Leituras para a Quarentena #02: Verões Felizes

Capa do primeiro volume

Olá pessoal, espero que todos estejam bem!

Vamos à nossa segunda indicação da série Leituras para a Quarentena e já esclareço que Verões Felizes não só merece entrar nesta como em qualquer lista de “obras mais bacanas dos quadrinhos”!

Só lembrando – caso você não tenha visto o post anterior – , as leituras aqui sugeridas em geral vão ter um caráter mais leve, mais positivista, para quem sabe alimentar nossa necessária esperança em dias melhores. E esta aqui, em especial, é uma obra que pode ser indicada para qualquer ser humano que queira se sentir bem!

É, inclusive, uma pedida muito interessante para aqueles que não gostam de histórias em quadrinhos.

Verões Felizes 1: Rumo Ao Sul é uma Graphic Novel curta, com apenas 64 páginas, lançada originalmente no mercado Franco-Belga em 2015 e que fez tanto sucesso que já gerou quatro sequências, tão deliciosas quanto a primeira.

Esta série da mega editora parisiense Dargaud, escrita pelo prolífico belga Zidrou, desenhada pelo espanhol Jordi Lafebre e com ótimas cores dele mesmo e de Mado Peña, não contém ação, terror, suspense, reviravoltas; não há um único tiro, nem cenas chocantes – e é exatamente aí que reside sua originalidade e frescor.

Verões Felizes retrata o cotidiano de uma família classe média belga em seus momentos de férias de verão, quando costumam se dirigir ao sul da Europa, em busca de calor e do mar. No caminho, há sim uma leve dose de aventura, mas totalmente “pé no chão”, com uma mistura de humor e drama, onde conheceremos os sonhos e as frustrações dos personagens – ou seja, exatamente como na maioria das famílias do mundo – ou pelo menos entre aquelas de estilo de vida ocidentalizado, talvez?

Vejamos: Pedro, o pai, é um espanhol que vive na Bélgica e desenha histórias em quadrinhos, produzindo arduamente para outros mas que também tem criações autorais, embora sem nenhum sucesso. Sua esposa, Madô, é vendedora infeliz em uma loja de sapatos. Louis, o único garoto, é um leitor compulsivo de quadrinhos do Lucky Luke e conversa com um amigo imaginário. As duas irmãs mais velhas, Nicole e Julie, vivem discutindo por qualquer coisinha, mas adoram batatas fritas com maionese, enquanto a caçulinha e fofa Paulette está ainda aprendendo as palavras e, principalmente por isso, é responsável por algumas das cenas mais despretensiosamente engraçadas.

Louis é um ávido leitor de quadrinhos

Com texto ágil e desenhos bem bonitos, é uma leitura rápida, prazerosa e que suscita doces memórias.

Aliás, esse é um ponto importante.

Como disse, acho que todos os públicos podem curtir mas, imagino que, quanto mais velho o leitor, mais poderá apreciar a obra, simplesmente porque terá um maior volume de emoções despertadas.

Isso porque a HQ é pura nostalgia.

Como a abordagem de Zidrou remete a uma forma de passar o verão em família, o quadrinho traz basicamente dois pontos de vista: do casal e das crianças. Assim, se você já for um pai ou uma mãe, portanto, vai conseguir resgatar suas memórias da infância e, ao mesmo tempo, poderá se identificar também com a visão das férias dos adultos.

Os passeios da família Faldérault são por cenários da Europa Ocidental e Mediterrânea – claro, um pouco diferentes dos nossos – , mas o “espírito” é o mesmo: se lá eles curtem banhos em rios, piqueniques na beira de lagos ou no quintal de alguém, além de paradas em campings estratégicos, seria o equivalente (ao menos para muita gente aqui do estado de São Paulo) aos passeios pelo litoral ou aquela temporada na chácara ou no sítio de um tio ou avô no interior.

O casal rememora suas férias em família

Como estou na casa dos 40 anos, casado e com filhos, “me projetei” muitas vezes no entusiasmo das crianças, em geral alheias aos problemas dos adultos.

Meus verões da infância foram particularmente marcados pelos dias e noites quentes de Caraguatatuba, com primos, avós, tios e muito sorvete, banho de mar, castelos na areia, idas ao parque de diversões e passeios no calçadão. Ler Verões Felizes é mesmo uma deliciosa viagem ao melhor do passado.

Interessante que a HQ parte de um argumento simples, mas sua realização não tem nada de simplória: o cotidiano é retratado de maneira bela, delicada. O roteiro e a arte trazem cuidados sutis na construção das personalidades de cada membro da família, com destaque para a difícil tarefa de distinguir, de tornar única, cada uma das crianças.

Zidrou foi professor e certamente sua experiência prévia o ajudou nisso. A propósito, o roteirista hoje vive exclusivamente de seus textos para quadrinhos, tendo acumulado uma vasta produção exatamente para crianças e adolescentes e, só mais recentemente, álbuns também para adultos. Esse histórico me instigou a procurar outros trabalhos do belga.

E os desenhos? Impossível pensar em outro artista para retratar esta simpática família. Jordi é um espanhol que também teve experiência com literatura infantil e é professor de arte. Capaz de muita leveza e com uma narrativa fluida, seu ponto forte, sem dúvida, é a expressividade que consegue imprimir em todos os personagens e, certamente, a capacidade de fazê-los “gente como a gente”.

A expressividade dos personagens é um dos pontos fortes do traço de Jordi

Verões Felizes é publicado pela SESI-SP Editora, com tradução de Fernando Paz, e  no Brasil foram lançados os três primeiros Álbuns:

1. Rumo ao Sul é sobre o Verão de 1973.
2. A Calanque, sobre o Verão de 1969.
3. A Senhorita Estérel, sobre o Verão de 1962.

Cada álbum pode ser lido de maneira independente mas, na medida do possível, sugiro pegar a primeira edição. Por não ser capa dura e ter várias reimpressões é fácil encontrar com bons descontos nas livrarias virtuais. Prefiro comprar meus quadrinhos e livros no mundo real mas, como estamos em quarentena, essa é a única opção no momento.

Se puderem, procurem livrarias e comic shops independentes. É legal dar uma força para os pequenos, ainda mais agora!

Leituras para a Quarentena #01: Bone.

Olá pessoal, espero que todos estejam bem!

Conforme prometido, vamos começar uma série de indicações de Histórias em Quadrinhos especialmente pensadas para quem está com um tempinho a mais sobrando, por conta da quarentena imposta por esta terrível crise sanitária mundial.

A célebre “corrida de vacas” é o destaque da capa do Box da edição brasileira.

Estamos atravessando um período conturbado, tenso, atípico e, talvez mais angustiante, um momento em que ainda não é possível prever até quando irá durar e que, inegavelmente, trará mudanças irreversíveis em diversas áreas das nossas vidas, inclusive transformações comportamentais e de convivência no trabalho, na escola, com a saúde, com o tempo, com o consumo, etc.

Claro que muitos precisam sair para trabalhar, e alguns estão trabalhando mais do que nunca – e não estou me referindo apenas aos profissionais de saúde ou de outras áreas essenciais, como segurança, energia, internet – porque mesmo para quem está em Home-Office, o volume de atividades pode ser intenso, restringindo o tempo para leitura e outras formas de lazer e entretenimento.

Por conta de tudo isso, acho mais recomendável indicar leituras com um caráter otimista – ou melhor, mais para o leve e menos para o angustiante -, e que em geral traga uma perspectiva de esperança em dias melhores que, temos certeza, virão!

Bone, de Jeff Smith, é uma obra que transborda esperança e ainda traz muitas doses de aventura e comédia, embaladas em uma fantasia medieval, claramente inspirada em Senhor dos Anéis, mas com personagens muito carismáticos, únicos, que vão fazer o leitor sentir saudades depois de concluída porque sim – ela tem um começo, meio e fim definitivos. Não haverá Parte 2 ou continuação. É, vejam só, uma obra finita! – coisa rara na Cultura Pop.

Uma das terríveis Ratazanas carnívoras

Jeff Smith publicou sua bela obra-prima de maneira esparsa nos anos 90 e só conseguiu concluir no começo da década de 2000 – exatamente na contramão do que mais se consumia na época, ao menos no mercado norte-americano.

Enquanto os super-heróis vendiam milhões de exemplares em um mercado crescentemente especulativo, com suas múltiplas edições #01 e capas metálicas, com cópias abundantes e sem graça do Wolverine, Justiceiro e X-Men na Image e outras editoras nascentes, e as próprias Marvel e DC transformavam seus ícones em versões extremas; com a “morte” do Superman; a “coluna partida” do Batman e com os “clones” do Homem-Aranha; e HQs “adultas” repletas de sangue e de subversões do lado alternativo, Bone surgiu como um audacioso ponto de luz, uma “peça de resistência” à todo esse cenário, com uma nova e autêntica abordagem, a partir de personagens inéditos “fofinhos”, que conversam com animais (?!), publicado de forma independente, em preto e branco e papel barato, tudo bancado pelo próprio autor e sua esposa.

Mas eis que o título, que saía de forma irregular, com baixa tiragem, distribuída em um restrito circuito de Comic Shops e pequenos eventos, aos poucos foi chamando a atenção dos leitores, da crítica especializada e não tardou para cair nas graças de quadrinistas famosos, que passaram a recomendar e a elogiar a obra e seu criador, Jeff Smith. Não custa contextualizar: isso tudo foi antes da internet, de smartphones e redes wi-fi.

E então vieram as premiações, que se acumularam ao longo de toda a sua publicação: venceu 11 prêmios Harvey (!) e 10 Eisner (!!). Editado em 25 países, vendeu milhões de unidades e ainda foi indicado pela revista Time como um dos 10 melhores quadrinhos de todos os tempos!

O Dragão Vermelho, Fone Bone e a adorável Espinho

Nada mal para um quadrinho independente de bichos falantes, mas é perfeitamente compreensível entender o porquê do seu sucesso quando o leitor encara a bela versão brasileira da Editora Todavia, que compila a obra completa (pela primeira vez no Brasil) em 3 volumes, com tradução de Érico Assis. Eu peguei na versão Box, completinha, em uma boa promoção uns meses atrás.

Não vamos entrar em detalhes, mas “Bone” na verdade refere-se ao trio de protagonistas, os primos Fone, Phoney e Smiley, pertencentes a uma espécie curiosa de seres, ou talvez seja uma raça de pequenos humanos (não é explicitado isso em nenhum momento e, de fato, é parte do charme da aventura), desenhados em forma de Cartum, com as características de personagens da Disney ou da Turma da Mônica, ou até de tiras de jornal mais simples do começo do Século XX, com traços nem um pouco sofisticados, mas que por isso mesmo trazem uma autenticidade e um frescor ao quadrinho.

Interessante também acompanhar a evolução técnica de Smith, que nos primeiros números ainda se esforçava com a narrativa, às vezes truncada, e com um roteiro meio vago, com enxames de gafanhotos aleatórios, animais falantes, ratazanas gigantes abobadas e uma vovozinha e sua neta vivendo isoladas no meio de uma floresta.

Não deixe esse começo meio morno afastá-lo dos capítulos seguintes, ó fiel leitor! Aos poucos, a história ganha dramaticidade, inúmeros personagens surgem, quase sempre muito bem delineados, e quando o roteiro aponta uma jornada épica, aí sim, fica difícil deixar de concluir a leitura.

Nas páginas internas percebemos a influência do mestre Barks

Não é uma HQ sem falhas. Mesmo lá na parte final, algumas páginas parecem redundantes, as ameaças, às vezes repetidas, mas logo surge um diálogo esperto, um feito impressionante ou uma situação engraçada que faz com que a gente releve essas pequenas inconsistências.

Bone é indicado para qualquer faixa etária e pode sim ser uma porta de entrada para aqueles que abandonaram quadrinhos na infância e gostariam de retornar, mas não se empolgam com os intrincados universos de super-heróis, ou procuram algo menos pretensioso ou denso como os trabalhos de Alan Moore ou Grant Morrison. Certamente é uma boa pedida para fãs de RPGs, de Tolkien, imperdível para quem adora as aventuras dos Patos de Carl Barks (talvez a maior referência estética e no storytelling de Jeff Smith) ou de uma aventura leve sim, mas encantadora.

De todos os quadrinhos que li recentemente, Bone vira e mexe volta à minha lembrança, e um sorriso automaticamente aparece. Vale a pena embarcar na saga aparentemente inexistente (a julgar pelas capas rsrs) mas completamente viciante que os simpáticos e encrenqueiros Bones e sua imensa trupe de amigos e inimigos humanos, animais de todos os tamanhos, dragões e outros seres mágicos trazem nestas mais de 1.300 páginas de histórias em quadrinhos.

Feira de HQs no Liceu Pasteur em São Paulo

É com grande satisfação que o Blog Lendo Quadrinhos convida a todos os apaixonados pela nova arte para uma nova edição da Feira de HQs no Liceu Pasteur, na Vila Mariana, em São Paulo, neste sábado, 28.09.2019.

Será um encontro de colecionadores, quadrinistas e editoras no pátio do colégio, para um agradável bate papo, exposição e venda de revistas em quadrinhos novas e usadas, prints, ilustrações e muito mais.

Participe: das 9h às 12h – Evento Gratuito!

Quadrinistas Confirmados, autografando suas obras:
. Felipe Folgosi
. Alexandre Jubran
. Régis Rocha (Afrodinamic)
. Julius Ckvalheiyro
. Fabrício Grellet

– E ainda:
. Alexandre Morgado, um dos maiores colecionadores de HQs do Brasil e autor do livro “Marvel Comics: a Trajetória da Casa das Ideias no Brasil” expondo e vendendo parte de seu acervo!
. Workshop de Desenho de HQs (às 10h).
. Palestra: Processo Criativo na Produção de uma HQ, com Fabrício Grellet – Criador, Roteirista e Editor, autor de “Jacques Demolay, o Mártir Templário” e dezenas de quadrinhos para Disney, Image e outras editoras estrangeiras (às 11h).

Endereço: Liceu Pasteur Unidade Mayrink.
Rua Mairinque, 256, Vila Mariana, São Paulo (entrada pelo portão da Diogo de Faria). Esperamos vocês por lá!

A Nova Heavy Metal Brasileira

Sláine é a estrela da capa da nova versão da Heavy Metal BR

A editora Mythos lançou, agora em agosto de 2018, a primeira edição da nova versão brasileira da célebre revista Heavy Metal. Estão programadas outras 4, compondo assim uma “1ª Temporada”. Todas as histórias contidas nesta #1 são da Britânica 2.000 A.D., uma publicação longeva que, desde os anos 1970, apresenta um mix de personagens criados por diversos quadrinistas. O Juiz Dredd, por exemplo, foi primeiramente lançado na 2.000 A.D. Segue nossa resenha para as 4 histórias selecionadas para este lançamento:

Guerreiros ABC: As Guerras Volganas – Parte 1 (28 pgs)

Pat Mills, o criador de Juiz Dredd, é também o responsável pelos robóticos Guerreiros ABC, cuja primeira HQ foi publicada em 1977 (!). Pelo que pesquisei, esta é a primeira aparição desses intrigantes personagens no Brasil, essencialmente um time de robôs guerreiros dotados de uma poderosa IA.

A Mythos optou para a estréia um arco chamado Guerras Volganas, de 2007, ilustrado por Clint Langley, que trabalha essencialmente com arte digital.
Meu primeiro contato com seus trabalhos foram com as impactantes capas da revista dos Guardiões da Galáxia da fase de Dan Abnett e Andy Lanning, também dos anos 2.000 (vale a pena procurar, bela fase!).

A história – situada em um futuro distante – começa com os Guerreiros em Marte, entregando um dos seus membros para uma instituição psiquiátrica (?!), quando passam a divagar sobre seus tempos nas violentas Guerras Volganas, ocorridas séculos antes.

O foco nesta Parte 1 é no relato de Hammerstein, aparentemente o líder do grupo, que foi um Sargento e o modelo-base de outras 50.000 unidades iguais fabricadas para as Guerras.

Mills estabelece que os primeiros robôs soldados foram desenvolvidos pela URSS no final do século XXI (neste mundo a Guerra Fria continuou por várias décadas), para defesa de seu petróleo dos invasores capitalistas norte-americanos. É um conceito interessante e, dada à imensa quantidade de material já criado, parece que a escolha dos editores da Mythos é bem adequada, não só porque a história apresenta uma arte “comercialmente impactante”, mas como também resgata um momento-chave da cronologia dos personagens que explica muito desta distópica realidade.

Arte interna da história, uma das muitas splash pages de Langley

Quanto aos desenhos, confesso que não sou entusiasta da arte digital nos quadrinhos, salvo em capas ou pôsteres. Contudo, aqui combina muito com a ambientação fria, suja, repleta de aço e titânio, forjas e entulho presentes nas páginas dos Guerreiros, além, claro, de uma associação imediata com a própria marca da revista, embora saibamos que Heavy Metal tenha outras conotações também.

Langley cria várias splash pages, inclusive de páginas duplas, que trazem um forte impacto visual, mas a narrativa em si tem alguns problemas.

Os diversos membros dos Guerreiros possuem personalidades e habilidades distintas, mas por enquanto só dá para termos um vislumbre disso.

Diferente, muito original, bem escrito e ilustrado, gostei deste primeiro contato com os Guerreiros ABC, inclusive do vilão, Volkhan, o líder dos Volganos, cuja foice e martelo ameaçadores e um feroz discurso anti-capitalista traz um charme extra à esta HQ, ainda mais lendo nesta era pós-Guerra Fria, onde a Rússia compete com os USA nos grandes mercados globais!
Nota: 8,0.

Sláine: O Batedor do Gongo (32 pgs)

Outra criação do prolífico inglês Pat Mills, Sláine também apareceu pela primeira vez em uma edição da 2.000 AD, em 1983, sendo esta história de estréia na Heavy Metal criada em 2009 e desenhada pelo mesmo Clint Langley de Guerreiros ABC.

Não conheço nada do universo de Sláine, que remete, sem dúvida, às HQs do Conan, mas ambientadas em supostos reinos Celtas mágicos e, claro, muito violentos e repletos de entidades malignas, guerreiros com armaduras encantadas, monstros e anões, povos indefesos e mulheres atraentes.

Neste momento, o poderoso guerreiro encontra-se em luto pela sua esposa e vaga por Albion Leste, onde se depara com uma enorme torre em reformas, antiga morada de certos Cyths Supremos, seres demoníacos celestiais que outrora dominavam aquelas paragens.

A história em si é simples, e gostei menos do que a anterior. Aqui os problemas de narrativa gráfica de Langley aparecem mais acentuados. As batalhas são confusas, tanto pelas escolhas de quadros como pelo excesso de pretos na arte digital suja, carregada, ora cheia de detalhes e ora nada mais do que borrões, sendo especialmente difícil de entender o duelo principal.

Langley carrega nos tons escuros em outra história com muito metal… mas esta é de Fantasia

Além de utilizar os clichês de fantasia, Pat Mills acrescenta personagens humanos bem estereotipados, e a ameaça, quando surge, é neutralizada rapidamente em uma sequência de splash pages visualmente impactantes, mas emocionalmente nulas.

Contudo, imagino que fãs deste tipo de arte vão adorar – que remete a um certo imaginário do Heavy Metal (digo, do estilo musical), de Tatoos, de videogames pretensamente hiper-realistas, e coisas do tipo. Mas, a história em si é bem esquecível.

Aqui no Brasil esse personagem tem raríssimas aparições (a última pela própria Mythos) mas, ao contrário da HQ anterior, não achei O Batedor do Gongo a porta de entrada mais fácil para criar empatia com o guerreiro. Vamos acompanhar para ver se melhora.
Nota: 6,5.

O Mundos dos Labirintos – O Enforcado (25 pgs)

Alan Grant é um escritor escocês que teve uma excelente fase à frente do Batman nos anos 1990. Na Grã Bretanha, contudo, é mais conhecido por ter escrito diversas aventuras de Judge Dredd, entre outros personagens localmente populares.

Grant escreveu o primeiro capítulo de O Mundo dos Labirintos Mazeworld no original – quatro anos antes da efetiva publicação na 2.000 A.D. Magazine.

Na ocasião, apesar da fantástica premissa, ele não sabia como continuar o desenvolvimento da trama – seus editores o ajudaram. É exatamente essa estreia que temos aqui, com a arte detalhista de Arthur Ranson, que retrata o nosso “mundo real” com muita foto-referência, mas quando embarcamos no fabuloso Mazeworld, ele assume um estilo clássico, daqueles de Hal Foster, com um quê de Barry Windsor-Smith, o que por vezes lembra quadros renascentistas, tamanho o nível de detalhe que o artista emprega na construção dos personagens e suas expressões.

Ranson apresenta uma narrativa segura, sem grandes inovações, entrecortada com splash pages em geral de labirintos psicodélicos.

Das 4 histórias selecionadas pela curadoria da Mythos, esta é a que gostei mais. Um condenado à forca é misteriosamente transportado pelo tempo e espaço (ou será que não?) ao tal Mundo dos Labirintos, onde é confundido (ou é verdade?) com O Encapuzado, um mítico herói que libertaria o povo da opressão de uma raça conquistadora.

Sim, é outra temática bizarra, mas condizente com a “marca” Heavy Metal e tem um ótimo desenvolvimento para um capítulo inicial. A propósito, esta é uma vantagem desta série em relação às duas anteriores: aqui é onde realmente esta história começa! No mais, o roteiro é fluido, com diálogos muito bem escritos e personagens intrigantes.

Splash de Página Dupla com uma visão aérea do fantástico Mundo dos Labirintos

O Mundo dos Labirintos é uma HQ que se encerrou há muito tempo: na Inglaterra a dupla de autores desenvolveu 3 arcos, publicados entre 1996 e 1999.

Vamos torcer para que a nova Heavy Metal venda bem para termos acesso a esse conjunto promissor de histórias criativas, instigantes e belissimamente ilustradas.
Nota: 8,5.

Contos de Telguuth – Um Pouco de Conhecimento (8 pgs)

História curta e extremamente impactante, com um desenvolvimento perfeito entre texto e arte, onde acompanhamos o mago Pel Morgath em busca de (mais) poder.

Foram publicadas 25 Contos de Telguuth até a morte de Steve Moore, o criador da série, em 2014. Moore é um venerado escritor inglês, que nos presenteia com uma história de terror com arte a óleo de Greg Staples, com espaço para um plot twist inesquecível. De certa forma, há uma “lição de moral” como nas Fábulas gregas e medievais, mas esta definitivamente não é para menores.

Um autêntico conto de terror no universo de Telguuth

O autor é considerado um dos mentores intelectuais de Alan Moore que, apesar do sobrenome e do país de origem comuns, não têm parentesco algum entre si.

Para esta série não haverá um único desenhista, mas certamente serão todos no mínimo competentes, o que pode propiciar a entrega de um belo conjunto de fábulas de terror.
Nota: 8,5.

Balanço Final:
No geral, a nova Heavy Metal Brasileira começa bem e, apesar do título mais conhecido ter decepcionado, apresenta um conjunto potencialmente interessante para muitas histórias de qualidade, com roteiristas e artistas de grande qualidade.

Nota final da Edição #1: 7,9.

As Loucas Aventuras de Madman

Capa da edição brasileira do primeiro encadernado

Esta HQ entrava e saia da minha pilha de leitura. Uns anos atrás comecei a lê-la mas, por alguma razão, parei e só retomei nestes dias, quando parti do zero novamente.

Mike Allred criou Madman em 1990, e suas primeiras 5 HQs da série Madman Comics, originalmente publicadas pela Dark Horse, estão reunidas neste “Volume 1” da Pixel Media, de 2006.

Sou fã do Allred, então posso parecer suspeito, porque de fato esta não é uma obra para quem não curte o traço dele, muito peculiar e distante do estilo clássico ou realista, mas também diferente de um cartoon ou do mangá. É um estilo único, que pouco mudou nos últimos 30 anos. Não é um trabalho genial nem espetacular. Tem falhas, inclusive, mas vale a pena se deixar levar pelas loucas aventuras do herói Madman, que é, acima de tudo, uma pessoa generosa, com um coração puro, que não consegue deixar de ajudar os outros, enfim um sujeito realmente do bem.

Madman vive na imaginária Snap City e é o alter ego de Frank Einstein, cuja experiência de morte e ressurreição lhe proporcionou um conjunto de poderes atléticos e psiônicos que, apesar de pouco exuberantes, permitem que se vire bem em situações perigosas.

Há muitas coisas para se gostar do universo colorido deste personagem. Além do caráter abnegado de nosso herói, é bacana observar que, mesmo sem lembranças de seu passado, ele não fica se martirizando em uma espiral de tristeza sem fim – ou seja, não “fica de mimimi” – e trata de viver e curtir o presente da melhor forma possível.

Outra situação interessante: o uniforme branco com o raio vermelho é uma cópia do super-herói favorito de Frank, Mr. Excitement. Além disso, há um vasto e incrível elenco de apoio, passando por um par de cientistas loucos do bem, androides que se replicam, alienígenas bizarros e uma gangue de Beatniks. Todavia, o melhor é a amável presença de Joe, a namorada de Madman que, mesmo sem poderes, é muito esperta e corajosa e faz tudo ganhar alegria e vida.

O ritmo das primeiras histórias é um pouco truncado, mas Mike Allred vai aprimorando seus roteiros e narrativa. Além do mais, há tantas ideias a cada página, tantas situações malucas e divertidas, tantos personagens esquisitos e cativantes, que a então pouca experiência do desenhista com os roteiros é perdoável. O ponto alto deste encadernado, para mim, é Terror em Alto-Mar, onde Madman é injustamente acusado de um crime enquanto trabalha em um circo dentro de um navio de cruzeiro. Durante o processo de investigação para localizar o assassino, nosso herói tem uma longa e intrincada luta com o Homem-Músculo em uma sequência de 14 páginas! E com direito a discussões filosóficas…

Com argumentos assumidamente simples, calcados nos clichês da Pulp Fiction da metade do século XX, especialmente dos gêneros ficção, aventura e suspense, os quadrinhos de Allred exalam pop art moderna com ares vintage, hoje muito comum mas uma inovação radical nos comics do começo dos anos 1990 – afinal, era a época dos anti-heróis sanguinários, repletos de armas, espinhos nos uniformes, mulheres voluptuosas e sagas intermináveis, ou seja, o oposto de toda a proposta desta HQ.

Madman e alguns de seus aliados, por Mike e Laura Allred

Com cores de Laura Allred, esposa do criador, infelizmente este é o único volume de Madman no país. Talvez se fosse lançado hoje, com a recente diversificação do mercado brasileiro, o personagem tivesse um pouco mais de apelo comercial, porque de fato há mais leitores interessados em quadrinhos alternativos. Além disso, o próprio Mike Allred está mais conhecido, após sua passagem pelo Surfista Prateado e pela sua co-criação IZombie, da Vertigo, que teve ampla repercussão e gerou uma série televisiva em 2013 que agora está na quarta temporada no canal CW.

“Madman Volume 1 – Curso-relâmpago para quem quer se divertir” é uma boa HQ, divertida e despretensiosa, com texto e arte vibrantes de um dos quadrinistas mais originais em atividade.

Nota: 8,0.