Análise Crítica da Coleção Histórica Marvel Mestre do Kung Fu #1

Capa do Volume 1 da Coleção Histórica Marvel com o Mestre do Kung Fu

Decidi comentar cada história deste grande lançamento da Panini, que promete trazer, na ordem cronológica, a republicação das HQs clássicas do Mestre do Kung Fu dos anos 1970. Vale ressaltar que esta é a primeira vez que estas histórias em quadrinhos saem no Brasil no formato original americano, sem cortes ou adaptações.

. Nível de Spoilers: de leves a moderados. São histórias clássicas, portanto não há necessidade de tratá-las como “segredo de estado”, mas mesmo assim evito desfechos ou revelações bombásticas.

Shang-Chi sempre foi um dos meus personagens favoritos da Marvel. Por alguma razão estranha, tenho um certo apreço pelo gênero kung fu, mas o que me atraía no herói sino-americano é que, em suas melhores histórias, enfrentava uma galeria de coadjuvantes e vilões intrigantes – embora quase sempre unidimensionais -, com roteiros que remetiam aos filmes de James Bond, com uma pitada de noir.

Após um longo período em que a Marvel estava impedida de republicar esta ótima fase, por uma falta de acordo sobre os direitos autorais de personagens que não são da Marvel, e sim do espólio de Sax Rohmer – tais como o maior inimigo do herói, nada mais nada menos do que o Dr. Fu Manchu; a partir de 2016, com essa pendenga resolvida, a editora iniciou um cuidadoso projeto de restauração e edição de encadernados – Hardcovers e Omnibuses – que agora chega ao Brasil em um formato bem mais modesto, em uma série de 4 volumes da já tradicional Coleção Histórica, com capa cartão e papel off-set.

Caso as vendas sejam boas, o personagem ganhará novas edições, com a sequência cronológica original.

1. Shang-Chi, o Mestre do Kung Fu!
Roteiro: Steve Englehart / Desenhos: Jim Starlin
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: Steve Englehart
Edição original: Special Marvel Edition #15 (dez/1973)

Capa com a primeira HQ de Shang Chi

Englehart já era um nome importante no time Marvel, mas Starlin, em 1973, ainda era iniciante e, como aconteceu com outros grandes futuros quadrinistas autorais, no começo só desenhava. Mas, por este trabalho, percebe-se claramente que ele já era um artista pronto, ainda mais finalizado pelo sempre competente Al Milgrom. Uma curiosidade: é a primeira vez que vejo Englehart com o crédito também nas cores. Contudo, a decisão de pintar de amarelo ou laranja os personagens orientais não foi uma escolha pessoal. Por mais preconceituoso que nos pareça isso hoje em dia, naquela época esse era o padrão da indústria americana.

Shang-Chi foi concebido, portanto, por um time criativo de alto nível, mas sua estreia foi em uma revista bimestral menor, usada pela Marvel para testar novos personagens e, de certa forma, também novos artistas. Eram os primeiros anos da “febre” do Kung Fu e outras artes marciais nos EUA.

Assim, como o título entrega, nesta primeira história somos apresentados ao protagonista e sua origem, estabelecendo que Shang-Chi era filho do Dr. Fu Manchu, – um então famoso vilão da literatura pulp fiction, criado pelo escritor Sax Rohmer no início do século XX -, que cuidou de seu treinamento pessoalmente ou supervisionando o trabalho de mestres por ele contratados desde seus primeiros anos, em Honan, na China.

Contrabandista de armas e escravos, Fu Manchu é super inteligente, culto, messiânico, líder do Si-Fan, uma sociedade secreta com um exército à sua disposição e deseja, simplesmente, derrubar o mundo ocidental. Com muito dinheiro e poder acumulados, o maligno mandarim vive saudável há quase 200 anos graças ao Elixir da Vida.

Além deste arquétipo de “yellow peril“, a Marvel usou ainda outros personagens do universo de Rhomer, como seus antagonistas heroicos Sir Denis Nayland Smith e Dr. Petrie, que terão uma forte ligação com o Mestre do Kung Fu.

HQ com ritmo ágil, mostra Shang-Chi com 19 anos, fiel a seu pai – a quem acha justo e verdadeiro – devido ao doutrinamento que recebeu na China para se tornar o principal assassino do Si-Fan. Um combatente perfeito, que domina qualquer arma, tem sentidos aguçados graças a técnicas marciais e possui um elevado nível de inteligência.

Chi ganha sua primeira missão, que é assassinar o inglês Dr. Petrie. O jovem cumpre sua tarefa mas é confrontado por Nayland Smith, que afirma categoricamente que Fu Manchu é o mal absoluto. Shang-Chi tem sua confiança abalada e decide questionar seu pai, além de querer conhecer sua mãe, americana.

Há ótimas cenas de lutas em uma história de origem redonda, que peca apenas por ser rápida demais no desenvolvimento da dúvida de Chi em relação ao seu pai. É um começo instigante para o personagem, que precisa derrotar diversos oponentes, todos também lutadores de artes marciais – além de uma fera – em “locações” na China, Inglaterra e nos EUA. Jim Starlin capricha na narrativa e principalmente nas lutas, que se parecem com as coreografias dos filmes de Bruce Lee (evidentemente!).

Bela arte de Jim Starlin

Assim como em outros gêneros temáticos, a primeira HQ estabelece as premissas de quase toda a série, com algumas convenções e a certeza de que o filho rebelde enfrentará as forças do pai ao lado de outros heróis por um longo tempo.
Nota: 8,0.

2. A Meia-Noite Traz a Morte Sombria
Roteiro: Steve Englehart / Desenhos: Jim Starlin
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: Linda Lessmann
Edição original: Special Marvel Edition #16 (fev/1974)

Shang-Chi Versus Meia-Noite

Shang-Chi continua em Nova York, morando no Central Park, onde enfrenta, talvez pela primeira vez na sua vida, um grupo de bandidos comuns, de rua. O autor, nesse momento, introduz uma misteriosa figura sombria. Logo descobriremos que é o inimigo retratado na capa, Meia-Noite.

Esse é um personagem interessante. Irmão adotivo de Chi, foi resgatado pelo seu pai, Fu Manchu, quando ficou órfão, graças a ações de assassinos do próprio Mandarim na África. De nome M’nai, Meia-Noite pode ser considerado um dos primeiros mestres de artes marciais negros dos quadrinhos. Continua fiel ao seu pai, mas considera Shang seu único amigo. Isso, claro, traz um dilema ao jovem.

O recado de Manchu, que pede para matá-lo, é direto: “Sentimento é um dogma da filosofia ocidental, não da nossa.” Jim Starlin, contudo, cria uma provável incoerência com essa filosofia ao colocar um chapéu cowboy, e não chinês ou, quem sabe, africano, no uniforme do jovem M’nai. Mas talvez o ocidente produzisse coisas boas, como este estiloso chapéu? Enfim…

Duelo de irmãos por Jim Starlin

Esta HQ, basicamente, é um desafio entre os dois mestres do Kung Fu filhos de Manchu. Os autores fazem um bom trabalho com a apresentação do novo vilão e no duelo que, ao longo de 10 páginas – quando às vezes os meio-irmãos dialogam, às vezes batalham em silêncio -, prende a atenção e traz um desfecho cruel, bem conduzido, que será sem dúvida marcante para Chi.
Nota: 7,5.

3. O Covil dos Perdidos!
Roteiro: Steve Englehart / Desenhos: Jim Starlin
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: George Roussos
Edição original: Master of Kung Fu #17 (abr/1974)

Primeira aparição de Black Jack Tarr

Esta terceira história do personagem é também a primeira com seu nome encabeçando o título. Era tradição da Marvel mudar o nome de uma revista genérica, como Special Marvel Edition, para o do personagem que “emplacasse” em suas páginas, e daí continuava com a numeração anterior (hoje em dia isso seria improvável, claro).

A edição #17 de Master of Kung Fu começa com caixas de texto com uma filosofia tão barata que é impossível não achar engraçado. Será que algum leitor da época levava a sério os “ensinamentos” orientais? Acho que só Steve Englehart (e talvez nem ele), tenha curtido essas frases-clichê dos filmes e séries de TV do gênero artes marciais.

Uma curiosidade: o trio de artistas faz uma rápida aparição especial nas batalhas, vale a pena procurá-los.

A parte relevante: esta é a primeira aparição de Black Jack Tarr, que seria um dos mais notórios coadjuvantes e aliados de Shang-Chi no futuro. Tarr é uma criação da Marvel, não pertencendo, portanto, ao rol de personagens de Sax Rohmer, e por isso apareceu em outras HQs, tendo até uma versão no Universo Ultimate.

Ainda em Nova York, o Mestre do Kung Fu é atraído para uma emboscada, criada por Nayland Smith: uma casa repleta de armadilhas. O roteiro parte, então, para aquele clássico modelo de desafios menores até o boss, no caso, o próprio Black Jack, retratado na capa de uma forma gigantesca, desproporcional ao que aparece internamente.

De fato, Starlin o desenha também grandioso mas não tão exagerado como na capa. Com o tempo, é curioso observar como o personagem seria bastante diminuído em estatura e músculos.

A arte está bem inferior em relação aos dois números anteriores. Todas as páginas tem um detalhamento menor, sem muito cuidado com layout nem contornos. Há uma splash page dupla simplesmente infeliz. Talvez Starlin tenha tido menos tempo para produzir o lápis, mas a arte-final nem parece ter sido do mesmo Al Milgrom.
Nota: 6,0.

4. Atacar!
Roteiro: Steve Englehart / Desenhos: Paul Gulacy
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: Petra Goldberg
Edição original: Master of Kung Fu #18 (jun/1974)

Chi enfrenta diversos assassinos

Paul Gulacy é o substituto de Jim Starlin nos desenhos nesta quarta – e penúltima – história de Shang-Chi escrita pelo seu criador, Steve Englehart. Gulacy é um grande artista, fortemente influenciado pelo trabalho de Jim Steranko – como muitos outros nomes surgidos no período -, competente na quadrinização e até arrisca lay-outs diferentes. De certo modo, contudo, prefere a prudência nestas primeiras aventuras e se alinha com Starlin, especialmente na coreografia das lutas.

É nesta história que Shang-Chi aceita um acordo de cooperação com Nayland Smith – que ganha um flashback de 1911, quando conheceu Fu Manchu. Segundo Smith, ele teria devastado a China algum tempo antes daquele encontro. Talvez tenha sido um exagero, mas não lembro se essa questão foi abordada na série, ou se vale para a história do Universo Marvel.

Smith compartilha uma informação com o herói, que parte sozinho para a Flórida a fim de impedir um plano maligno e rocambolesco de Fu Manchu. Além dessa curiosa mudança de cenário, o Mestre do Kung Fu enfrenta, acredito que pela primeira vez, um adversário superpoderoso, um assassino dacoit chamado Satma, três vezes mais ágil e forte que um humano.

A arte de Gulacy chama a atenção, embora ainda tenha pontos a melhorar, em uma história sem grandes atrativos, mas com um acontecimento importante para o futuro do personagem, que é a união com Sir Smith, o antagonista original do vilanesco Fu Manchu. O plano é inverosímel e a resolução, bastante forçada, com direito a um “golpe impossível” de nosso herói.
Nota: 6,5.

5. Recuar
Roteiro: Steve Englehart / Desenhos: Paul Gulacy
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: Stan G.
Edição original: Master of Kung Fu #19 (ago/1974)

O Homem-Coisa é o primeiro Team-Up da revista

Para sua despedida, Englehart traz o primeiro team-up com outro personagem Marvel, o Homem-Coisa. Com certeza, é uma escolha inusitada. Criado há apenas 3 anos, não tinha popularidade, nem era um super-heroi mas, quem sabe, esta revista pode ter tido a honra (?) de ser o primeiro crossover entre os gêneros “Artes Marciais” e “Terror” da editora.

O autor cria ainda dois novos assassinos Si-Fans genéricos, Jekin e Dahar, que darão muito trabalho a Chi.

Em paralelo, Sir Denis Nayland Smith e Black Jack Tarr, que agora também estão na Flórida, quase conseguem capturar Fu Manchu, que escapa, aparentemente, utilizando algum poder místico.

Paul Gulacy esmera-se na composição desta splash page com o Homem-Coisa

Paul Gulacy faz um ótimo trabalho nas lutas e na maior parte das composições, com quadros impactantes, mas ainda falha no lápis em alguns quadros, corpos e rostos. O final desta HQ é muito bacana, sendo a ideia da “filosofia oriental” bem trabalhada, até levemente tocante e contundente.
Nota: 7,5.

6. Arma da Alma
Roteiro: Gerry Conway / Desenhos: Paul Gulacy
Arte-Final: Al Milgrom / Cores: George Roussos
Edição original: Master of Kung Fu #20 (set/1974)

Shang em Miami, bem antes de Scott Lang!

Esta é a primeira história de Shang-Chi escrita por outro autor, o jovem Gerry Conway, responsável pelo trágico fim de Gwen Stacy nas páginas do Homem-Aranha apenas um ano antes. A abordagem é parecida com a de Englehart mas Conway traz um frescor ao não incluir Fu Manchu diretamente na aventura.

Chi deixa os pântanos de Everglades e chega a Miami, onde enfrenta um trio de mergulhadores assassinos (!) na praia. Logo descobrimos que um criminoso local, tentando ganhar maior influência e poder, é o responsável: Demmy Marston, um americano elegante, retratado por Gulacy como se fosse algum ator de cinema, com as roupas, trejeitos e hábitos dos ricos que curtiam ostentar nos anos 1970, com iate ancorado e tudo o mais.

Injuriado por uma derrota, Marston não pensa duas vezes em espancar sua namorada, Diana, que até o final da HQ será protagonista de uma cena chocante.

Conway cria um novo vilão genérico lutador, Korain, descrito como um Samurai veterano que, por alguma razão, decidiu passar sua aposentadoria como assassino de aluguel nas Florida Keys.

Para o leitor frequente, esse recurso do “lutador do mês” começa a incomodar. Certamente brota aquela perguntinha na mente: “será que vai ser sempre assim?”.

Em todo caso, a HQ traz um roteiro e arte fluidas, com algumas curiosidades e um final completamente inesperado, com uma situação ligada ao Elixir da Vida, a fórmula secreta que mantém Fu Manchu com força e vigor de um adulto, apesar da idade avançadíssima.
Nota: 7,5.

7. Máscara da Morte
Roteiro: Doug Moench / Desenhos: Paul Gulacy
Arte-Final: Dan Adkins / Cores: Petra Goldberg
Edição original: Giant-Size Master of Kung Fu #1.1 (set/1974)

Capa da Primeira Edição Especial do Personagem

Provavelmente a revista mensal do personagem estava vendendo muito bem, porque a Marvel publicou esta edição especial entre os números #20 e #21, cinco meses desde a estreia da série regular.

Convocado para roteirizar Giant-Size, Doug Moench seria o escritor titular de Shang-Chi por anos e anos a fio, grande parte deles em parceria com Paul Gulacy.

A história é boa, fechada, como a maioria da produção da época, embora também fizesse parte de um arco maior, uma cronologia ampla da luta entre Fu Manchu e seu filho rebelde.

Moench leva Shang novamente para Nova York, onde apresenta Ducharme, uma espécie de confidente e assistente do vilanesco Mandarim, e também o Conselho dos 7, os mais leais e capazes lutadores do Si-Fan.

Shang-Chi ganha elegância e uma atmosfera noir com Paul Gulacy

Bela arte, a melhor de Gulacy até o momento, com alguns quadros icônicos, com uma atmosfera noir permeando as diversas lutas contra assassinos coloridos, diferentes entre si, com muita ação e onde finalmente concluímos que Shang-Chi é, de fato, um grande Mestre do Kung Fu: extremamente veloz, habilidoso, preciso. Texto econômico nos recordatórios, roteiro coeso, embora nada muito criativo, eficiente e de leitura agradável, mesmo nos dias atuais.
Nota: 8,5.

8. Passado Congelado, Memórias Partidas
Roteiro: Doug Moench / Desenhos: Graig Russell
Edição original: Giant-Size Master of Kung Fu #1.2 (set/1974)

HQ curta contida na edição Giant-Size americana da história anterior, de leitura rápida, mas que se passa em Miami. O que dizer? Bem, a arte é bem inferior, cheia de falhas, tanto de proporção quanto de montagem dos quadros. Vale como curiosidade artística, porque Craig Russell estudaria muito e se aprimoraria nos anos seguintes, até se transformar em um dos grandes mestres modernos dos quadrinhos. Impossível imaginar que este trabalho amador foi feito pelo mesmo autor multipremiado e parceiro de Neil Gaiman em Sandman e outros projetos, além de clássicos da Marvel como “What´s Disturbing you, Dr. Strange?“.
Nota: 4,0.

9. Reflexos em Águas Turvas
Roteiro: Doug Moench / Desenhos: Ron Wilson / Arte-Final: Mike Esposito
Edição original: Giant-Size Master of Kung Fu #1.3 (set/1974)

Outra HQ curta, mas com um desenvolvimento e arte melhores e um desfecho bem resolvido. É Chi atuando na vizinhança de Miami, provavelmente depois da história Arma da Alma. Entretém.
Nota: 6,0.