Mulher-Maravilha #3 – Panini Comics

Capa Variante com Gal Gadot

Resenha da terceira edição da mensal Mulher-Maravilha do Renascimento DC – sim, eu estou atrasado!

. Volume de spoilers: como de praxe, nunca comento pontos cruciais, só procuro contextualizar a história, citando alguns aspectos.

Com data de Junho/2017, novamente temos duas edições de Wonder Woman nesta revista da Panini, a #4 e a #5, ambas escritas pelo premiado Greg Rucka, sendo que a primeira, ambientada no passado, reconta a origem da Mulher-Maravilha e o seu primeiro encontro com Steve Trevor e o Mundo do Patriarcado, e a segunda, situada no presente, relata mais um capítulo da aventura na selva africana na companhia da Mulher-Leopardo.

Realmente, é notável o cuidado com o desenvolvimento dos detalhes que Rucka traz em todo este arco da origem da Mulher-Maravilha. Da construção da sociedade das amazonas aos seus hábitos, do modo com que encaram a ameaça trazida pela chegada de Trevor e seu avião à reverência aos Deuses… mas, sobretudo, é tocante ver o amor entre Diana e sua mãe, Hyppolita. Há dor genuína no coração da rainha quando o dever as separa. Sobre o roteiro, que flui naturalmente, acompanhamos a difícil decisão das guerreiras sobre o destino do soldado americano sobrevivente, que envolverá a escolha de uma campeã. Ah, e Rucka ainda explica, sutilmente, de onde veio a clássica ideia do “avião invisível” eternamente associado à personagem.

Claro, tudo isso não teria o mesmo impacto sem a arte delicada e que respeita enormemente as personagens de Nicola Scott. Além da beleza clássica que impõe nos corpos e rostos das guerreiras amazonas, destaca-se o esmero com a arquitetura, a decoração, as expressões faciais, bem como com a própria narrativa e a quadrinização. Sem dúvida, é um trabalho impressionante, belo e superior. Romulo Fajardo Jr. novamente entrega cores perfeitas para esta edição impecável.

Splash Page Dupla de Nicola Scott com as amazonas em ação

Contudo, não estou gostando da segunda história, dividida em três frentes narrativas: a primeira mostra Trevor prisioneiro tendo uma conversa recheada de frases de efeito com um warlord pretensamente poderoso, Cadulo; na segunda Diana e a Mulher-Leopardo continuam discutindo a relação enquanto procuram pelo mesmo vilão; finalmente, na terceira narrativa, Etta Candy e Sasha tem um encontro noturno para discutir a perda de contato com o esquadrão de Trevor nas florestas de Bwanda. Essa situação (porque não se falaram por telefone?) parece apenas uma desculpa preguiçosa para o roteirista apresentar uma nova situação misteriosa envolvendo uma dessas mulheres.

Os desenhos de Liam Sharp estão bem menos interessantes do que nas edições anteriores. A sequência da conversa cara a cara de Etta e Sasha, especialmente, é enfadonha e expõe a baixa capacidade do desenhista em produzir páginas de talking heads interessantes. No resto da história, como há pouca ação desta vez (situações em que Sharp se destacou nas revistas #1 e #2), restam algumas poses da Mulher-Maravilha e da Mulher-Leopardo na floresta, e excesso de testosterona no embate entre Cadulo e Trevor. Nem a competente Laura Martin nas cores consegue um resultado agradável, pois há excesso de brilhos e efeitos.

Página interna com a arte de Liam Sharp

Em suma, a edição da Panini faz o correto em publicar as histórias na sequência. Como a publicação original americana é quinzenal, as duas tramas saem intercaladas mesmo. Contudo, a diferença de escopo e qualidade é tão grande que incomoda. Não há previsão de alteração no esquema. Imagino no futuro ler em encadernados a história desenhada por Nicola Scott e agradecer pela experiência. Deste jeito, não fica tão legal. Mas vamos continuar resenhando este título da DC.

Finalmente, destaco mais uma arte do Frank Cho retratando a poderosa Princesa Diana.

A arte de Frank Cho para uma capa variante está no interior desta revista

Nota: 7,5.

Mulher-Maravilha #2 – Panini Comics

Capa de Liam Sharp para MM #2 da fase Renascimento DC

Resenha da segunda edição da Mulher-Maravilha na nova fase Renascimento DC, com a publicação de Wonder Woman #2 e #3, de Greg Rucka.

. Volume de spoilers: mínimos.

Com data de Maio/2017, temos nesta revista da Panini duas edições da mensal solo da personagem, que está saindo quinzenalmente nos EUA. A DC optou por contar neste título duas histórias diferentes, que caminham alternadamente: uma focando na origem da heroína, especialmente seu primeiro encontro com Steve Trevor; e outra no presente, esta sim continuação da Mulher-Maravilha #1, em que ela se depara com um mistério e com a ameaça da Mulher-Leopardo.

O escritor Greg Rucka enfrenta esse desafio de contar ambas histórias em edições alternadas, sendo que a arte do passado fica com Nicola Scott, e a do presente, com Liam Sharp. Em comum, aparentemente, só a presença de Steve Trevor, mas podem acontecer surpresas. Sinceramente, não sei por quanto tempo essa abordagem irá durar, mas inicialmente, funciona.

Gostei muito do começo da “nova origem” de Rucka. É diferente daquela que virou a maior referência até o momento, a de George Perez/Len Wein (da Fase Pós-Crise nas Infinitas Terras de 1986), mas ainda retém sua essência, com  foco nos Deuses Gregos e no modo de vida da época em que eram o auge da civilização ocidental, preservado na Ilha de Themyscira. Vemos uma jovem Diana aprimorando suas habilidades de guerreira, em meio a amizades, amores e estudos, e a adorável relação com sua mãe, a Rainha Hyppolita.

Composição, cuidados com cenários e expressões dos personagens são pontos fortes de Nicola Scott

A comunidade das Amazonas é vibrante e a arte da australiana Nicola Scott é perfeita para o estilo da história. Além de lembrar o mestre Perez, no seu cuidado com o delineamento dos personagens, suas expressões faciais e nos detalhes dos cenários, Scott também traz uma modernidade agradável, capaz de contar uma história relativamente densa em poucos quadrinhos, sempre com boas composições e enquadramentos, que não cansam nem confundem. Impossível ficar alheio.

Há um bom espaço também para retratar como era a vida do jovem militar Trevor e dos acontecimentos que antecederam a missão que o levou à Ilha. No geral, temos uma história extremamente interessante, bem contada e agradável. As cores de Romulo Fajardo Jr são delicadas e enaltecem a suntuosidade da arquitetura Grega, ao mesmo tempo que se encaixam quando precisam retratar a “humanidade” de Steve.

Traço e cores belíssimas de Nicola Scott e Romulo Fajardo Jr

A segunda história é bastante diferente: temos Trevor já envelhecido (quantos anos depois do primeiro encontro com a Amazona?) em uma missão aparentemente suicida à procura de um warlord na África. Na mesma área, Diana encontra a Mulher-Leopardo. Há um grupo de Homens-Hienas (?) à procura delas, talvez fruto de magia negra? Enfim, são especulações, a trama em si não esclarece de imediato, o leitor precisa juntar os pontos aos poucos, mas certamente Trevor e seu alvo terão ligação com a Mulher-Maravilha e as feras que acabou de enfrentar.

Os desenhos de Liam Sharp e as cores de Laura Martin procuram mostrar uma floresta densa e luxuriante, quase mística, e há bons momentos no traço de Sharp, mas também percebe-se suas limitações, tanto anatômicas, na composição e, principalmente, de narrativa.

Esta segunda parte da história no presente está, até o momento, desnecessariamente truncada. Há uma premissa razoavelmente interessante – Diana perdeu a conexão com Themyscira – na relação entre ela e a vilã, que já foram amigas antes da transformação da Leopardo, que troca momentos de fúria com outros de frágil humanidade. Contudo, a missão dos americanos liderados por Steve Trevor é um pouco cansativa e permeada de situações-clichês. Espero que melhore.

Em todo o caso, continuaremos acompanhando este título mensal da Panini, especialmente pela nova origem cuidadosa, com a ótima arte de Scott e Fajardo. Nos extras, algumas capas alternativas belíssimas do Frank Cho.

Uma das Capas alternativas de Frank Cho publicadas no interior

Nota: 8,0.

Mulher-Maravilha #1 – Panini Comics

As duas capas da MM #1

Resenha: nesta estréia da Mulher-Maravilha na nova fase Renascimento DC, temos uma abordagem diferente da personagem e de seu elenco de apoio em uma HQ mediana, mas com grande potencial.

. Volume de spoilers: mínimos.

A Panini acertadamente encaixou tanto a edição especial (one-shot) Wonder Woman: Rebirth, que serviu basicamente para apresentar o novo status quo da personagem, quanto sua continuação direta, a edição #1 da própria série regular Wonder Woman, onde a história começa de fato.

Ambas as revistas foram escritas por Greg Rucka, um dos grandes nomes dos quadrinhos atuais, em atividade desde a década de 1990, com muitos trabalhos autorais e longas passagens na Marvel e na DC, incluindo uma elogiada fase da própria Mulher-Maravilha.

A primeira história basicamente é um “monólogo” de Diana – algo incomum em histórias de super-heróis, e dá para entender o porquê. Ela está em seu apartamento em Paris, subitamente questionando a “história”, que “continua se alterando”, tanto a da sua vida como do próprio mundo. Suas memórias estão confusas e está aflita por não conseguir discernir qual a verdadeira realidade. Tirando um pequeno momento de ação no começo e outro no final, a história em si é algo vazia, como a própria crise existencial da heroína. Abordagem curiosa, mas não empolga.

É preciso esclarecer – especialmente para os leitores que estão começando a acompanhar as revistas da Mulher-Maravilha agora – que as lembranças confusas às quais ela se refere condizem com diferentes origens da personagem em fases distintas da história do Universo DC. É até usual que os personagens mais antigos dessa editora tenham diversas origens (ao contrário da Marvel, que no geral mantém uma única origem e uma só linha do tempo), então de fato o entendimento pode ficar um pouco confuso. O autor sabe disso e aproveita essa característica para que a heroína questione sua existência. Para quem já leu essas outras fases, talvez o apelo desse enfoque seja maior. Ou não.

Há um momento interessante nessa história envolvendo o Laço da Verdade, mas no geral pouca coisa acontece, além do que foi dito. Os desenhos são na maior parte de Matthew Clark, que tem um traço limpo, correto, mas sem brilho, e algumas páginas do Liam Sharp, de quem falaremos mais adiante.

Na segunda história, temos duas tramas correndo em paralelo. Além da continuação da “busca pela verdade” que a Princesa Diana começa a empreender, o que a leva até a África, temos a de seu ex-namorado, o militar Steve Trevor, que está em missão na… África. A propósito, no mesmo país e no mesmo momento que a Princesa. Coincidência? Intervenção Divina? Conhecemos também um pouco da organização ESTACA e sua comandante, Etta Candy, coadjuvante de outras fases que aqui é chefe de Trevor e, impossível deixar de notar, tem uma personalidade e aparência muito próximas da Amanda Waller na fase Pós-Crise.

Trevor e sua equipe enfrentam uma espécie de milícia, nada muito original, sendo que, por um momento, parece até aquele velho cliché preconceituoso do soldado-branco-americano-vai-salvar-africanos-deles-mesmos, mas vamos dar o benefício da dúvida à equipe criativa e acompanhar o desenvolvimento dessa subtrama.

Diana nas selvas africanas garante imagens impressionantes, especialmente as paisagens e as feras. O veterano desenhista Liam Sharp é bom, consegue poses poderosas mas um exame cuidadoso de seu trabalho aponta alguns problemas, desde a falta de imaginação na quadrinização e na composição das cenas, até suas pouco convincentes expressões faciais de espanto ou tristeza. O último quadro é um grande acerto, tanto visualmente quanto na criação de um gancho intrigante para a continuação. As cores sóbrias de Laura Martin ajudam a criar um clima estranhamente soturno para uma HQ da personagem, mas no geral o conjunto artístico nesta segunda parte funciona muito bem.

Pelo que soubemos, Rucka vai apresentar nesta revista um versão “definitiva” para a origem da Mulher-Maravilha. Essa história focada no passado da Princesa será intercalada com a aventura do presente que começou aqui, na África, e provavelmente Steve Trevor terá uma grande importância na trama. O ritmo até o momento é lento e introspectivo, mas bem contado, embora não tenha achado a proposta em si muito interessante. A ideia da dúvida, da falta de memórias confiáveis, da conexão com Themyscira e da busca pela verdade até pode gerar uma grande história, mas o começo é lento e há muitos lugares-comuns, inclusive na arte.

Impossível deixar de citar, também, que há uma breve abordagem feminista nas duas histórias: tanto a Mulher-Maravilha quanto Steve Trevor enfrentam grupos de homens que abusam de mulheres. Não sabemos se esses criminosos terão outros desdobramentos, inclusive com a nova origem e a “história que se altera”, que tanto perturba Diana, mas certamente o autor voltará aos temas nas próximas edições.

A quarta capa traz uma pin-up belíssima da Princesa Amazona desenhada por Frank Cho.

A imponente Mulher-Maravilha de Frank Cho

Nota: 7,5.