Starlim como uma minissérie em 1991, foi a história que tornou sua criação, Thanos, no mais temido vilão da Casa das Ideias. Batizada no Brasil como Desafio Infinito pela Editora Abril, era inevitável que essa série também ganhasse uma versão para as Guerras Secretas modernas.

. Volume de Spoilers: Poucos, só o mínimo para contextualizar.

A Panini optou por encaixar esta releitura como uma aventura dos Guardiões da Galáxia, o que até faz algum sentido, mas é uma HQ focada em Novas, que enfrentam o Enxame de Insetos da Onda de Aniquilação em um fragmento de Xandar incrustada no gigantesco Mundo Bélico.

Embora não tenha nada do escopo “megalomaníaco” da história original, a revista consegue entreter ao apresentar um conjunto de novos e carismáticos personagens, ao mesmo tempo em que reúne, sem esforço e de forma bastante natural, outras criações cósmicas da Marvel, algumas criadas ou popularizadas também por Starlim, como Drax, Gamora e Warlock que, com o tempo, ficaram inexoravelmente associadas a Thanos.

Apesar de tantos personagens, a dupla de autores e co-roteiristas, Gerry Duggan e Dustin Weaver, consegue ainda encaixar uma equipe dos Guardiões da Galáxia como coadjuvantes sem pesar a mão e transformar a premissa catastrofista do Desafio Infinito original em uma aventura familiar, com um quê de pulp fiction, em uma história leve, com muitos perigos e batalhas, tudo com a bela arte de Weaver, que aqui fez o lápis, a arte-final e as cores.

Conheci o trabalho de Dustin Weaver na incrível série SHIELD de Jonathan Hickman, de 2009-2011 (e ainda incompleta). De lá para cá ambos tiveram muitos trabalhos na Marvel, mas enquanto o argumentista tornou-se respeitadíssimo, um ídolo entre os fãs da Casa das Ideias, criador dos Guerreiros Secretos, da Fundação Futuro, da melhor fase do Quarteto Fantástico na última década, condutor dos principais títulos dos Vingadores no auge de sua popularidade e arquiteto do maior evento desde Guerra Civil, Weaver parece ter estacionado em um meio-termo, com passagens competentes, mas pouco marcantes, também em Vingadores e como um prolífico capista.

Dedicou-se a trabalhos autorais em editoras independentes nos últimos anos e agora ressurge na casa que o projetou, também como co-argumentista, e surpreende. Não somente na arte, com uniformes criativos e que resgatam temas clássicos, com monstros e cenários espetaculares, mas também na história, que é conduzida por duas mulheres, mãe e filha, ambas Novas, uma veterana e outra amadora, igualmente heroínas na mais pura concepção da palavra. É interessante traçar um paralelo com os atuais Novas da realidade principal, que são… um pai e um filho! Destemidas e inteligentes, elas conduzem sua família por uma metrópole devastada pela Onda de Aniquilação em busca das Jóias do Infinito.

Thanos, claro, tem o mesmo objetivo, mas precisa enfrentar secretamente um adversário inusitado no meio do caminho. Já Warlock é apresentado com um Messias ensandecido e líder de um grupo de guerreiros chamados Cavaleiros de Xandar – que pode ser uma referência dos autores ao obscuro supergrupo dos anos 1970 conhecido como Campeões de Xandar, aliados do Nova original, Richard Rider.

Drax também aparece em sua persona original de “vingador cósmico”, muito diferente da atual representação (a mesma do filme) e da anterior (a cômica). Gamora, Senhor das Estrelas e Groot, os Guardiões que sustentam o título da Panini, tem uma participação pequena, mas com personalidades similares à do cinema também.

Soube que muita gente esperava que este Desafio Infinito trouxesse uma batalha épica entre dúzias de personagens contra um Thanos onipotente, ou seja, a mesma trama básica da série original – o que, convenhamos, não teria a menor graça e não faria o menor sentido, seja pela falta de originalidade, seja no contexto das Guerras Secretas, onde Deus Destino é o verdadeiro e único Ser Supremo.

A opção dos autores e da Marvel por uma trama completamente diferente, muito mais intimista, que apresenta novos personagens interagindo com uma galeria de velhos conhecidos, com um final bem construído e quase poético, foi uma decisão muito mais acertada. Destino é a verdadeira estrela de Guerras Secretas, mas esta família de Novas e sua jornada heroica em Desafio Infinito é tão marcante que, honestamente, deixa uma enorme vontade de ler mais histórias com eles.

Nota: 8,0