Coleção Snoopy nas Bancas

Em março de 2021 chegaram os primeiros volumes de uma nova coleção de quadrinhos nas bancas de São Paulo e outras regiões: Snoopy – Charlie Brown & Friends, a Peanuts Collection. Sim, o nome oficial é grande mas, resumidamente, é uma série quinzenal capa dura da editora Planeta DeAgostini com as tiras dominicais do querido Snoopy.



O primeiro volume custa apenas R$ 14,90, e traz todas as tiras dominicais produzidas pelo grande Charles Schulz ao longo do ano de 1968. Li e é mesmo muito divertido e cativante, especialmente porque são tiras maiores que as tradicionais de 3 ou 4 quadros (as que saíam nos dias úteis) e, por isso mesmo, permitiam um tratamento mais elaborado das gags e, claro, das personalidades de Charlie Brown & Cia.

A Coleção funcionará assim: cada novo volume trará o conteúdo de um ano inteiro das tiras de domingo, como nesta primeira remessa, ou serão edições temáticas. Aliás, Charles Shulz trabalhou por cerca de 50 anos com seus carismáticos personagens, de 1950 a 1999.

A segunda entrega trouxe os anos 1969 e 1970 e são vendidos em conjunto por R$ 49,90. Em breve chega o quarto volume, esse ao preço definitivo de R$ 49,90 por edição, um valor salgado para este tipo de material em preto e branco e com apenas 60 páginas, e que pressupõe um compromisso de longo prazo do comprador, já que idealmente é para “fazer a coleção”, e ela será enorme, com dezenas de volumes. Na verdade, esse número não está claro, podendo ser encerrada pela editora antes. A propósito, no site da Planeta há um plano de assinatura que pode ser interessante, com descontos e brindes exclusivos.



Para quem não conhece o conteúdo destas tiras de jornal, um verdadeiro marco dos quadrinhos de humor da segunda metade do século XX, com um quê de filosofia e existencialismo e muita ironia, as estrelas eram, além dos animais – o beagle Snoopy e o pássaro Woodstock, um grupo de crianças que circundam a vida de Charlie Brown, em grande medida um garoto melancólico e loser, inspirado no próprio autor, que teve uma infância meio complicada, meio privilegiada, contada logo no primeiro volume.

Sem dúvida, é um trabalho que não perdeu sua qualidade ou ressonância com o tempo. Pelo contrário, os temas são universais e justificam o enorme sucesso nos EUA e em muitos outros países, como aqui no Brasil.

Snoopy, vale lembrar, virou desenho animado e foi licenciado para brinquedos, bichos de pelúcia e muitos cadernos, agendas e outros itens de papelaria, e permanece um ícone mundial, mesmo 20 anos após o falecimento do criador, que não permitiu a continuação dos quadrinhos nas mãos de outros artistas.

Indicado para leitores de todas as idades, o material tem um ótimo acabamento gráfico, padrão da Planeta DeAgostini (que trouxe outra coleção das tiras, a do Príncipe Valente, que está próxima da conclusão), com textos introdutórios muito bons, de pesquisadores dos quadrinhos e de especialistas na obra.



Diria que a maior “ameaça” ao sucesso desta coleção é o conjunto preço elevado + coleção longa + cenário recessivo no país. Ressalto que o preço dos quadrinhos em geral aumentou bastante nos últimos meses, sendo que hoje é comum encontrar mangás – outros materiais em preto e branco, com muito mais páginas mas sem capa dura ou papel bom, com preços quase na mesma faixa.

Enfim, é um clássico e torço que dê certo e assim mais leitores conheçam e se divirtam com Charlie Brown, seu cachorrinho Snoopy e demais amigos.

Novidade: Podcast Lendo Quadrinhos

Decidimos diversificar a forma com que divulgamos nossa grande paixão que são, claro, as Histórias em Quadrinhos!

Capa Podcast LQ

Agora temos um Podcast onde falaremos sobre assuntos variados da nona arte, desde o mercado, novidades, indicações de todos os gêneros e o que mais der vontade.

Foi criado no Anchor, mas já está disponível também no Spotify, Google Podcasts, Radio Public, Breaker e em breve em outras plataformas, como a da Apple.

Confiram o Trailer, assinem gratuitamente esse novo serviço e seguimos… lendo quadrinhos!

Indicação: Quarteto Fantástico – Mulher Invisível (Panini Comics)

Este simpático encadernado em capa cartão contém uma minissérie em 5 partes completinha, com a história Parceiros no Crime, publicada originalmente nos EUA em 2019 e em novembro de 2020 no Brasil.

Mulher Invisível em capa do grande Adam Hughes

Escrita con mucho gusto pelo tarimbado Mark Waid e desenhada por Mattia De Iulis, é uma revista divertida e esteticamente atraente que, mesmo com uma arte criada digitalmente, apresenta não apenas uma narrativa elegante, clean, como também cores equilibradas e expressões faciais bem construídas, algo raro em artistas contemporâneos.

Sobre a história, sem dúvida alguma um dos grandes destaques – inclusive para leitores veteranos -, é no uso inventivo, até inusitado, dos poderes da Mulher Invisível em vários momentos da trama, e que certamente não poderão ser ignorados daqui em diante.

Além de Susan Storm, o outro personagem-chave desta HQ é Aidan Tintreach, um agente secreto criado para esta série e que teria, de acordo com o retcon aqui apresentado, uma longa história de parceria com a super heroína – daí o título da aventura.

Aidan é o parceiro mais que secreto da Susan Storm

Vale frisar que não é a primeira vez que a Mulher Invisível é mostrada como agente secreta. O próprio Mark Waid revelou esta curiosa faceta da Susan em uma história da finada série mensal dos Agentes da SHIELD com Phil Coulson, de alguns anos atrás e que chegou a ser publicada pela Panini em encadernados.

Acho uma ideia bem interessante, porque furtividade, incursões e fugas perigosas, mas seguras, combinam perfeitamente com o conjunto de poderes daquela que é, provavelmente, a mais poderosa integrante do Quarteto Fantástico.

Sim, a Mulher Invisível dá uma ótima espiã!

Enfim, o que move a história de Parceiros no Crime é quando a CIA conta à Susan que Aidan foi capturado durante uma missão em Morávia (um país fictício do Universo Marvel do em constante conflito, localizado no leste europeu). A prisão do agente estaria ligada com a tentativa de salvamento de jovens americanos no belicoso país.

A Mulher-Invisível decide seguir pistas deixadas por Aidan para, claro, o libertar e também salvar os americanos. Essa busca fará com que ela visite localidades diferentes pelo mundo: Madripoor, Itália, Irlanda e outras, o que é típico de histórias de espionagem a la Guerra Fria.

Por sinal, por ser uma trama de agente secreto no Universo Marvel, o roteirista não perde a chance de inserir participações especiais: Nick Fury (pai e filho), Maria Hill e Viúva Negra.

Uma observação sobre a Viúva: no traço de Iulis, ela apresenta uma feição diferente, mais envelhecida (totalmente condizente com seu histórico) e de expressões “eslavas” (se é que eu posso me permitir esse apontamento) ou, ao menos, “não-europeus do oeste”. Acho esse cuidado mais do que um mero detalhe. As editoras de quadrinhos mainstream americanas deveriam se esforçar mais para acertar os traços físicos dos diferentes povos de nosso planeta. Em geral, os desenhistas se limitam a ajustar roupas e cabelos, mas as fisionomias e corpos são todas meio genéricas, grosseiras, quase sempre clichês de latinos, africanos ou asiáticos. Por isso me chamou a atenção que, mesmo entre “europeus”, para um bom observador há diferenças mais do que sutis. Ponto para o Iulis que, a propósito, é italiano.

Susan Storm Richards e Natasha Romanoff no traço de Mattia De Iluis

Já o desenho da Susan segue o estilo primeiramente apresentado pelo grande Steve McNiven que, lá no começo dos anos 2000, na revista Marvel Knights Fantastic Four, a fez mais longilínea e mais leve, jovial.

Pequenos pontos problemáticos: há algumas soluções excessivamente convenientes do roteiro mas que, a meu ver, não chegam a “estragar” o clima e, de certo modo, fazem parte da vibe das histórias de espionagem, sejam em quadrinhos, livros ou no cinema. Além disso, é possível dizer que o roteiro é mesmo um tanto genérico, ou seja, poderia ser aplicado para qualquer outro agente secreto da Marvel e funcionaria igual mas, por outro lado, perderíamos a chance de vermos os poderes de invisiblidade sendo usados de forma criativa e, talvez mais importante, de acrescentar novas camadas e possibilidades para a personalidade e a história individual da Mulher Invisível, algo que a torna ainda mais especial e “descolada” da sua vida no Quarteto Fantástico.

Susan infiltrada na alta classe europeia.

Para encerrar, diria que sim, é uma revista de muito bom nível, com uma arte bem bonita, diálogos que deixam a leitura agradável e tem a vantagem de ser uma história auto contida e ótima, portanto, também para quem não acompanha o Universo Marvel em geral ou não costuma ler HQs do Quarteto.

O final é emocionante como precisava ser e, após a leitura, fica o gostinho de que não só valeu a pena como seria interessante a mesma dupla criativa contar novas histórias do lado menos visível da Mulher Invisível.

Nota 8,0.

Quadrinhos Disney Renascem no Brasil!

Às vezes é preciso deixar uma ideia morrer para que essa mesma ideia consiga voltar, no futuro, mais forte do que antes. Pois é exatamente isso o que está acontecendo, neste momento, com os quadrinhos Disney no Brasil.

Uma das caprichadas edições mensais da Culturama

Para quem não costuma acompanhar, as revistas do Pato Donald, Tio Patinhas, Pateta & Cia. eram publicadas “desde sempre” pela Editora Abril. De fato, a primeira publicação impressa da própria Abril foi o número #1 de “O Pato Donald”, em 1950.

Infelizmente, a editora paulistana fez, a partir dos anos 1990, um processo de diversificação para outras mídias e segmentos editorais que, embora muito bem-sucedido no começo, acabou trazendo uma série de dificuldades financeiras nos anos 2000, que culminaram com a dissolução de várias frentes de negócios, inclusive com o fim da divisão de quadrinhos.

As últimas edições Disney da Abril saíram em julho de 2018. Desde então, a empresa foi comprada por um novo grupo controlador que está, de fato, trabalhando para recuperar algumas linhas e revitalizar títulos de revistas periódicas, como a Super Interessante, mas nada de HQs. Será que os leitores brasileiros não teriam mais novas revistas das criações de Walt Disney? Alguma empresa arriscaria com esses personagens aparentemente “micados” por aqui?

A última edição do Pato Donald pela Abril

Após muita especulação, especialmente em torno da gigante Panini Comics, no começo de 2019 o mercado foi informado que os gibis dos patos e dos ratos seriam retomados pela Culturama, uma jovem editora de livros infantis sediada no Rio Grande do Sul que já trabalhava, inclusive, com licenças da própria Disney.

Entre um misto de surpresa, esperança e ceticismo de boa parte dos órfãos da Abril, a Culturama lançou em março de 2019 cinco revistas especiais números zero, e a partir de abril as mensais números #1 propriamente ditas, todas em formatinho, com um bom cuidado gráfico e editorial: Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey, Pateta e Aventuras Disney, ao preço de R$ 6,00 cada. As combalidas Bancas de Jornal voltavam a ter esses produtos queridos por crianças, jovens e adultos.

Este é o sexto título mensal de linha da atualidade

Aos poucos, com um bom trabalho de curadoria, de histórias trazidas especialmente da Itália e da Dinamarca, com boas ações de marketing, pacotes de assinaturas e com a distribuição relativamente azeitada (na medida do possível para os padrões do Brasil), a Culturama passou a lançar edições especiais, como o Grande Almanaque Disney e uma sexta revista mensal, Histórias Curtas. Parecia que, de fato, os esforços de todos – inclusive da adesão dos fãs – estavam dando frutos.

Mas, faltavam ainda algumas coisas para comemorar. E não eram simples.

A primeira delas dizia respeito a uma linha especial de títulos. Explicando: nos seus últimos anos de atividade, a Abril investiu pesadamente em edições “para colecionador” – séries e especiais em capa dura, que traziam histórias ou fases clássicas pelas mãos de grandes artistas, com cores restauradas, em formatos maiores e recheados de extras!

Edição luxuosa que traz compilada a enorme e complexa história do Tio Patinhas por Don Rosa. Um clássico!

Foi um prato cheio para os leitores das antigas, que finalmente podiam ter em mãos todas as histórias produzidas por Carl Barks, Don Rosa, Floyd Gottfredson, dentre outros, e também abriu portas para grupos diversificados de consumidores, que liam Marvel, Vertigo e Bonelli, por exemplo.

Porém, várias dessas belíssimas séries ficaram incompletas, vítimas do fechamento súbito da divisão de quadrinhos da Abril.

Como a gaúcha Culturama não demonstrava interesse em investir nesse nicho, concentrando seus esforços nas mensais e especiais para as bancas e outros canais de varejo, muita gente já tinha jogado a toalha e desistido de ver tais coleções completas.

Uma das séries capa dura retomadas pela Panini

Até que, no começo de 2020, a própria Editora Panini – que, vale frisar, representa as licenças Disney mundo afora – finalmente decidiu investir nesse material, dando sequência aos volumes de onde a Abril tinha parado, mantendo os mesmos padrões gráficos e até lançando novas séries de clássicos, ou seja, republicações em geral.

Aparentemente, essa segunda frente de investimentos em HQs Disney deu uma revigorada na marca e atraiu novos grupos de consumidores.

É possível constatar isso porque, apesar da crise econômica que o país já atravessava, intensificada gravemente pela pandemia, tanto os lançamentos de novas histórias em quadrinhos Disney trazidas regularmente pela Culturama, como os volumes de luxo de republicações da Panini continuam saindo em grandes quantidades.

A própria editora gaúcha revelou que, desde o início dos trabalhos, foram vendidas 1.300.000 (um milhão e trezentas mil) revistas em quadrinhos da marca, um número impressionante!

Certamente, os quadrinhos Disney divididos pela primeira vez entre duas empresas concorrentes podem resultar em ganhos para os leitores – além de diluir os investimentos e riscos do negócio em si.

Série italiana pela primeira vez no Brasil em uma das mais caras edições Disney já publicadas aqui: R$ 99,00!

É possível observar também que a comunidade de leitores hardcore de quadrinhos em geral, que mantém uma ampla publicação de postagens e vídeos nas redes sociais, parece que está dando mais atenção aos títulos desses personagens desde o seu desaparecimento, em 2018. No momento, há uma enorme diversidade de publicações, talvez igual ou superior ao dos últimos anos da Abril, o que não é pouco.

A segunda coisa que faltava para os leitores comemorarem veio em forma de Live promovida pela Culturama no dia 29.07.20 e é, sem dúvida, uma notícia espetacular para o mercado editorial como um todo.

Zé Carioca, um dos mais queridos personagens do panteão Disney, que estava na geladeira há vários anos, vai ter novas histórias e, o melhor, criadas e produzidas no Brasil!

Capa de Aventuras Disney com a primeira HQ produzida pela Culturama, no traço de Moacir Rodrigues

Isso mesmo: roteiristas, desenhistas, coloristas, letristas, revisores, editores e gráficos brasileiros serão os responsáveis pelas suas novas HQs.

A primeira história do Zé sairá em setembro/20 na revista mensal Aventuras Disney, e ao menos outras três estão em produção, sendo esse conjunto a ponta de lança de um projeto mais audacioso: reconstruir os famosos “Estúdios Disney Brasil” originalmente criados pela Editora Abril que, durante as décadas de 1970 a 1990, lançou milhares de páginas memoráveis de quadrinhos, que marcaram uma geração de brasileiros (eu, inclusive) e publicados mundo afora.

Nos anos 80 os quadrinhos Disney com o Selo (B) de Brasil estampados na primeira página eram, para mim, os mais divertidos, criativos, com os personagens mais bem desenvolvidos e desenhados… enfim, eram os melhores e ponto final!

Peninha, Biquinho, A Patada, Zé Carioca, Morcego Vermelho, Donald, Pateta, Margarida, Urtigão, Turma da Pata Lee e muitos outros brilhavam sob a batuta dos brasileiros.

Capa da primeira edição do Urtigão, feito no Brasil

Claro, portanto, que pessoalmente fico muito, muito feliz pela notícia, porque (re)abre oportunidades para artistas e outros profissionais da nossa pequena indústria e que podem, novamente, fazer um material de ótima qualidade, de grande ressonância com o leitor nacional.

É isso, boas novas em meio ao caos! Construção depois da destruição! Então porque não sonhar, agora, com a retomada plena dos Estúdios Disney (B) e uma nova “era dourada” de histórias em quadrinhos brasileiras?

Leituras para a Quarentena #04: Skybourne

Esta recomendação de leitura para a quarentena é um pouquinho diferente das anteriores: tem bastante violência gráfica, sangue, mortes e monstros mas, ainda assim, acho que se enquadra em leituras “menos tensas” porque essas características gore servem a um humor negro nem tão seco, nem tão refinado, que criam uma HQ deliciosamente pop e moderna, de leitura fluida, repleta de ação.

Comic Book Cover

Capa da edição brasileira

Skybourne é o mais recente trabalho autoral de Frank Cho, o artista coreano-americano notório por curtir desenhar criaturas monstruosas e corpos torneados.

Cho tem uma longa carreira nos quadrinhos mainstream, notadamente na Marvel e, embora tenha produzido mais como desenhista (suas capas são muito requisitadas), é também roteirista e criador, tendo recebido destaque pela primeira vez graças à sua tira de jornal Liberty Meadows (1997-2001) que, por sinal, saiu em versão encadernada no Brasil pela HQM Editora.

Mas do que se trata este quadrinho?

Grace Skybourne em ação!

Skybourne é o sobrenome de três irmãos imortais dotados de força super humana e pele impenetrável, que seriam filhos de Lázaro (da Bíblia, talvez?) e parecem ter conexões com os Mitos Arturianos.

Neste Volume #01 (e, até o momento, único produzido!), que dá para ler em “uma sentada”, acompanhamos o paradeiro de dois deles – Grace e Thomas – que trabalham para a agência Topo da Montanha, operada por uma Fundação ligada ao Vaticano, que captura monstros e elimina outras ameaças à vida humana.

Monstros e Mitos recheiam a HQ do começo ao fim

Gostei bastante do ritmo frenético, da arte elegante e da ação vertiginosa com algumas breves pausas para conhecermos melhor o passado dos protagonistas – além dos dois super irmãos, há um padre (!) irônico, debochado e galanteador (!!) que é uma espécie de consultor (!!!) da agência caça-monstros e amigo de longa data dos Skybourne.

Frank Cho é obviamente um ilustrador de mão cheia, mas é interessante notar como sua narrativa está sempre evoluindo. Este trabalho é realmente um ponto alto na sua carreira.

Opa, assim como no Post anterior, aqui também temos Dragões, mas estes são do tipo clássico!

O quadrinista conhece seus limites e, corretamente, não faz textos densos ou elaborados, pelo contrário: prefere entregar um roteiro simples, enxuto, mas com um conjunto de poucos e bons personagens que, se não imediatamente cativantes, são intrigantes o suficiente para nos importarmos com eles. De fato, os super irmãos parecem saber muito mais do mundo que qualquer outra pessoa e ainda assim – ou por isso mesmo – carregam um enorme peso nos ombros.

Aqui, Frank Cho concebeu, roteirizou, desenhou e arte-finalizou os cinco capítulos que compõem o “arco de lançamento”, conteúdo deste encadernado capa-dura. As cores, contudo, ficaram a cargo do brasileiro Márcio Menyz, que realmente fez um belo trabalho, capaz de ressaltar todos os personagens – mesmo quando há dúzias no mesmo quadro -, além de criar um “clima” próprio, único, que traz ainda mais personalidade para a obra.

Lápis e arte-final de Cho, antes das cores de Márcio

O quadrinho foi editado pela Boom! Studios nos EUA e saiu aqui em 2019 pela Editora Mythos sob o selo Prime Edition – que traz arcos fechados no formato americano, capa dura, com bom papel e acabamento, mas econômico nos extras.

Bela HQ. Vontade de ler a continuação. Só não é possível saber quando isso vai ocorrer porque, até o momento, Frank Cho não confirmou nada nesse sentido. Fico na torcida.

Nota 8,0.

Leituras para a Quarentena #03: Caçando Dragões

Olá pessoal, tudo bem?

Por incrível que pareça, esta é minha primeira indicação de Mangá no Blog, que coisa!
Se eu conseguisse vir aqui mais vezes por mês certamente já teria falado sobre este e outros mangás deliciosos. Mas o tempo está curto mesmo, o que é uma pena porque eu gosto muito de falar, de escrever e de discutir quadrinhos de todos os tipos.

Capa da edição mais recente.

Mas, vamos ao que interessa.

No começo dos Anos 80 mangá não fazia parte do mix de leituras disponíveis nas bancas e, por isso, sou de uma geração de leitores de quadrinhos que passou a infância e a adolescência sem contato com o estilo.

Precisei de um certo tempo, com algum esforço, para começar a curtir. Hoje em dia está incorporado: sempre tenho um ou dois à disposição na pilha. Não virei um leitor compulsivo de mangás, como sou com quadrinhos de heróis por exemplo, e tem muito mangá que experimento e deixo pra lá, mas pelo menos compreendo melhor a proposta e “como funciona”.

Esta nossa terceira indicação da série Leituras para a Quarentena partiu de uma decisão prosaica: ano passado, vi a capa do número #01 de Caçando Dragões na banca e fiquei encantado com os traços delicados, mas super detalhados, e o belíssimo colorido. O tema me deixou curioso mas, antes que recorresse ao smartphone para fazer uma rápida pesquisa, decidi comprar.

Sim, foi pela capa, sem ter lido uma única resenha ou um mínimo comentário em outros sites, nem no Instagram, nem no YouTube… enfim, foi um “tiro no escuro” mas, ainda bem, acertei no alvo!

Gostei bastante da primeira edição e mais ainda das seguintes. Estou acompanhando com prazer o trabalho de Taku Kuwabara. É uma proposta razoavelmente complexa, mais que aparenta no início e, puxa vida, que arte linda!

Alguns dos protagonistas praticando a caça na primeira capa da série

Caçando Dragões – Kuutei Dragons no original – é uma leitura fluida, com diálogos bem cuidados, narrativa prazerosa e personagens interessantes. É uma obra recente, que ainda está em andamento no Japão e, por aqui, já saíram 5 volumes pela Panini Comics. Essa é outra razão para indicar a leitura: para quem se interessar, é possível encontrar todos os números nas comics shops e livrarias.

A proposta do mangá é intrigante, criativa e até ousada – o que gerou, quase que inevitavelmente, uma certa polêmica.

Aqui, acompanhamos a tripulação do Quin Zaza, uma espécie de barco voador, tipo um dirigível, em sua busca pelos dragões de um mundo fantástico. A missão desse navio é caçar implacavelmente dragões para vender sua carne. É, portanto, um empreendimento que vive do abate desses animais voadores fabulosos.

O autor dá muita importância à “vida a bordo” da aeronave, onde caçadores, cozinheiros, navegadores, pilotos e jovens aprendizes percorrem os céus de um planeta Terra muito semelhante ao nosso, mas ambientado em uma época não específica, equivalente ao final do século XIX talvez?, mas certamente antes das últimas revoluções tecnológicas.

Parte do trabalho da tripulação é cortar os bichos…

Sem dúvida, é uma leitura indicada para quem gosta de uma fantasia leve, sem superpoderes, onde uma das grandes curtições é descobrir, aos poucos, “como funciona” esta Terra, cuja sociedade foi extremamente impactada pela presença desses seres colossais, quase mágicos e pouco compreendidos.

Há dragões de formas e tamanhos muito diferentes e completamente inesperados. É uma abordagem criativa do mangaká. Afinal, o mais óbvio seria povoar o mundo com dragões ferozes, devoradores de humanos (como os das histórias tradicionais), ou então com malignos cuspidores de fogo, astutos, falantes e apreciadores de ouro (como Smaug, de O Hobbit). Na prática, estes dragões são parte da fauna local e funcionam do mesmo modo que qualquer outro filo animal: não são “maus” nem “bons” – apenas vivem em seu ecossistema, co-habitando com os pássaros.

Taku Kuwabara trabalha muito bem o world building, revelando suas características pouco a pouco, desde pequenos detalhes da rica culinária, até a enorme variedade de tipos de dragões; e distingue também uma cidade das outras, é cuidadoso com ocupações e profissões diversificadas dos habitantes, e gasta tempo ainda com a tecnologia, ferramentas, roupas e acessórios, tudo com um quê de steampunk.

Desde a capa, é impressionante seu lápis, sempre detalhista, tanto nas grandes paisagens como no interior da nave, das casas, no design intrigante dos dragões (alguns deles se parecem com moluscos, outros com um misto de peixe e baleias, outros são monstruosos mesmo!) e é ótimo na expressividade dos personagens e na narrativa. Lembra bastante o traço do Hayao Miyazaki. A propósito, os temas trabalhados – como o embate entre civilização e natureza, selvageria e bondade -, também coincidem com os do mestre da animação mundial.

Em suma, este é, sem dúvida, um dos mangás mais bonitos que já vi!

Outra qualidade deste quadrinho é que a história não foca em um único personagem; há um balanceamento entre os vários membros da tripulação e, conforme as edições avançam, ficamos sabendo mais das razões para cada um se alistar no Quin Zaza.

Na edição 3, uma tocante história em que Takita convive com um Bebê Dragão

Uma das mais jovens, por exemplo, Takita, é uma aprendiz, e ganha bastante espaço na edição #3 – minha favorita até agora – onde sem querer acaba se afeiçoando a um bebê dragão, que a conduz a uma experiência desconcertante.

Outros dois personagens em destaque são os caçadores veteranos Mika e Vanney. Ele, fascinado pela gastronomia em torno da carne de dragão; e ela, misteriosa e durona, ganha relevância a partir da edição #4, outro capítulo excelente, com mais ação e discussões sobre o papel desses animais.

Caçando Dragões é uma ótima HQ de aventura sim, mas é também uma alegoria à cultura da Caça às Baleias que, embora hoje nos pareça cruel e sem sentido, foi muito importante para grande parte do povo japonês, mas não só. Noruega, EUA, Portugal, Islândia, Espanha, Inglaterra… em determinados períodos históricos, especialmente entre 1700 e meados do século passado, a caça às baleias movia multidões e uma ampla economia em dezenas de países, inclusive em trechos do nosso litoral nordestino.

Felizmente, hoje a prática está quase completamente eliminada, e o consumo cai ano após ano. Por pouco as baleias não foram extintas e agora estão em processo de recuperação lenta e gradual.

Na verdade, os dragões do mangá “funcionam” de modo semelhante às nossas baleias no passado recente: são iguarias e fonte de energia, couro, ferramentas, abrigo, e cuja carne poderia alimentar vilas inteiras por meses.

Um dos primeiros dragões capturados por Mika

A polêmica citada é que o autor parece “promover” ou, mais comum de ver entre youtubers brasileiros, usa o mangá para criar uma certa “romantização” da indústria baleeira. As receitas com carne de dragão que marcam a passagem entre os capítulos seriam um exemplo concreto disso. Em outras palavras, a HQ tentaria transformar esse crime ecológico em algo menor, mais “bonito” do que deveria.

Embora seja um argumento compreensível isto é, afinal, uma obra de ficção: uma fantasia sobre um mundo alternativo onde dragões (e não baleias!) são animais desejados, mas ainda incompreendidos e temidos, que podem destruir vilarejos em surtos inexplicáveis.

Pessoalmente, acho pueril “deixar de ler” por causa disso. Por um lado, a obra ainda está incompleta e, por retratar um ambiente no passado, com ampla ignorância da população sobre esses seres, pode trazer reflexões ecológicas importantes para seus personagens (e leitores). Aliás, é bom ver dragões serem abordados como animais porque traz empatia – vi vários relatos de gente que “sentiu pena” do abate dos bichos, algo que eu também senti várias vezes.

Ou seja, o autor conseguiu trazer esse sentimento (o que não é fácil) e não parece algo sem propósito, gratuito. Sendo intencional, portanto, não é uma virtude do quadrinho? Por analogia, não nos faz sentir pena também das baleias? E as receitas com “carne de dragão” imediatamente nos fazem refletir: para fazer aqueles pratos poderia ser a carne de qualquer animal, não?

Indo além: por outro lado, O Poderoso Chefão “romantizou” a máfia e nem por isso seus fãs “apoiam criminosos”, correto? Há centenas de histórias em quadrinhos que “romantizam” vigilantismo, milícias, guerras, ditadores… e nem por isso o leitor que gosta dessas obras estaria apoiando tais práticas na “vida real”. Ou seja, é possível, e até fácil, separar as coisas. Sou totalmente contra a caça de animais silvestres, mas posso curtir esta leitura ficcional!

Enfim, Caçando Dragões é um mangá que cutuca, traz sentimentos diversos, é lindo, é intrigante, e é gostoso acompanhar o dia a dia dos personagens e desvendar este mundo e suas criaturas – todas elas!

Netlfix bancou a produção do Anime que começou neste ano

Em todo caso, recomendo a leitura tanto pelas qualidades do quadrinho em si, como também pela abordagem diferenciada e humanizada. Afinal, aqui não há superseres capazes de devastar planetas. São homens e mulheres simples, com grandes habilidades sim, mas cheios de falhas, com seus dramas, paixões e segredos.

Ah, o anime patrocinado pela Netflix entrou em exibição em 2020 no Japão, e vou ficar na torcida para sair também no Brasil.

Leituras para a Quarentena #02: Verões Felizes

Capa do primeiro volume

Olá pessoal, espero que todos estejam bem!

Vamos à nossa segunda indicação da série Leituras para a Quarentena e já esclareço que Verões Felizes não só merece entrar nesta como em qualquer lista de “obras mais bacanas dos quadrinhos”!

Só lembrando – caso você não tenha visto o post anterior – , as leituras aqui sugeridas em geral vão ter um caráter mais leve, mais positivista, para quem sabe alimentar nossa necessária esperança em dias melhores. E esta aqui, em especial, é uma obra que pode ser indicada para qualquer ser humano que queira se sentir bem!

É, inclusive, uma pedida muito interessante para aqueles que não gostam de histórias em quadrinhos.

Verões Felizes 1: Rumo Ao Sul é uma Graphic Novel curta, com apenas 64 páginas, lançada originalmente no mercado Franco-Belga em 2015 e que fez tanto sucesso que já gerou quatro sequências, tão deliciosas quanto a primeira.

Esta série da mega editora parisiense Dargaud, escrita pelo prolífico belga Zidrou, desenhada pelo espanhol Jordi Lafebre e com ótimas cores dele mesmo e de Mado Peña, não contém ação, terror, suspense, reviravoltas; não há um único tiro, nem cenas chocantes – e é exatamente aí que reside sua originalidade e frescor.

Verões Felizes retrata o cotidiano de uma família classe média belga em seus momentos de férias de verão, quando costumam se dirigir ao sul da Europa, em busca de calor e do mar. No caminho, há sim uma leve dose de aventura, mas totalmente “pé no chão”, com uma mistura de humor e drama, onde conheceremos os sonhos e as frustrações dos personagens – ou seja, exatamente como na maioria das famílias do mundo – ou pelo menos entre aquelas de estilo de vida ocidentalizado, talvez?

Vejamos: Pedro, o pai, é um espanhol que vive na Bélgica e desenha histórias em quadrinhos, produzindo arduamente para outros mas que também tem criações autorais, embora sem nenhum sucesso. Sua esposa, Madô, é vendedora infeliz em uma loja de sapatos. Louis, o único garoto, é um leitor compulsivo de quadrinhos do Lucky Luke e conversa com um amigo imaginário. As duas irmãs mais velhas, Nicole e Julie, vivem discutindo por qualquer coisinha, mas adoram batatas fritas com maionese, enquanto a caçulinha e fofa Paulette está ainda aprendendo as palavras e, principalmente por isso, é responsável por algumas das cenas mais despretensiosamente engraçadas.

Louis é um ávido leitor de quadrinhos

Com texto ágil e desenhos bem bonitos, é uma leitura rápida, prazerosa e que suscita doces memórias.

Aliás, esse é um ponto importante.

Como disse, acho que todos os públicos podem curtir mas, imagino que, quanto mais velho o leitor, mais poderá apreciar a obra, simplesmente porque terá um maior volume de emoções despertadas.

Isso porque a HQ é pura nostalgia.

Como a abordagem de Zidrou remete a uma forma de passar o verão em família, o quadrinho traz basicamente dois pontos de vista: do casal e das crianças. Assim, se você já for um pai ou uma mãe, portanto, vai conseguir resgatar suas memórias da infância e, ao mesmo tempo, poderá se identificar também com a visão das férias dos adultos.

Os passeios da família Faldérault são por cenários da Europa Ocidental e Mediterrânea – claro, um pouco diferentes dos nossos – , mas o “espírito” é o mesmo: se lá eles curtem banhos em rios, piqueniques na beira de lagos ou no quintal de alguém, além de paradas em campings estratégicos, seria o equivalente (ao menos para muita gente aqui do estado de São Paulo) aos passeios pelo litoral ou aquela temporada na chácara ou no sítio de um tio ou avô no interior.

O casal rememora suas férias em família

Como estou na casa dos 40 anos, casado e com filhos, “me projetei” muitas vezes no entusiasmo das crianças, em geral alheias aos problemas dos adultos.

Meus verões da infância foram particularmente marcados pelos dias e noites quentes de Caraguatatuba, com primos, avós, tios e muito sorvete, banho de mar, castelos na areia, idas ao parque de diversões e passeios no calçadão. Ler Verões Felizes é mesmo uma deliciosa viagem ao melhor do passado.

Interessante que a HQ parte de um argumento simples, mas sua realização não tem nada de simplória: o cotidiano é retratado de maneira bela, delicada. O roteiro e a arte trazem cuidados sutis na construção das personalidades de cada membro da família, com destaque para a difícil tarefa de distinguir, de tornar única, cada uma das crianças.

Zidrou foi professor e certamente sua experiência prévia o ajudou nisso. A propósito, o roteirista hoje vive exclusivamente de seus textos para quadrinhos, tendo acumulado uma vasta produção exatamente para crianças e adolescentes e, só mais recentemente, álbuns também para adultos. Esse histórico me instigou a procurar outros trabalhos do belga.

E os desenhos? Impossível pensar em outro artista para retratar esta simpática família. Jordi é um espanhol que também teve experiência com literatura infantil e é professor de arte. Capaz de muita leveza e com uma narrativa fluida, seu ponto forte, sem dúvida, é a expressividade que consegue imprimir em todos os personagens e, certamente, a capacidade de fazê-los “gente como a gente”.

A expressividade dos personagens é um dos pontos fortes do traço de Jordi

Verões Felizes é publicado pela SESI-SP Editora, com tradução de Fernando Paz, e  no Brasil foram lançados os três primeiros Álbuns:

1. Rumo ao Sul é sobre o Verão de 1973.
2. A Calanque, sobre o Verão de 1969.
3. A Senhorita Estérel, sobre o Verão de 1962.

Cada álbum pode ser lido de maneira independente mas, na medida do possível, sugiro pegar a primeira edição. Por não ser capa dura e ter várias reimpressões é fácil encontrar com bons descontos nas livrarias virtuais. Prefiro comprar meus quadrinhos e livros no mundo real mas, como estamos em quarentena, essa é a única opção no momento.

Se puderem, procurem livrarias e comic shops independentes. É legal dar uma força para os pequenos, ainda mais agora!

Leituras para a Quarentena #01: Bone.

Olá pessoal, espero que todos estejam bem!

Conforme prometido, vamos começar uma série de indicações de Histórias em Quadrinhos especialmente pensadas para quem está com um tempinho a mais sobrando, por conta da quarentena imposta por esta terrível crise sanitária mundial.

A célebre “corrida de vacas” é o destaque da capa do Box da edição brasileira.

Estamos atravessando um período conturbado, tenso, atípico e, talvez mais angustiante, um momento em que ainda não é possível prever até quando irá durar e que, inegavelmente, trará mudanças irreversíveis em diversas áreas das nossas vidas, inclusive transformações comportamentais e de convivência no trabalho, na escola, com a saúde, com o tempo, com o consumo, etc.

Claro que muitos precisam sair para trabalhar, e alguns estão trabalhando mais do que nunca – e não estou me referindo apenas aos profissionais de saúde ou de outras áreas essenciais, como segurança, energia, internet – porque mesmo para quem está em Home-Office, o volume de atividades pode ser intenso, restringindo o tempo para leitura e outras formas de lazer e entretenimento.

Por conta de tudo isso, acho mais recomendável indicar leituras com um caráter otimista – ou melhor, mais para o leve e menos para o angustiante -, e que em geral traga uma perspectiva de esperança em dias melhores que, temos certeza, virão!

Bone, de Jeff Smith, é uma obra que transborda esperança e ainda traz muitas doses de aventura e comédia, embaladas em uma fantasia medieval, claramente inspirada em Senhor dos Anéis, mas com personagens muito carismáticos, únicos, que vão fazer o leitor sentir saudades depois de concluída porque sim – ela tem um começo, meio e fim definitivos. Não haverá Parte 2 ou continuação. É, vejam só, uma obra finita! – coisa rara na Cultura Pop.

Uma das terríveis Ratazanas carnívoras

Jeff Smith publicou sua bela obra-prima de maneira esparsa nos anos 90 e só conseguiu concluir no começo da década de 2000 – exatamente na contramão do que mais se consumia na época, ao menos no mercado norte-americano.

Enquanto os super-heróis vendiam milhões de exemplares em um mercado crescentemente especulativo, com suas múltiplas edições #01 e capas metálicas, com cópias abundantes e sem graça do Wolverine, Justiceiro e X-Men na Image e outras editoras nascentes, e as próprias Marvel e DC transformavam seus ícones em versões extremas; com a “morte” do Superman; a “coluna partida” do Batman e com os “clones” do Homem-Aranha; e HQs “adultas” repletas de sangue e de subversões do lado alternativo, Bone surgiu como um audacioso ponto de luz, uma “peça de resistência” à todo esse cenário, com uma nova e autêntica abordagem, a partir de personagens inéditos “fofinhos”, que conversam com animais (?!), publicado de forma independente, em preto e branco e papel barato, tudo bancado pelo próprio autor e sua esposa.

Mas eis que o título, que saía de forma irregular, com baixa tiragem, distribuída em um restrito circuito de Comic Shops e pequenos eventos, aos poucos foi chamando a atenção dos leitores, da crítica especializada e não tardou para cair nas graças de quadrinistas famosos, que passaram a recomendar e a elogiar a obra e seu criador, Jeff Smith. Não custa contextualizar: isso tudo foi antes da internet, de smartphones e redes wi-fi.

E então vieram as premiações, que se acumularam ao longo de toda a sua publicação: venceu 11 prêmios Harvey (!) e 10 Eisner (!!). Editado em 25 países, vendeu milhões de unidades e ainda foi indicado pela revista Time como um dos 10 melhores quadrinhos de todos os tempos!

O Dragão Vermelho, Fone Bone e a adorável Espinho

Nada mal para um quadrinho independente de bichos falantes, mas é perfeitamente compreensível entender o porquê do seu sucesso quando o leitor encara a bela versão brasileira da Editora Todavia, que compila a obra completa (pela primeira vez no Brasil) em 3 volumes, com tradução de Érico Assis. Eu peguei na versão Box, completinha, em uma boa promoção uns meses atrás.

Não vamos entrar em detalhes, mas “Bone” na verdade refere-se ao trio de protagonistas, os primos Fone, Phoney e Smiley, pertencentes a uma espécie curiosa de seres, ou talvez seja uma raça de pequenos humanos (não é explicitado isso em nenhum momento e, de fato, é parte do charme da aventura), desenhados em forma de Cartum, com as características de personagens da Disney ou da Turma da Mônica, ou até de tiras de jornal mais simples do começo do Século XX, com traços nem um pouco sofisticados, mas que por isso mesmo trazem uma autenticidade e um frescor ao quadrinho.

Interessante também acompanhar a evolução técnica de Smith, que nos primeiros números ainda se esforçava com a narrativa, às vezes truncada, e com um roteiro meio vago, com enxames de gafanhotos aleatórios, animais falantes, ratazanas gigantes abobadas e uma vovozinha e sua neta vivendo isoladas no meio de uma floresta.

Não deixe esse começo meio morno afastá-lo dos capítulos seguintes, ó fiel leitor! Aos poucos, a história ganha dramaticidade, inúmeros personagens surgem, quase sempre muito bem delineados, e quando o roteiro aponta uma jornada épica, aí sim, fica difícil deixar de concluir a leitura.

Nas páginas internas percebemos a influência do mestre Barks

Não é uma HQ sem falhas. Mesmo lá na parte final, algumas páginas parecem redundantes, as ameaças, às vezes repetidas, mas logo surge um diálogo esperto, um feito impressionante ou uma situação engraçada que faz com que a gente releve essas pequenas inconsistências.

Bone é indicado para qualquer faixa etária e pode sim ser uma porta de entrada para aqueles que abandonaram quadrinhos na infância e gostariam de retornar, mas não se empolgam com os intrincados universos de super-heróis, ou procuram algo menos pretensioso ou denso como os trabalhos de Alan Moore ou Grant Morrison. Certamente é uma boa pedida para fãs de RPGs, de Tolkien, imperdível para quem adora as aventuras dos Patos de Carl Barks (talvez a maior referência estética e no storytelling de Jeff Smith) ou de uma aventura leve sim, mas encantadora.

De todos os quadrinhos que li recentemente, Bone vira e mexe volta à minha lembrança, e um sorriso automaticamente aparece. Vale a pena embarcar na saga aparentemente inexistente (a julgar pelas capas rsrs) mas completamente viciante que os simpáticos e encrenqueiros Bones e sua imensa trupe de amigos e inimigos humanos, animais de todos os tamanhos, dragões e outros seres mágicos trazem nestas mais de 1.300 páginas de histórias em quadrinhos.

Indicação de Leituras para 2020!

Olá pessoal. Espero que estejam todos bem!

Vou retomar as publicações aqui no Blog, sugerindo leituras, escrevendo resenhas, comentando sobre quadrinistas e outros assuntos relacionados ao mundo, ou melhor, ao universo inesgotável e encantador das histórias em quadrinhos.

Estive bem ocupado nos últimos meses, por conta de trabalho mesmo… e, na verdade, continuo. Mas, graças ao confinamento, sou obrigado a ficar online quase o dia inteiro. Então, vou aproveitar para deixar o Lendo Quadrinhos vivo.

A propósito, temos um Instagram que está sempre ativo, com atualizações quase diárias:

@bloglendoquadrinhos 

Ah, também temos uma Página no Facebook e um Grupo Privado, exclusivamente para falar sobre nossa paixão. Participem!

Página: @lendoquadrinhos
Grupo: lendoquadrinhos 

Abraços e até breve.

Sonho é ler quadrinhos até a velhice…

Feira de HQs no Liceu Pasteur em São Paulo

É com grande satisfação que o Blog Lendo Quadrinhos convida a todos os apaixonados pela nova arte para uma nova edição da Feira de HQs no Liceu Pasteur, na Vila Mariana, em São Paulo, neste sábado, 28.09.2019.

Será um encontro de colecionadores, quadrinistas e editoras no pátio do colégio, para um agradável bate papo, exposição e venda de revistas em quadrinhos novas e usadas, prints, ilustrações e muito mais.

Participe: das 9h às 12h – Evento Gratuito!

Quadrinistas Confirmados, autografando suas obras:
. Felipe Folgosi
. Alexandre Jubran
. Régis Rocha (Afrodinamic)
. Julius Ckvalheiyro
. Fabrício Grellet

– E ainda:
. Alexandre Morgado, um dos maiores colecionadores de HQs do Brasil e autor do livro “Marvel Comics: a Trajetória da Casa das Ideias no Brasil” expondo e vendendo parte de seu acervo!
. Workshop de Desenho de HQs (às 10h).
. Palestra: Processo Criativo na Produção de uma HQ, com Fabrício Grellet – Criador, Roteirista e Editor, autor de “Jacques Demolay, o Mártir Templário” e dezenas de quadrinhos para Disney, Image e outras editoras estrangeiras (às 11h).

Endereço: Liceu Pasteur Unidade Mayrink.
Rua Mairinque, 256, Vila Mariana, São Paulo (entrada pelo portão da Diogo de Faria). Esperamos vocês por lá!